Dia
das Crianças se comemora apenas com brinquedos?
Pesquisa mostra que as vendas este ano
devem ser 5% maiores do que no ano passado;
Casas do Brincar fortalecem vínculos das crianças
com a família e as brincadeiras em Belo Horizonte;
Trabalho e medo da violência diminuem freqüência
das brincadeiras em espaços públicos.
No próximo domingo, 12 de outubro, o Brasil
comemora o Dia das Crianças. É certo
que a cena se repetirá: lojas de brinquedo
cheias de adultos que procuram agradar a meninos e
meninas com os últimos lançamentos da
indústria. Em Belo Horizonte, as vendas devem
ser 5% maiores no comércio varejista em relação
a outubro do ano passado, revelou uma pesquisa de
opinião realizada no período de 15 a
26 de setembro pela Câmara de Dirigentes Lojistas
de Belo Horizonte. (ver Box)
Mas será que os brinquedos são os únicos
presentes de que as crianças precisam?
A
atenção dispensada por pais, mães
e responsáveis não deve ser substituída
por um jogo, carro ou uma boneca nova. Levar o filho
ou a filha para brincar, e interagir com ele, traz
benefícios para a vida toda. Ter acesso a praças,
parques e outros espaços públicos representa,
também, o exercício da cidadania.
A garantia desse direito está determinada no
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
Lei Federal nº 8.069/90. O artigo 59 do Estatuto
assegura que "os municípios, com apoio
dos Estados e da União, estimularão
e facilitarão a destinação de
recursos e espaços para programações
culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância
e a juventude".
Em Belo Horizonte, segundo a Empresa Municipal de
Turismo da cidade, Belotur, há 27 parques e
cerca de 500 praças públicas disponíveis
para a população. Em 17 Centros de Referência
de Assistência Social (CRAS) da capital também
funcionam as "Casas do Brincar", que estimulam
as crianças a se divertirem.
A coordenadora geral do Projeto, Rita de Cássia
Rodrigues de Freitas, explica que Casas atendem cerca
2.500 crianças que estão na primeira
infância, fase que vai de 0 a 6 anos, oferecendo
a elas um ambiente lúdico. Meninos e meninas
visitam as casas três vezes por semana, sempre
acompanhados de um familiar, onde permanecem por uma
hora. A coordenadora destaca que a Casa do Brincar
é uma forma de resgatar o convívio da
criança com as brincadeiras, com as outras
crianças e principalmente com a família.
As oficinas utilizam brinquedos, livros e CDs, que
a unidade oferece. "O objetivo é agregar
valores à formação das crianças
e fortalecer as atividades de prevenção
e educação, que acontecem nas escolas
e centros de saúde", afirma Rita de Cássia.
As Casas do Brincar também contam com o atendimento
de psicólogos, assistentes sociais e oficineiros.
Brincar
nas ruas
Iniciativas como a Casa do Brincar são muito
importantes, mas e as ruas? Continuam sendo espaço
para a brincadeira? A professora da Faculdade de Educação
da UFMG, Maria de Fátima Martins, uma das organizadoras
do livro Infância na Metrópole, avalia
que as crianças não se apropriam do
espaço público como antes. "A cidade
assumiu uma característica determinada pela
lógica da velocidade. A rua é agora
o local de passagem, antes ela era também o
lugar da apropriação. A cidade está
sendo completamente dominada por uma lógica
que é a do carro e do trabalho", avalia.
Em conjunto com os professores, José Alfredo
Oliveira Debortoli e Sérgio Martins, a pesquisadora
observou crianças nas praças e ruas
de dois bairros da capital mineira com características
socioeconômicas opostas: o Belvedere, na Zona
Sul, e o Confisco, na Região da Pampulha.
A conclusão é de que meninos e meninas,
apesar de ainda brincarem fora de casa, agora fazem
isso atrelados ao tempo dos adultos, que é
o tempo do trabalho. Por medo da violência,
os pais não deixam mais que as crianças
brinquem sozinhas, sem estarem acompanhadas por um
responsável.
A soma do trabalho com o medo da violência restringe
as possibilidades de socialização das
crianças, que dedicam boa parte do seu tempo
a atividades como: assistir televisão, ver
filmes, jogar videogame ou navegar pela Internet.
Segundo a psicóloga da Universidade de São
Paulo (USP), Yara Sayão, quanto menos a criança
interage com pessoas diferentes, menos ela aprende.
E quem perde não são somente as crianças,
as brincadeiras de roda, amarelinha e outras vão
se tornando escassas com o passar do tempo. "As
brincadeiras fazem parte da cultura de certa localidade.
Se a criança não tem acesso, pode se
promover certo desenraizamento da cultura local. É
uma perda que algumas escolas vêm preocupadas
em resgatar. Quaisquer outros educadores sejam pais,
mães, professores podem promover esse estímulo.
É uma questão que está ligada
à cultura local", avalia a psicóloga.
O
Dia das Crianças e o comércio
- Dos adultos entrevistados, 56% comprarão
presentes somente para os filhos;
- Principais critérios utilizados pelos pais
na hora da compra: o brinquedo e o fato dele ser apropriado
para a idade (38,59%), durabilidade/resistência
(17,11%), ser educativo (14,43%), segurança
(14,09%), e aprovação do Inmetro (10,07%);
- 48,66% dos pais começam a presentear os filhos
antes que eles completem um ano de vida e 56,12% deixam
de fazê-lo no Dia das Crianças, quando
atingem 12 anos. (Fonte: Câmara de Dirigentes
Lojistas de Belo Horizonte)