Qual
é o destino dos adolescentes que completam
18 anos em abrigos?
Experiência do Rio de Janeiro mostra
que muitos vão para as ruas - Repúblicas
se apresentam como alternativa - Minas Gerais pretende
implantar programa inspirado em modelo italiano.
Apesar do acolhimento
de crianças e adolescentes ser previsto em
lei como algo que deve acontecer de forma excepcional
e temporária, muitos jovens completam 18 anos
em instituições de acolhimento e se
vêem sem ter um lugar para onde ir. "São
jovens que se tornam dependentes institucionais. A
instituição sai e eles não têm
a tutela do Estado e também não estão
profissionalizados", explica o coordenador do
Programa de Construção de Autonomia
do Centro de Estudos e Ação Excola no
Rio de Janeiro, Antônio Monteiro. Levantamento
realizado em 2003 com instituições que
recebiam repasses do governo federal mostrou que havia
mais de dois mil adolescentes entre 16 e 18 anos acolhidos.
No país,
não há registros sobre todas as iniciativas
voltadas para o atendimento a este público.
Em alguns estados, experiências de constituição
de repúblicas têm procurado solucionar
este que é um dos grandes nós das políticas
de acolhimento institucional. O coordenador do Programa
de Fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos
da Criança e do Adolescente da Secretaria Especial
de Direitos Humanos, Benedito dos Santos, afirma que
a orientação é para que os abrigos
busquem inserir os adolescentes em outras políticas
públicas, como o Projovem e os programas de
primeiro emprego. Se mesmo com estes encaminhamentos,
os jovens ainda não tiverem condições
de se manterem quando chegam à maioridade,
outros programas, como as repúblicas, podem
ser uma alternativa.
Em Belo Horizonte,
os jovens que saem dos abrigos são automaticamente
inseridos no programa para a população
adulta de rua, de acordo com a Secretaria Municipal
Adjunta de Assistência Social. Assim, eles passam
a ter direito a dormir em um albergue e a freqüentar
o Centro de Referência para a População
de Rua durante o dia. Neste tempo, são avaliados
e podem chegar a ir para uma república e a
receber uma bolsa moradia. Porém, a coordenadora
de ação educativa da Casa de Passagem
Dom Bosco, Sandra Barbosa, ressalta que as crianças
e adolescentes acolhidas em um abrigo nem sempre vieram
da rua, e não necessariamente têm que
voltar a ela. Na Casa de Passagem Dom Bosco, quando
um adolescente chega à maioridade e não
tem para onde ir é integrado a uma república
mantida pelo abrigo Irmão Sol.
Benedito dos Santos
enfatiza, se referindo a programas como repúblicas,
que esse tipo de medida deve ser temporária,
porque não é uma escolha feita pelo
jovem: "há um momento em que ele deve
ter condições de tocar sua vida por
conta própria". Para Antônio Monteiro,
é necessário rever as práticas
dos abrigos que são pensadas para atender ao
bom funcionamento da casa e não ao desenvolvimento
psicossocial do sujeito. "Um exemplo disso é
que nos abrigos, no horário das refeições,
os pratos já são entregues prontos,
o que é muito mais fácil para a instituição,
mas reforça a dependência dos jovens",
avalia.
Resposta
estrangeira
Exemplo interessante de trabalho para a promoção
da independência desses jovens é dado
pela Itália, como relata a coordenadora especial
de políticas pró-Criança e adolescente
da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social
de Minas Gerais (Sedese), Fernanda Flaviana Martins.
"Lá é feito um trabalho com adolescentes
para que aos 14 o adolescente já comece a pensar
a autonomia dele, desde arrumar a casa, o cuidado
com suas coisas, com seu corpo", explica Fernanda
Martins. Dos 16 aos 18 anos, os jovens vão
para uma república com poucos adolescentes
e ficam com um responsável. Eles também
são estimulados a procurar trabalho e fazer
contato com outras pessoas da sua idade.
Mesmo que a família
esteja ausente, a formação de um grupo
de pessoas que seja referência para o adolescente
é importante para a sua formação
como adulto e para que sirva de apoio depois que ele
deixar o abrigo. "No abrigo, ele não está
preso. Ele tem que ter convivência comunitária,
jogar bola no campo do bairro, ter amigos, ir à
festa na casa dos amigos, levar amigos ao abrigo.
É muito difícil? Na Itália, os
meninos tinham a chave do abrigo", enfatiza Fernanda
Martins. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento
Social está em vias de fechar uma parceria
técnico-financeira com o governo da cidade
de Trento, Itália, para que um programa semelhante
seja implantado em Minas Gerais. No final de dezembro,
os italianos darão a resposta, e, caso seja
positiva, no início do próximo ano será
implantado um programa piloto.
Caminhos
fora do abrigo
Há 13 anos, educadores que trabalhavam nas
ruas do Rio de Janeiro constataram que os adolescentes
egressos dos abrigos assumiam três caminhos
predominantemente: a rua, o tráfico ou as prisões.
Por isso, criaram o Programa Construção
de Autonomia. Coordenador e um dos fundadores do programa,
Antônio Monteiro conta que a idéia inicial
era de se montar casas que funcionassem como repúblicas
de estudantes, onde todos os jovens se responsabilizassem
pela organização e pelas despesas. A
primeira república foi implantada em 1995 e
revelou que, mais do que moradia, os jovens precisavam
de orientação para aprender a lidar
com liberdade e construir o próprio projeto
de vida.
Hoje, o adolescente
constrói, com o auxílio do projeto,
um plano de ação e recebe orientações
sobre o mundo do trabalho e formas de profissionalização.
A expectativa é que cada jovem fique no programa
por, no máximo, dois anos e meio. A Excola
se responsabiliza pelos custos fixos como aluguel
e alimentação e os adolescentes têm
a obrigação de arcar com os custos de
energia elétrica. "Já atendemos
cerca de 350 jovens e 70% saíram com perspectiva
de moradia e de trabalho, que é o grande nó
pra eles. Mas muitos voltam e nos procuram. É
um público que vive na corda bamba", relata
Antônio.