| |
Fundação
Palmares / Divulgação |
|
| |
 |
|
| |
Zulu
Araújo |
|
"Guerreando
pra sorrir"
quarta-feira, 13 maio, 2009 15:07
A
lição do meu avô, que casou com
minha avó e pariu a minha mãe
Zulu Araújo
Presidente da Fundação Cultural Palmares
Abolição,
palavra carregada de sentidos, dores, afetos e interpretações
as mais diversas. Palavra que incendiou corações
e mentes no século XIX e estimulou discussões
apaixonadas sobre a vida, a liberdade e o futuro da
humanidade. Símbolo que titulou movimentos
libertários e tornou-se o principal combustível
para a entrada do Brasil no século XX. Conteúdo
concreto que povoou os sonhos de milhões de
brasileiros ao longo de quase 400 anos. Mas, apesar
de tudo isso, há uma forte inquietação
quanto ao seu significado nos dias de hoje.
Vivemos momentos
de perplexidade diante de tanta polêmica e reações
indignadas por parte de setores da sociedade brasileira.
Isso, por causa das políticas públicas,
implementadas para a promoção da igualdade
racial no Brasil, mais conhecidas como políticas
de ações afirmativas. Por isso, vale
perguntar: Para que conquistamos a Abolição?
Que idéia ou sentido de liberdade gerada por
este ato deve orientar nossas ações
nos dias de hoje?
O poeta José
Carlos Capinam, ícone do movimento tropicalista
nos anos 1960, nos dá uma pista. Com versos
poéticos e precisos, no poema/canção
Abolição, ele nos ensina: "Acabar
com a tristeza, com a pobreza e o apartheid, não
fazer da humanidade, a metade da metade, parte branca,
parte negra". Pois bem, é com esses versos
na cabeça e um tanto de emoção,
que gostaria de responder às indagações
acima.
Abolição
para que a sociedade brasileira conquiste a cidadania
plena, o desenvolvimento econômico e social,
para que todos seus filhos, independente da cor da
pele, de sua origem social ou opção
religiosa possam ser tratados com dignidade e igualdade,
conforme a Constituição. Mas também
para que, em seu nome e em nome de milhões
de brasileiros e brasileiras, que empunharam essa
bandeira com coragem e distinção, impeçamos
que a desigualdade, o racismo e a discriminação,
gerados por séculos, naturalizem-se em nosso
cotidiano, como parte do nosso jeito mestiço
de ser.
Abolição
para sensibilizar e conscientizar os homens e mulheres
que dirigem o país, em especial aqueles que
nos representam na Justiça e no Parlamento,
de que a promoção da igualdade racial
não pode ser apenas o recheio mágico
de discursos vazios sobre a beleza da mestiçagem,
o encanto das mulatas etc. Ainda mais quando estudos
e pesquisas apontam para a iniqüidade das relações
raciais no Brasil, a exemplo do uso do critério
da "boa aparência", que leva à
exclusão milhões de brasileiros e dificulta
a eles o acesso a determinados nichos do mercado de
trabalho, como a publicidade, a moda e a televisão.
Abolição
para impedir que o conservadorismo e o medo que latifundiários
impingem ao campo, sempre que tratamos de regularização
da terra, nos leve a ignorar a presença de
milhões de remanescentes de quilombos, que,
apesar de tanta dor e indiferença, continuam
resistindo nos rincões do país, com
a viva esperança de que a abolição
os alcance de fato e assim possam ter acesso àquilo
que lhes pertencem por justiça e direito.
Abolição
para superarmos a abissal diferença entre a
qualidade do ensino público e privado e a exclusão
de um enorme contingente de jovens brasileiros do
ensino superior. Afinal, o Brasil contemporâneo,
aberto, criativo e plural não pode entregar
à própria sorte parte da juventude brasileira
a grupos de extermínio e a narcotraficantes.
Reconhecer esse direito e possibilitar a reparação
histórica por meio da ampliação
do acesso desses jovens às universidades públicas
é mais que um dever, é um compromisso
com o futuro do país.
Portanto, a celebração
desses 121 anos da abolição da escravatura
no Brasil, só tem sentido se, de um lado, debelarmos
a hipocrisia que grassa na sociedade quanto à
questão racial (todos consideram que existe
racismo no Brasil, mas ninguém se intitula
enquanto agente de tal crime), e, de outro, dermos
conteúdo real às aspirações
de mais da metade da população brasileira.
Ou seja, é preciso instaurar a abolição
definitiva da discriminação, que ainda
persiste no Brasil, por meio de ações
concretas que levem à promoção
da igualdade racial e social. E nada melhor que o
poeta Capinam para nos inspirar: "Abolir essa
careta, que esconde a Natureza e que me faz ser teu
irmão. Abolindo a velha intriga e guerreando
pra sorrir".
Assessoria de Comunicação
www.palmares.gov.br