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Ana
Nascimento / MDS |
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Maria
Almeida, líder comunitária da comunidade
quilombola de Angico, em frente ao muro da escola
que leva o nome de sua mãe |
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O
quilombo de Angico existe há cerca de 300
anos. Ali vivem cerca de 220 famílias. |
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“Os
quilombolas agora têm voz”, diz líder
comunitária de Angico (PE)
sexta-feira, 20 novembro, 2009 18:45
No Dia Nacional
da Consciência Negra, 20 de novembro, a presidente
da Associação Quilombola de Angico (PE),
Maria Márcia Rodrigues de Almeida, é
um exemplo da luta dos negros em busca de seus direitos.
Para ela, os programas sociais do Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS) garantem uma vida mais digna aos quilombolas,
mas reforça que a questão da terra e
da saúde ainda são precárias
Maria Márcia
Rodrigues de Almeida mora na comunidade quilombola
de Angico - Município de Bom Conselho (PE)
– e, como outros moradores, luta para fazer
valer os seus direitos. Altiva, de olhar sério
e um sorriso acolhedor para todos que cruzam seu caminho,
Márcia nasceu ali há 37 anos. Perdeu
a mãe há muito tempo e, hoje, mora com
o pai e um dos três irmãos numa casa
humilde, de fachada verde, cercada por galinhas, cachorros
e o já tradicional carro de boi, comum na região.
Ela acredita que herdou da mãe, a parteira
Doralice Rodrigues da Silva, a garra e a vontade de
trabalhar pelo seu povo.
“Uma das
duas escolas da comunidade tem o nome de minha mãe.
Isso foi decidido pelos próprios moradores
daqui e votado na Câmara Municipal”, diz
orgulhosa. O compromisso de Márcia com o povo
quilombola pode ser comprovado no movimento constante
de parentes e amigos da vizinhança durante
todo o dia em sua casa. Ao lado da pequena construção,
uma singela igreja em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.
À noite, a igreja vira escola e recebe adultos
da região. É nela também que
são guardados os litros de leite adquiridos
por meio do Programa de Aquisição de
Alimentos (PAA), coordenado pelo Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS), que são distribuídos, duas vezes
por semana, a 70 famílias.
Incansável
- Percorrer os cerca de 130 hectares de terra de Angico,
com Márcia ao volante de um velho automóvel,
é uma experiência ímpar. Na estrada
de terra, pouco mais larga que um veículo de
médio porte, muitos buracos, pedras, alguns
carros de boi e animais soltos. Parando de casa em
casa, abrindo e fechando porteira, pulando arame farpado,
lá vai ela. Conhece todo mundo e seus problemas.
Seu trabalho incansável é reconhecido
pelas famílias do quilombo. Ouve as reivindicações
de cada um e promete encaminhá-las e resolve-las.
“Pode deixar que eu vou ver isso”. A mesma
resposta que é dada, pessoalmente, é
dita pelos celulares. Márcia tem dois que tocam
a todo minuto.
Presidente da
Associação Quilombola de Angico e membro
da Comissão das Comunidades Quilombolas do
Estado de Pernambuco, Márcia, que também
é bióloga, agora quer cursar Serviço
Social. Sonha que aqueles que nasceram no quilombo
permaneçam na terra para a preservação
da cultura.
A líder
comunitária presta também assessoria
ao Territórios da Cidadania - programa do Governo
Federal que envolve 22 ministérios, entre eles,
o MDS, com o objetivo de integrar políticas
para o desenvolvimento da região.
“Acho que
a educação é o caminho para ajudar
a comunidade e garantir o seu espaço”,
enfatiza Márcia, que já trabalhou na
roça e caminhava, diariamente, oito quilômetros
até a cidade para estudar. Deu aula por 15
anos, tendo sido, inclusive, diretora de uma das escolas.
“O primeiro relógio que comprei foi colhendo
algodão, por isso sei que é difícil
passar o dia inteiro na roça e à noite
ir para a escola”, conta.
Para Márcia,
hoje o povo quilombola tem voz e discute as suas necessidades
com governo e sociedade civil, o que considera uma
verdadeira conquista.
Compromisso -
“Márcia, diz aí pra moça
o meu nome todo que não sei não”,
pede uma das mais antigas moradoras do quilombo quando
lhe pergunto seu sobrenome. E é sempre assim.
Para a comunidade, Márcia é porto seguro
e a certeza de dias melhores e, nela, todos depositam
sua confiança.
A líder
comunitária destaca a importância dos
programas sociais na melhoria da qualidade de vida
dos moradores do local. “Entre outras coisas,
conseguimos 60 cisternas. Antes, a gente não
tinham onde pegar água”, mas reforça
que terra, saúde e a discriminação
são os principais desafios que o povo quilombola
enfrenta.“Ainda somos discriminados por sermos
negros e por lutarmos por nossos direitos sem arredar
o pé. A partir do momento que vejo outras pessoas
engajadas nessa luta, com aquela visão de construção,
fico muito feliz”, assegura.
Essa mesma mulher,
jovem e determinada, cai em prantos quando pergunto
porque ela permanece na comunidade mesmo enfrentando
tantas dificuldades. “Já tive oportunidade
de sair daqui mas sou apaixonada pelo que faço
e não tenho coragem de abandonar os meus. Eu
seria covarde agindo dessa forma”, relata, entre
lágrimas.
Programas sociais
– No quilombo de Angico, 125 famílias
são beneficiárias do Programa Bolsa
Família do Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome. No Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil (PETI) estão 45 crianças
e adolescentes. São 18 rapazes e moças
no Projovem Adolescente com aulas de informática,
entre outras atividades. Segundo dados locais, o quilombo
de Angico existe há cerca de 300 anos. Ali
vivem cerca de 220 famílias. Em 2007, o censo
realizado pela Fundação Nacional de
Saúde (Funasa) apontou 1.004 pessoas vivendo
no quilombo.
Em todo o Brasil,
há 23 mil famílias quilombolas beneficiárias
do Bolsa Família e 277 Centros de Referência
de Assistência Social (CRAS) que atendem essa
parcela da população. As comunidades
quilombolas também são atendidas nos
programas de Aquisição de Alimentos
da Agricultura Familiar (PAA), Construção
de Cisternas , Cestas de Alimentos e Inclusão
Socioprodutiva.
Dia da Consciência
Negra - Celebrado em 20 de novembro no Brasil, o Dia
da Consciência Negra é dedicado à
reflexão sobre a inserção do
negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida
por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares,
em 1695, e marca a resistência do negro à
escravidão, desde o primeiro transporte forçado
de africanos para o solo brasileiro, em 1594.
Os quilombolas
são descendentes dos escravos africanos trazidos
para o País por colonizadores europeus. Os
primeiros quilombos reuniam escravos fugidos das grandes
fazendas, que se organizavam em comunidades para a
subsistência. A Constituição de
1988 prevê no Artigo 68 o reconhecimento, a
delimitação e a titulação
das terras dos quilombolas.
Ana
Soares / ASCOM / MDS