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segunda-feira, 4 abril, 2011 13:58

Preconceito - O pai e a mãe de todas as nossas tragédias

 
 
 
John Leech (1817–1864) Wikipedia
 
   
  Ebenezer Scrooge se encontra a Ignorância e a Miséria em 'Canção de Natal' de Charles Dickens.  
 
Arquivo/FCP
 
   
  Martin Luther King  
     

Duas potestades, a Ignorância e o Medo casaram-se e tiveram um filho. O Preconceito.

Criado pela mãe que nunca se importou em pesquisar ou compreender as miríades humanas e por um pai que nunca ousou dar um passo em direção ao novo, Preconceito cresceu achando que o mundo se resumia aos conceitos próprios dos dois. A vida era feita de um dia-a-dia repetitivo e absolutamente agendado.

- Mãe por que isso?

- Não sei e não quero saber, continue fazendo o que mando.

- Pai, por que isso?

- Porque sim, melhor não especular demais, pode ser perigoso.

Essas eram as respostas que Preconceito sempre escutava não importava a pergunta que fizesse. E assim cresceu, conheceu o mundo e tornou-se forte, poderoso, inquestionável. Tornou-se governador do mundo.

Tudo que passava diante dos seus olhos e da sua caneta, recebia o julgamento baseado nos ensinamentos do pai e da mãe. Tudo que não se enquadrava no seu rígido critério, era imediatemente colocado à margem, perseguido, esquecido, preso ou morto.

Um primo distante, o Diálogo, teve chances de chegar perto do parente poderoso, mas por mais que tentasse, nunca demovia Preconceito de seus valores.

Estatísticas, estudos, teorias e mesmo a realidade flagrante, eram incapazes de tocar o coração de Preconceito. Era a palavra dele e pronto.

Preconceito morreu um dia, mas havia plantado raízes tão profundas que seus conceitos nortearam e ainda norteiam a conduta de muitos humanos.

Há 43 anos, por inspiração de Preconceito, Martin Luther King, líder e herói do movimento anti-segregacionista dos Estados Unidos da América, foi assassinado num hotel em Memphis. Ele pregava a paz e a igualdade.

No célebre discurso em Washington, Luther King declarou - "Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: ‘Nós acreditamos que esta verdade seja evidente, que todos os homens são criados iguais’ (...) Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter"

O legado de Preconceito tem deixado ao longo da história, marcas tristes e filhos que não produzem nada de bom. Intolerância sua filha mais velha, reage sempre de maneira violenta a qualquer manifestação contrária aos princípios ditados pelo pai.

Negros, gays e ateus são seu alvo predileto, nada que se refira a esses grupos conta com sua aprovação. Lugar de mulher e na cozinha, no tanque e seu papel é subalterno ao homem. Foi a avó Ignorância que ensinou e o pai Preconceito, ordenou que assim permanecesse. Livros são assunto proibido, pesquisa histórica é coisa de "maricas" e a realidade gritante das profundas diferenças sociais nada mais é que mentira de heréges que só pensam em desestabilizar a ordem, um perigo efetivo, conforme ensinara o avô.

Rosa Parks presa no Alabama em 1955 por não ceder seu assento num ônibus a um branco, conforme as regras da segregação racial à época, incentivou a reação dos negros do local, que promoveram um boicote de 381 dias aos ônibus. Sob a liderança de Martin Luther King marcaram o início da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

No Brasil da ditadura, Filosofia e Sociologia, foram banidas das escolas e só depois de 26 anos do fim do regime é que os livros didáticos das matérias voltarão ao currículo escolar do país. Ou seja, algumas gerações nunca souberam estruturar o pensamento, a lógica e o diálogo. Talvez por isso tenhamos tantos achismos e o padrão cultural médio no país seja tão baixo.

O homem que matou Luther King imaginou, inspirado pelo Preconceito, que ali acabavam de vez os seus problemas e que o mundo voltaria à "normalidade". Esqueceu porém que o velho Medo, jamais se mexera para enxergar além de sua viseira e que por trás do homem que ele atingira estava um ideal de nação, um sentimento de povo, uma expressão de liberdade.

Ainda que hoje tenhamos os princípios de Preconceito, vagando com muita voracidade entre nós, as palavras de Martin Luther King soam nitidamente nos nossos corações. Ele tinha um sonho e nós a necessidade de torná-lo realidade.

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