quarta-feira, 3 agosto, 2011 11:17
Infraestrutura
compromete competitividade brasileira
Por Clésio Andrade
O Brasil pagou R$ 531 bilhões
em juros da dívida pública nos últimos
três anos. No mesmo período, foram investidos
em infraestrutura de transporte apenas R$ 35 bilhões,
ou seja, o equivalente a 6,6% do serviço da dívida.
Esta relação deve ser invertida, uma vez
que o investimento é indispensável ao crescimento
do país. Os recursos disponíveis devem ser
melhor alocados a fim de impulsionar o desenvolvimento
do país e garantir sua competitividade.
Não se trata
apenas de mais um mineiro no Senado reclamando dos juros,
homenagem que presto ao ex-senador e ex-vice-presidente
da República José Alencar. Nem se propõe
uma irrealista queda abrupta das taxas. Mas, ao lado de
uma política de médio prazo para consistente
redução dos juros, buscar fontes alternativas
de financiamento a investimentos indispensáveis
e adotar medidas que otimizem essas inversões.
A Confederação
Nacional do Transporte (CNT), entidade que presido, elaborou
profundo e abrangente estudo indicando que o Brasil precisa
investir, nos próximos cinco anos, cerca de R$
500 bilhões para a recuperação, melhoria,
expansão e modernização de toda infraestrutura
de transporte brasileira, para manter o país em
condições de competitividade no mercado
internacional e gerando empregos internamente.
A Índia investiu, em
2010, R$ 505 bilhões (US$ 324 bilhões),
o que equivale a 8% do PIB. A China investiu em sua infraestrutura
de transporte, em 2010, nada menos que R$ 1,8 trilhão
(US$ 1,01 trilhão), o equivalente a 10,6% de seu
PIB. Por sua vez, a Rússia investiu R$ 242 bilhões
(US$ 155 bilhões), em 2010, 7% de seu PIB.
O Brasil, no entanto, investiu,
no ano passado, só R$ 15,4 bilhões (US$
9,11 bilhões) em infraestrutura de transporte,
o equivalente a apenas 0,42% do PIB. Precisamos nos espelhar
nos exemplos dos países parceiros do BRICS, grupo
do qual o Brasil é um dos principais representantes
e no qual estão alguns dos nossos principais concorrentes.
Já houve uma melhora
no volume de investimentos durante o governo Lula e a
presidente Dilma Rousseff sinaliza no mesmo sentido quando,
além do orçamento, se dispõe a contar
com a iniciativa privada para melhoria da infraestrutura
aeroportuária.
A escassez de recursos governamentais, porém, aponta
a conveniência de se desapegar de algum ranço
ideológico. As Parcerias Público Privadas
(PPP) são parte da solução para obras
indispensáveis no sentido de impedir que os gargalos
de infraestrutura tirem a competitividade do Brasil e
retardem o crescimento do país.
Mudanças no sistema
de planejamento, licitação, fiscalização
e controle de obras governamentais também são
indispensáveis para que não haja atraso
nas obras públicas, o que provoca muito mais prejuízos
para toda a sociedade. Antes da paralisação
de uma obra por suspeita de irregularidades, um sistema
inteligente de arbitragem entre contratado privado e contratante
público poderia, eventualmente, superar essas irregularidades.
E a obra ser entregue ao uso. Obra parada é prejuízo
dobrado.
A inserção de
um país em um ambiente global de competitividade
e produtividade e sua inclusão na lista das grandes
nações dependem da disponibilidade de serviços
públicos de energia, telecomunicações,
água, saneamento e transportes, em bons padrões
de qualidade.
Quanto melhor e maior a disponibilidade
de infraestrutura de um país, mais dinâmica
e especializada será sua economia, na medida em
que estimula e atrai os investimentos produtivos.
A atrofia da infraestrutura
gera gargalos que impedem a expansão econômica,
limitam as iniciativas empresarias e conduzem a dificuldades
de crescimento econômico.
O atraso na infraestrutura
de transporte e a falta de visão multimodal provocam
custos logísticos de 11,6% do PIB brasileiro, contra
8,7% nos Estados Unidos da América. Esta diferença
de 3 pontos percentuais do PIB (aproximadamente 120 bilhões
de reais) impacta a competitividade e as margens de lucro
dos agentes econômicos, reduzindo, portanto, a sua
capacidade de poupança e de investimento.