segunda-feira, 2 março, 2009 18:12
Crise
da Criatividade
Bruno
Peron Loureiro
Chegamos a um momento
de crise da criatividade, que se deu após a turbulência
de idéias dos séculos anteriores, em especial,
das últimas décadas. O que não
quer dizer, porém, que é o fim do ser
criativo ou que já não é possível
mais criar, uma vez que o processo continua ainda que
paulatina e surpreendentemente. Parto da premissa de
que a criatividade não é a mesma coisa
que acúmulo de conhecimentos: aquela tem a ver
com a fluidez da imaginação e o uso da
inteligência, enquanto este se refere simplesmente
ao depósito de informação.
Vamos para os argumentos. As eleições
passadas formaram coleções de discursos
políticos clichês ou que repetem como papagaio
os de décadas ou até séculos atrás
se levarmos em consideração os sistemas
políticos de vários países. O mais
grave é que as propostas, quando existem, quase
sempre se amparam em princípios implantados em
outro contexto e importados por nosso país sem
que se considere necessariamente a realidade em que
vivemos. A menos, é claro, que se proponha construir
uma ponte ou uma creche em tal bairro, e aqui alguns
supõem que haja criatividade.
É cada vez mais profusa a cópia de trabalhos
intelectuais ou obras artísticas por preguiça
de um suposto criador. Os filmes que passam nos cinemas
exigem um cuidado especial para que não se confunda
ficção com realidade, embora o mesmo autor
esteja em vários deles ou pressuponhamos que
se trate de criação. Os de terror dificilmente
saem dessa de casa amaldiçoada ou de mitificação
do desconhecido; os de aventura trazem atos heróicos,
quando não sensacionalistas, de final feliz;
e o de histórias de amor às vezes recheiam
com algum problema atual para parecerem criativos.
Comentei de idéias que se oferecem como propostas
para a regulação da nossa situação
política e social, de um gênero de indústria
cultural que são os filmes, e acrescento que
na televisão ocorre um processo semelhante de
crise da criatividade, mas que se faz passar por novidade.
Um programa tende a imitar o outro em função
da audiência. Desde as pegadinhas até os
“reality shows”, que passaram por Europa
e Estados Unidos e logo apareceram em “Casa dos
artistas” e “Big Brother Brasil”,
com todas as suas edições anuais. O mesmo
com o “American Idol” estadunidense, que
inspirou o “Ídolos” brasileiro. E
faz sucesso.
Ao “Se vira nos trinta” do Domingão
do Faustão, contudo, dou-lhe crédito como
incentivador das manifestações populares
de criatividade. Até mais do que atribuo às
novidades da Polishop e de outras empresas, que de tão
estapafúrdias acabam sendo opções
criativas para os consumidores que querem produtos de
limpeza mais eficientes, televisores que cabem na palma
da mão ou acessórios de ginástica
e fortalecimento muscular que fazem todo o trabalho
enquanto o usuário está relaxado, entre
os portáteis e que ocupam menos espaço.
Poderíamos achar que a criatividade não
está tanto em crise porque nos tornamos mais
exigentes. Queremos o mesmo, mas em nova roupagem.
O brasileiro é muito criativo, diverso e inteligente,
porém aguarda passivamente que alguma instituição
o promova sob risco de que sua criatividade fique mal
representada. E é o que acontece na maioria dos
casos. A crise a que mais me refiro é a de domínio
oligopólico das indústrias culturais e
comunicacionais, que, em função do lucro
e da ganância, acabam limitando a criatividade
do ser humano. Logo, se não está na tevê,
ninguém vê, ninguém escuta, ninguém
sabe. Assim se alimenta o estancamento da criatividade
e difundem-se impressões e registros de um mundo
ditado por poucos.
Um olhar atento ao que o mundo já criou sugere,
no entanto, que estamos num momento de crise da criatividade.
Por mais que cada ser humano seja único e original
(que gêmeos são completamente iguais?),
o que parece faltar é a mobilização
dos elementos que fazem da nossa realidade distinta
e, portanto, autêntica. Deve haver algum jeito
de continuar criando, ainda que não seja artista
ou cientista.
Nem todo criador o é dentro de uma profissão.
O lado direito do cérebro é associado
à criatividade. Quem sabe uma massagem neste
hemisfério o reacenda.