O
lixo eletrônico e a sustentabilidade da reciclagem
sábado, 11 abril, 2009 14:55
Dalton Martins*
Na sociedade contemporânea, o
consumo elevado, o ritmo acelerado da inovação
e a chamada obsolescência programada fazem com
que os equipamentos eletrônicos se transformem
em sucata tecnológica em pouco tempo. Nos últimos
anos, a exportação desse tipo de resíduo
dos países desenvolvidos para o terceiro mundo
aumentou de forma considerável. Isso ocorreu
por diversas razões, dentre elas os custos elevados
para o descarte adequado ou para a desmontagem com fins
de reciclagem. A exportação dos resíduos
eletroeletrônicos aos países não-membros
da Organization for Economic Co-operation and Development
(OECD) sob a emenda da Convenção de Basiléia
- que permite a exportação de equipamentos
em funcionamento para reutilização - ocorreu,
em sua maioria, de forma ilegal devido ao abuso por
parte dos exportadores, que misturam os equipamentos
em funcionamento com outros sem menor condição
de uso.
Organizações ambientais internacionais,
tais como o Greenpeace e a Rede de Ação
da Basiléia, estão fazendo campanhas de
conscientização quanto às grandes
quantidades de resíduos eletroeletrônicos
que são despejados em países subdesenvolvidos.
De acordo com a Waste (ONG Holandesa), frequentemente
não se levam em consideração as
pessoas que realmente estão desmontando o lixo
eletroeletrônico por motivos de subsistência.
Os equipamentos fora de funcionamento geralmente são
reciclados por empresas em pequena escala. Embora a
maioria dessas práticas de reciclagem ofereça
ameaças à saúde humana e ao meio
ambiente, é ainda trabalho diário e fonte
de renda para milhares de pessoas no mundo todo.
A Waste certamente reconhece que os países mais
pobres e, especialmente, as pessoas com menor renda
que vivem nesses países, estão frequentemente
sobrecarregados com os objetos rejeitados por países
desenvolvidos, mas concorda que diversas questões
precisam ser consideradas.
Resíduos sólidos no Brasil e a sustentabilidade
da reciclagem
O crescimento da população gera um excedente
de subprodutos de suas atividades que supera a capacidade
de adaptação do meio ambiente, o que pode
representar uma real ameaça à biosfera.
O potencial de reaproveitamento que os resíduos
representam, somado a um fator de interesse mundial
que é a preservação ambiental e
promoção do desenvolvimento ecologicamente
sustentável, impulsiona a necessidade de reverter
essa situação.
O rápido processo de urbanização
ocorrido no Brasil se deparou com uma falta de preparo
e estrutura, principalmente nessa questão. As
poucas experiências realizadas até o momento,
relacionadas ao aproveitamento energético e outras
formas de processamento e destinação final,
são iniciativas restritas a algumas regiões
e de abrangência limitada, o que reforça
a ausência de incentivos materiais e fiscalização
no cumprimento da legislação ambiental
do país. Sequer temos um marco regulatório
na questão do tratamento dos resíduos
sólidos em geral. Podemos avaliar essa situação
a partir da dificuldade de obtenção de
informações confiáveis e com mais
detalhes sobre o tema. Ao consultar diversas fontes
“seguras”, percebemos que os dados existentes
são escassos, falhos e conflitantes, a começar
pelas estimativas acerca da quantidade de resíduos
gerados.
Segundo o Manual do Gerenciamento Integrado (IPT/CEMPRE),
são produzidas diariamente no país cerca
de 241 mil toneladas de lixo, das quais 90 mil são
de origem domiciliar. A média nacional de produção
de resíduos por habitante estaria em torno de
600 g/dia.
Uma cidade como São Paulo, no entanto, produz
em média 1 kg/dia de lixo por habitante. Dos
5.507 municípios brasileiros, somente 192, situados
principalmente nas regiões sudeste e sul, realizam
a coleta seletiva. Em 1989, na PNSB (Pesquisa Nacional
de Saneamento Básico) publicada pelo IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), apurou-se
que da quantidade total de lixo produzido diariamente
no país, 75% são lançados a céu
aberto e 0,7% em vazadouros de áreas alagadas.
Somente 23,3% recebem tratamento mais adequado e cerca
de 1% tem destino desconhecido. O lixo industrial, por
sua vez, era coletado em 1.505 Municípios dos
4.425 pesquisados. Desse total, 66% não tinham
coleta especial e os resíduos industriais eram
misturados ao lixo comum.
No caso da indústria de eletroeletrônicos,
os resíduos podem causar danos ainda mais sérios
à saúde da população e grave
impacto ao meio ambiente. Computadores se tornam obsoletos,
dentro da lógica comercial, a cada dois anos.
Assim, neste prazo, máquinas são trocadas,
baterias de celulares, equipamentos de impressão
e conexão, cabos, infraestrutura de rede, entre
outros materiais, são descartados.
Portanto, o problema é sério e grave.
Medidas como a definição de regulamentações
e políticas públicas que busquem orientar
e apoiar o tratamento adequado do lixo se faz mais do
que necessário.