quinta-feira, 12 janeiro, 2012 12:43
Convite
à restauração da Federação
O governo federal
tem divulgado, em sequência e até com certa
euforia, uma série de dados estatísticos
que confirmam, apesar da crise internacional, o bom momento
econômico do Brasil, como a chegada ao posto de
sexta maior economia do mundo, o saldo comercial recorde
na balança de pagamentos, o índice também
recorde de emprego e o atingimento relativamente tranquilo
da meta de superávit primário para pagamento
do serviço da dívida.
Os números,
efetivamente, são bons e refletem, mais que tudo,
a continuidade de políticas macroeconômicas
iniciadas ainda na presidência do saudoso Itamar
Franco e que tiveram, em grande parte, continuidade nos
quatro mandatos presidenciais seguintes. Mas a comemoração
não pode ser exagerada, como pretendem setores
do governo e seus áulicos. Há outros números
que também chamam a atenção e que
mereceriam leitura mais acurada, especialmente por sinalizarem
a inadiável necessidade de redirecionamento de
algumas políticas fiscais entre nós.
O principal –
e certamente o mais assustador – desses números
são os R$ 240 bilhões que o país
dispendeu em 2011 apenas para o pagamento do serviço
da dívida. É inadmissível que a população
brasileira, tão carente ainda de obras de infraestrutura
e de ações mais consistentes de combate
à miséria, continue a ver parte de seu esforço
produtivo ser drenado para o fortalecimento de apenas
um segmento, o financeiro e especulativo, enquanto estradas
aguardam conserto, metrôs deixam de ser construídos,
a qualidade da educação deixar a desejar,
o caos na saúde pública penaliza a população
mais pobre e são indefinidamente adiadas as obras
indispensáveis para minimizar os efeitos dos fenômenos
naturais, como vemos agora no intenso período de
chuvas.
No caso do governo
federal, o alto valor empregado no pagamento do serviço
da dívida é resultado da opção
pela continuidade da política de juros altos, que
tanto já nos sacrificou e continua a sacrificar.
Mas é preciso também lembrar como essa política
tem interferido maleficamente na gestão dos Estados,
sem que estes tenham como resistir ou buscar alternativas.
Minas Gerais, por
exemplo, se viu obrigado a gastar cerca de R$ 4 bilhões
em 2011 apenas para custear o serviço da dívida,
renegociada com a União há quase 20 anos.
Comprometemos anualmente 13% de todas as nossas receitas
apenas para quitar essa parcela, por força de contrato
que irá se estender até 2028, se nada for
feito antes.
Essa sangria de recursos
tem impedido os estados, Minas incluído, de definirem
com maiores autonomia e profundidade suas próprias
políticas de investimentos sociais e produtivos,
ficando à mercê de programas federais centralizados
e, em geral, com recursos só liberados à
custa de negociações nem sempre republicanas.
A Assembleia Legislativa
de Minas já lançou em 2011 um brado contra
a continuidade dessa situação e até
criou uma comissão especial, suprapartidária,
para conduzir o debate do tema. A abertura do ano, os
bons números ostentados pela nossa econômica
e a nossa saudável situação fiscal
abrem caminho para que a presidenta Dilma Roussef aceite
o convite dos governos estaduais e dê início
a uma efetiva negociação em torno do chamado
pacto federativo.
A renegociação
da dívida dos estados pode ser o primeiro passo,
mas será indispensável que o debate se estenda
de forma mais profunda e envolva necessariamente a revisão
do atual sistema de repartição, que reserva
ao Tesouro Nacional 70% dos recursos tributários
arrecadados e mantém os estados e municípios
como meros pedintes e não como entes federados.