A
amarga lição da Raposa Serra do Sol
domingo, 29 março, 2009 18:21
João Guilherme
Sabino Ometto*
A aprovação pelo Supremo Tribunal Federal
(STF) da demarcação contínua da
reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima,
não atende às premissas da proteção
ambiental e da exploração ecologicamente
correta da Floresta Amazônica. A consequente remoção
dos não-índios, há muito arraigados
na área e com atividade aparentemente sustentável,
poderá, por exemplo, dar lugar e/ou estimular
práticas clandestinas, de difícil controle
e fiscalização.
Não se trata, aqui, de questionar o legítimo
e inalienável direito dos índios brasileiros
às suas reservas e tampouco de defender os rizicultores,
cuja legalidade ou não como proprietários
da terra é outra e específica questão.
Porém, é preciso que tudo seja feito de
maneira criteriosa, de modo a garantir a presença
do poder público no território nacional,
não apenas para proteger a própria população
indígena, como no sentido de garantir a preservação
e a soberania do País, impedir atividades ilegais
e a internacionalização sub-repetícia
da Amazônia. A região carece, na verdade,
de uma ação estratégica ampla,
articulada e planejada com discernimento. A demarcação
de áreas de maneira afoita, sem visão
do todo, não é a melhor política.
A necessidade de se manter produção sustentável,
controlada e fiscalizada pelo poder público é
maior do que nunca, conforme se observa com clareza
na análise do informe “A situação
das florestas no mundo”, que acaba de ser divulgado
pela Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO). Este respeitado organismo alerta para uma questão
preocupante: na América do Sul, o aumento de
preços dos gêneros alimentícios
estimulará o desmatamento, abrindo-se novas áreas
à pecuária e agricultura. Embora seja
coerente, de maneira burra, é verdade, com a
irrevogável lei da oferta e da procura, a lógica
desse raciocínio contraria o desafio prioritário
da sustentabilidade.
Assim, compete aos governos da região, dentre
eles o brasileiro, adotar todas as medidas cabíveis
para impedir a concretização do prognóstico
da FAO. Sem o estímulo de maiores lucros com
produção de alimentos o desmatamento da
Amazônia já é gravíssimo;
imaginem o que pode acontecer se a situação
não for devidamente controlada. Aliás,
é um absurdo, principalmente no Brasil, o governo
ainda não se ter colocado, com a legítima
autoridade de um estado democrático, como intransponível
obstáculo legal à devastação
das florestas, em especial a Amazônica. A história
mostra que a ausência do Estado é sempre
preenchida por outros poderes, invariavelmente à
margem da lei e na contramão dos interesses do
País e da sociedade.
Manifesta-se nesse processo um dos mais insólitos
casos de omissão do poder público no País.
A Amazônia não pode continuar sendo gerida
por organizações não-governamentais
com causas questionáveis, muitas delas estrangeiras,
algumas presentes na Raposa Serra do Sol. Em meio à
demarcação contínua da reserva,
haverá condições, inclusive institucionais,
para se conter o corte ilegal e contrabando de madeira
nativa?
A necessária preservação —
ambiental, institucional e política — do
território brasileiro, em particular a cobiçada
Amazônia, é absolutamente viável.
Exemplo disso encontra-se em outro estudo da FAO, no
qual é indicado, com clareza, como o gerenciamento
de áreas degradadas (que já são
imensas na Floresta Amazônica), setor agroflorestal
e replantio podem revitalizar economias locais e nacionais.
Tais atividades poderiam ajudar a criar 10 milhões
de novos postos de trabalho. Seria a conciliação
da preservação, do combate ao efeito estufa
e do premente desafio de criar empregos em meio a uma
das mais graves crises econômicas da história.
Segundo a Organização Mundial do Trabalho
(OIT), o desemprego no Planeta deverá aumentar
de 179 milhões, em 2007, para 198 milhões
de pessoas este ano. A gestão correta da Amazônia
poderia contribuir muito para que o Brasil não
integrasse tal estatística, pois a FAO demonstra
que o investimento na economia verde criaria ótimas
oportunidades nos setores agroflorestal, gerenciamento
de áreas de lazer, desenvolvimento sustentável
e de replantio de florestas degradadas.
São responsabilidades do poder público
viabilizar atividades sustentáveis nas matas,
prover sua preservação, impedir o corte
e o comércio ilegal de madeira, como continua
ocorrendo de modo grave na Amazônia, e garantir
a integridade dos povos da floresta e do território
nacional. A demarcação contínua
das reservas indígenas dificulta muito esse processo
e aprofunda a incapacidade até hoje demonstrada
pelo Brasil de impedir a devastação da
maior cobertura vegetal do mundo. Que o episódio
da Raposa Serra do Sol, irreversível ante a decisão
do STF, pelo menos sirva como lição para
impedir a repetição do equívoco.