sábado, 24 janeiro, 2009 18:00
O Garimpeiro
Luciano Pires
Achei! Num sebo,
a coleção completa da enciclopédia
“Conhecer” que a Editora Abril lançou
no final dos anos sessenta. Linda, novinha... Eu não
estava procurando, mas foi irresistível. Voltei
pra casa com doze volumes mais três “dicionários”
e um frio no estômago.
Quando cheguei preparei minha
viagem. Sim, a lembrança que eu tenho de minha
experiência – aos onze anos de idade –
com aquela enciclopédia era de viajar. Pelo tempo
e pelo espaço, sem limites de lugares ou assuntos.
Afinal, a curiosidade é o atributo mais presente
numa criança de onze anos de idade, não
é? A Abril Cultural lançou em 1967 a enciclopédia
Conhecer em fascículos que eram colecionados
até formar um volume da coleção.
Então eles lançavam a capa que a gente
comprava e levava para um encadernador que nos devolvia
um belo livro vermelho sangue com o nome “Conhecer”
em dourado. Um mundo de conhecimento com cerca de 4
mil páginas!
Passou a ser rotina aguardar
ansioso a chegada do novo fascículo. Que assuntos
seriam abordados? E os caras da editora eram espertos,
viu?. Num mundo dominado por enfadonhas enciclopédias
em preto-e-branco com muito texto e pouquíssimas
imagens, a “Conhecer” vinha repleta de ilustrações
dramáticas, enormes e coloridas. Cada página
virada revelava uma explosão de cores! E o que
acontecia então eu relatei no texto “Quirópteros”
em meu livro Brasileiros Pocotó:
“Eu tinha 12 anos.
E minha professora de Ciências pediu um trabalho
escolar sobre Quirópteros: a ordem dos morcegos.
Comprei cartolina (lembra-se?). Pincel atômico.
Cola Tenaz (a grande novidade que substituía
a goma arábica). E mergulhei na minha enciclopédia
Conhecer. Para encontrar os Quirópteros, eu navegava
pela enciclopédia, passando pela Grécia
Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha
da China. Pelos dinossauros. Por como funciona um navio.
Pelos satélites artificiais... Motivado pela
curiosidade infinita de criança eu viajava pelas
páginas, pelas ilustrações multicoloridas,
durante horas. Até achar os tais morcegos. Aí,
copiava o texto, recortava revistas, colava na cartolina,
e, na segunda- feira, levava aquela coisa amassada para
a escola e via a professora examinar e me dar a nota.
Era assim o processo. E nunca mais esqueci o que são
Quirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como
morreram os dinossauros...”.
Sem perceber, como um garimpeiro
eu estava aos poucos juntando um tesouro que seria fundamental
para meu futuro: conhecimento. Cada parada naquelas
páginas da Conhecer dava-me uma pepita que eu
colocava em meu repertório. Que sorte a minha.
Pois refletindo sobre essa
garimpagem e a diferença dos processos de hoje
que - após o surgimento da internet e de “São”
Google - levaram quase ao infinito nossa capacidade
de buscar informações, dei de cara com
uma contradição.
A curiosidade daquele garoto
só podia ser saciada por ele ter um estoque praticamente
ilimitado de... tempo. Eu podia investir o tempo que
quisesse em minhas viagens pela enciclopédia.
E assim montei meu tesouro.
Hoje, quarenta anos depois,
“tempo” passou a ser meu ativo mais escasso.
A internet me dá a oportunidade de otimizar meu
tempo. Encontro em segundos o que preciso! Sou um garimpeiro
supersônico! Que sorte eu tenho! Mas não
tenho tempo...
Não posso desviar
minha busca dos Quirópteros para mergulhar fundo
na vida de um dinossauro colorido. Ou no telescópio
Hubble. Ou no Timor Leste. Preciso ir direto ao ponto.
Rápido. Sou um garimpeiro supersônico.
De superfície. Mergulho no raso, dou uma olhada
e volto correndo. O telefone está tocando. Alguém
está me esperando...
Minha nova enciclopédia
Conhecer está ali, na minha frente, linda.
Esperando que eu tenha tempo
pra ela.