Eribertos
e Francenildos
sexta-feira, 8 janeiro, 2010 15:59
Luciano Pires
Bem,
o ano começa
quente. Na edição do Jornal
da Band*, dois garis
apareceram desejando felicidades aos telespectadores.
Entrou então a vinheta da emissora e, sem
saber que o áudio estava sendo transmitido,
o jornalista Boris Casoy, que apresenta o noticiário,
comentou:
- Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do
alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho.
O vídeo com o comentário foi ao ar pela
internet e o mundo desabou sobre a cabeça de
Boris Casoy. Li de tudo a respeito do acontecido e
tirei minhas conclusões:
1. A frase de Boris é um desastre no conteúdo
e na forma como foi dita. O conteúdo é feio,
revela preconceito sim. A forma é debochada.
Mas duvido que qualquer um de nós não
seria crucificado em praça pública se
tudo o que pensamos e dizemos em particular fosse tornado
público. E quem disser que não é assim
está sendo hipócrita.
Você acredita que a frase define o caráter
de Boris Casoy? Eu não.
2. Não conheço Boris pessoalmente, mas
a frase parece um desabafo. Ele deve estar de saco
cheio com alguns integrantes de sua equipe ou com a
forma como o programa é produzido. Provavelmente
está na posição de rainha da Inglaterra,
com muito poder de direito e nenhum de fato. E tendo
que engolir sapos. Se aparecesse um elefante cor-de-rosa
ele reclamaria do elefante. Se fosse um padre ortodoxo
ele reclamaria do padre. Foram os garis, ele reclamou
e a fala foi ao ar. Dançou.
3. A argumentação de que ele disse o
que disse por ser da "elite", rico, direitista
ou até - como li em alguns blogs - nazista, é uma
estupidez. Boris Casoy é um ser humano como
qualquer um de nós. Politizar o que ele disse é um
método que só engana trouxas. Outros
vídeos (que publiquei em meu site no http://bit.ly/74URdn
) mostram ocasiões em que políticos cometeram
escorregões parecidos - ou até piores
- que os do Boris, e que também se transformaram
em escândalos políticos.
4. Nenhum movimento indignado apareceu quando ele
disse "isso é uma vergonha" para as
sacanagens e roubalheiras de políticos e banqueiros.
Afinal, ele batia nos poderosos...
Mas no Brasil do pobrismo, onde se executa um jogo
sem precedentes de incentivo à luta entre classes,
um brasileiro bem educado, opiniático, com poder
e bem sucedido como Boris Casoy é um prato cheio.
Boris simboliza tudo aquilo que está sendo vendido
aos brasileiros como a essência do mal: os loiros
de olhos azuis. Mesmo não sendo loiro nem tendo
olhos azuis.
Boris errou, sim. Pediu desculpas e vai arrepender-se
pelo resta da vida.
Os dois garis já perdoaram Boris e para eles
o episódio acabou. Mas preste muita atenção
nos próximos acontecimentos. Os dois pobrezinhos
que foram ofendidos pelo rico poderoso serão
utilizados como bandeira ideológica até cansar.
Quando não sevirem mais, voltarão a seu
dia-a-dia humilde, como aconteceu com o caseiro Francenildo
Costa, cujo testemunho ajudou a derrubar o ministro
Palocci. Ou com o motorista Eriberto França
que ajudou a derrubar Collor.
Os garis do Boris agora são eribertos e francenildos:
gente humilde sendo utilizada como instrumento político
por poderosos.
E isso é uma
vergonha.
* (o programa foi
ao ar dia 31 de dezembro
de 2009)