Outro dia assisti a um filme
chamado The Perfect Storm, de Wolfgang Petersen. No Brasil o filme
recebeu o título de Mar em Fúria. É estrelado
por George Clooney e relata um episódio real ocorrido em Outubro de 1991,
quando uma combinação de fatores raros que só
acontece uma vez a cada século produziu uma tempestade com ondas
da altura de prédios de dez andares e ventos de 200 quilômetros por
hora em alto mar. Pouca gente sobreviveu para contar a história. A tempestade
foi tão poderosa e os fatores tão raros que ela foi batizada de
perfeita. The perfect storm. Lembrei-me disso quando levei um conhecido
até o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos/SP. No caminho eu via o gigantesco
congestionamento que me esperava no retorno. Uma situação desesperadora,
mas que é a realidade de São Paulo.
Ouvi
recentemente que são registrados 500 novos automóveis por dia na
cidade de São Paulo, cuja frota já chegou aos 6 milhões e
meio de veículos. Ao mesmo tempo devem sair das ruas sucateados,
acidentados, roubados cerca de 150 veículos por dia, o que deixa
um saldo de 350 novos nas ruas. Todo dia. Contando só dias úteis,
estamos falando em cerca de 105 mil novos veículos por ano. Se cada um
tiver em média 3,5 metros de comprimento teremos uma fila com 368 quilômetros
de viaturas por ano. Um dia ficará impossível deslocar-se por São
Paulo. E então novas medidas serão adotadas. Vão endurecer
com o rodízio, que passará a valer por dois dias na semana. Vão
aumentar o IPVA para desestimular a compra de carros novos. E o lobby
da indústria cairá de pau. Vão proibir a circulação
em determinadas ruas e regiões, aumentando a confusão. Vão
multar quem estiver sozinho dentro do automóvel. Vão cobrar pedágio
nas marginais. Para comprar um automóvel você terá que provar
que tem onde estacionar. As otoridades farão o que são
capazes: vão implementar soluções táticas
para um problema que precisa de soluções estratégicas, como
o rodoanel e o transporte público.
Mas
pensamento estratégico dói, sabia? É muito mais fácil
pensar pequeno. O Rodoanel não fica pronto porque o governo federal é
de um partido e o estadual e municipal de outro. E vice-versa. Ninguém
vai ajudar o opositor a tirar uma casquinha política. Dane-se a população.
O metrô vai sendo construído na velocidade de um minhocuçu,
atendendo às conveniências políticas e das construtoras. Ônibus
e táxi... pra rodar onde? Além disso, pagar quase meio salário
mínimo para ir de táxi da Avenida Paulista até Alphaville
pois é outro município é um escárnio.
Então não tem solução.
Por isso lembrei do filme e imaginei o The Perfect Traffic Jam, o
congestionamento perfeito. Há de chegar o dia em que seu Joaquim,
ao tirar o carro da garagem lá no Tatuapé, completará uma
seqüência de fatos raros que desencadeará um congestionamento
que se alastrará por toda a cidade. Até parar todo o trânsito
em todas as ruas. Será impossível ir pra frente, pra trás
ou pro lado. Não haverá como desfazer o congestionamento a não
ser retirando com um helicóptero alguns automóveis e esperando que
a coisa se normalize.Vamos levar uma semana para ver o trânsito fluir novamente,
até o dia em que a Dona Valéria, em Interlagos, provocar um segundo
congestionamento perfeito... Será o apagão do trânsito. Mais
uma herança de nossos políticos.
E,
como as autoridades não resolvem, um amigo tem uma proposta interessante:
quem produz os fatores que geram o problema deveria ser responsável por
resolvê-lo. As montadoras têm que assumir responsabilidade sobre a
questão do trânsito. As fábricas de refrigerantes têm
que assumir responsabilidade sobre o recolhimento das garrafas vazias dos rios.
As fábricas de pneus têm que assumir o recolhimento dos pneus usados.
As de cigarro, sobre o tratamento médico do câncer de pulmão.
As de computadores, sobre o recolhimento de sucata eletrônica. As de celular,
sobre o recolhimento de baterias...
Não
é genial? Quando o problema doer no bolso deles, e não apenas no
nosso, o caminho para as soluções será descongestionado...