No Programa do Jô a senadora
petista Ideli Salvatti, perguntada sobre a incoerência do PT, que sempre
combateu a CPMF e agora a defende, respondeu que é assim mesmo, que a oposição
tem que dificultar. Mesmo contra os interesses do país... Enquanto
falava, Ideli ostentava aquele sorriso sarcástico dos que só têm
compromisso com o cinismo.
Ideli
é uma porta-voz. Faz parte de uma máquina empenhada em dividir o
Brasil em dois e colocar um lado contra o outro, espalhando a discórdia,
a inveja e o ódio. Tudo em nome da justiça social. Já
vimos esse filme na Alemanha, China, Vietnan e em tantos outros países
onde grupos iluminados decidiram que sabiam como tornar a sociedade
mais justa. O resultado foi um punhado de mortos. Só uns 200 milhões...
Quando
eu tinha nove anos, um de meus melhores amigos era o Bóia, meu vizinho,
filho de uma família de japoneses cujo pai era mecânico de automóveis.
A família morava nos fundos da oficina, uma autêntica boca
de porco como a maioria das oficinas no começo da década
de sessenta. Eu era de classe média o equivalente à classe
B de hoje com pai executivo e mãe professora. O Bóia era
o que hoje consideramos classe C. E éramos excelentes amigos. Eu vivia
na casa dele. Não me lembro de jamais ter algum problema pela diferença
de classes.
Me lembro também
de nossa empregada, a Maria. Sua família vivia na roça em Jacuba,
próximo a Iacanga, perto de Bauru. E lembro-me de ir com ela passar o final
de semana por lá, dormindo na casa humilde, almoçando e jantando
com eles. E eu era o filho do patrão. Nenhum problema.
Na escola eu
dividia a sala de aula com garotos de todas as classes sociais. A percepção
do Brasil que me acompanhou durante aquele período de infância e
juventude foi a do país cordial, tolerante, bem-humorado e com um futuro
brilhante. E mesmo com todos os problemas de país subdesenvolvido, era
um Brasil feliz. Essas lembranças representam um ideal de país que
já vivi, mas que parece não existir mais.
Recentemente,
saindo com a família de um jantar numa churrascaria, comecei a conversar
com um dos manobristas sobre futebol e política, enquanto aguardava o carro.
Um papo natural, bem ao estilo dos brasileiros. Aquele manobrista sabia que eu
havia gastado o equivalente a seu salário mensal no jantar. Mas naquele
momento éramos apenas dois brasileiros conversando animadamente. O abismo
social não impedia a cordialidade e o respeito entre nós.
A
mesma cordialidade e respeito que existia entre eu, o Bóia e a Maria.
Mas a turma que se intitula porta-voz dos oprimidos não admite
essa cordialidade. Nas situações que descrevi, nunca vê dois
brasileiros. Vê um explorador e um explorado. Quer que eu me sinta culpado.
Uma pregação que
se quer marxista, socialista, esquerdista ou revolucionária mas
que na verdade só é burra está dividindo o país
em duas classes: a elite e os oprimidos. E dizendo a elas que não
se misturem. Na verdade, que se odeiem. Essa pregação
doentia rotula-me de elite, dando conotação de ofensa ao termo.
E diz que sou responsável pela miséria.
Para os porta-vozes,
os miseráveis e oprimidos têm o direito de colocar um revólver
na minha cabeça e levar meu relógio. E a culpa será minha.
Os porta-vozes
são uma minoria instalada nos partidos políticos, nos órgãos
governamentais, nos sindicatos, nas escolas, nas empresas, nas igrejas, em seu
condomínio. Uma minoria ideologicamente confusa e míope, a serviço
de uma estratégia de poder. Uma minoria capaz de mobilizações
e que acaba influenciando a maioria silenciosa...
Quem
foi que deu a essa turma a licença para ser porta-voz do ódio?
A que objetivos serve essa doutrinação? Qual é a percepção
de país que esses porta-vozes lutam para criar na cabeça dos meninos
e meninas de nove anos de hoje? Será aquela do Brasil cordial que eu, o
Bóia e a Maria tínhamos? Ou será a do Brasil no qual devo
ter medo do Bóia e da Maria e eles devem me odiar?
Dispenso os iluminados
que acham que podem mudar o mundo. Prefiro continuar humildemente não fazendo
aos outros o que não gostaria que fizessem comigo.
Se
180 milhões de brasileiros agirem assim, vamos colocar o Brasil nos trilhos.
Sem precisar do cinismo dos porta-vozes.