segunda-feira, 29 novembro, 2010 20:55
A
"guerra" do Rio e nossos 200 anos de atraso
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Escravidão
no Brasil, Jean-Baptiste Debret (1768-1848) |
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Antes tarde do que nunca
continua sendo o lema do Brasil em pleno século 21.
Mais de um século depois da dita libertação
dos escravos, na verdade uma ação ornada de
abandono à própria sorte, daqueles que construíram
a riqueza da nação em quase 400 anos dos 510
que temos como nação.
A mesma ineficiência
pública de antanho, segue vigorando até hoje
e aí chega-se à conclusão de que é
hora de por a polícia para pacificar o morro, como
se outras ações tivessem sido tentadas sem
sucesso.
A verdade mais crua
e imoral é que a polícia foi e ainda é
praticamente o único sinal da presença do
Estado nesses núcleos, sem nada da infraestrutura
urbana que tristemente as rodeiam como um objetivo distante,
inalcançável.
O Universo não
conhece o vácuo
Tudo na Natureza ocupa um lugar, o vazio sempre será
preenchido de alguma coisa, e o "poder" que se
instalou em muitas, se não em todas as comunidades
pobres, preencheu apenas o inexplicável vazio do
Estado, a absoluta falta de vontade política, sobrepujada
pelo arroto da pança repleta de carne e a fumaça
do charuto sofregamente fumado na cobertura.
Essa síndrome
de Maria Antonieta, traz esse misto de ódio e sensação
de impotência em muitos olhos e rostos da esmagadora
maioria de trabalhadores e estudantes duplamente reféns,
da letargia do Estado e da opressão de grupos criminosos.
Escravidão
Nossas favelas, refletem séculos de esquecimento
e hipocrisia. Desde os primórdios do país,
a "lógica mercantilista" empanturrou navios
de gente tratada como mercadoria e veio tocar nossa indústria
canavieira e até pelo menos a metade do século
19 foi a sustentação de todas as atividades
produtivas do país, a produção do café,
açúcar, algodão, tabaco, transporte
de cargas, e outras como carpinteiro, pintor, pedreiro,
sapateiro, ferreiro, marceneiro, estivador, lixeiro.
Estamos no ano de 2010,
e ainda não sabemos como colocar nossas crianças
na escola, ainda cultivamos uma elite de "sábios"
e as nossas favelas ainda existem, muito parecidas ainda
com as que se formaram pelos excluidos do Império
e os banidos com a Lei Áurea.
Luzes no fim
do túnel
Devo lembrar aqui que a inépcia do Estado não
foi preenchida apenas pelo crime, mas por muitas pessoas
e organizações que vem há muito tempo
e na maior parte dos casos com muitas dificuldades, pois
vigora muito forte no âmago da pátria amada
o espírito militaresco, o ufanismo por ações
tardias e que não se traduzem em resultados concretos.
Já que pelo menos
a Polícia carioca respaldada pelo suporte da máquina
das Forças Armadas, conseguiu furar o bloqueio do
tráfico, é hora do Estado dar um Salve aos
nossos heróis e começar bem depressa o processo
de inserção plena dessa população
que tem vivido à margem e fragilizada.
Salve Celso Athayde!
Salve MV Bill! Salve Afro Reggae! Salve Nega Gizza! Salve
essa gente que sentiu na pele e na alma o que é nascer
e viver na favela e que soube transcender e agrupar, levar
arte, levar cultura, levar raíz, levar dignidade
aos seus grupos, e que deveriam servir de exemplo ao Estado,
lento, burocrático e que deixa buracos difíceis
de tapar.
E convidar os brasileiros
que podem, a olhar e agir pelos que pensam que não
podem, porque enquanto um brasileiro viver em condições
subumanas, é o país inteiro que vive assim.
Ações localizadas que visem garantir Copa
do Mundo e Olimpíada e que não garantam a
saída desse atraso em que vivemos, que não
garantam infraestrutura, educação, saúde,
liberdade de ir e vir, não são bem vindas.
O populismo míope
das elites, só tem levado o país ao buraco
existencial, já matamos cabeças inteligentes
demais desde os tempos do Império, já erramos
demais, já condenamos empreendedores ao fracasso,
sem que haja justificativa plausível para isso. Precisamos
de menos nomes nas placas e mais gente a serviço
do desenvolvimento sustentável do Brasil, precisamos
respeitar nossos heróis verdadeiros, os brasileiros
que chacoalham todos os dias nos trens, nos ônibus,
à pé, para buscar o pão, o carnê
em dia, o aluguel ou a prestação da casa e
o direito de ter uma tv moderna na sala, uma geladeira e
um fogão e comida na despensa, um colchão
decente para repousar o corpo e oportunidade e meios de
"festar" no final de semana. Enfim, viver como
gente.
Continuo sem saber de
qual ditadura me entristeço mais, daquela onde ninguém
podia falar nada para não morrer, ou dessa que mata
antes que o sujeito possa falar. Continuo atento para ver
qual o andamento e o desdobramento dessas primeiras atitudes.
Quae sera tamem.