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Um pouco de Zilda Arns

quarta-feira, 20 janeiro, 2010 10:20

Pedro Lacerda

O cenário não podia ser outro: aplausos, salva de tiros e revoada de pombas brancas marcaram o sepultamento da médica sanitarista e missionária Zilda Arns Neumann. A morte da fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança comoveu milhares de pessoas e foi notícia por vários dias nos principais jornais do Brasil. Zilda Arns morreu aos 75 anos em missão comunitária, vítima de desmoronamento causado pelo terremoto, que no dia 13 deste mês deixou o Haiti sob escombros e contando mortos, infelizmente.

Mas seu falecimento não repercutiu apenas no noticiário brasileiro. Sua morte e o valor de sua militância também tiveram destaque em jornais de vários países, havendo relatos em inglês, espanhol, francês, italiano e até em croata, holandês, lituano e tcheco. O jornal britânico Telegraph e o português Público chegaram a mencionar a comparação algumas vezes de Zilda à Madre Teresa de Calcutá pela preocupação que tinha com as crianças.

Morreu Zilda Arns, mas fica o seu legado: a Pastoral da Criança. Para quem vê de fora, a proposta da Pastoral da Criança - fundada em 1983 - parece simples: combater a mortalidade de crianças entre zero e 6 anos, promover sua saúde e garantir uma gestação tranquila às mães por meio, principalmente, da divulgação de informações básicas. Tudo isso realmente seria simples, não fosse o estado de ignorância e a condição precária em que vive a população atendida pela entidade - famílias em situação de pobreza nas favelas e periferias das cidades e em áreas rurais inóspitas do Brasil e outras partes do mundo, como no Haiti, onde Zilda veio a falecer. São pessoas para quem as in formações simples são revelações.

A Pastoral da Criança congrega mais de 260 mil voluntários. O resultado de seu trabalho é o acompanhamento de 2 milhões de gestantes e crianças e 1,4 milhão de famílias pobres, em 4.066 municípios brasileiros e em 42.314 comunidades brasileiras. A Pastoral está presente também no exterior, em 20 países na América Latina, África e Sudeste da Ásia. Na Pastoral da Pessoa Idosa, outra obra de Zilda, fundada em 2004, 14 mil voluntários fazem o acompanhamento mensal de 117 mil idosos.

No caso específico das crianças brasileiras, o legado Pastoral da Criança apresenta números muito satisfatórios. Nos locais onde atua, a mortalidade é de 13 crianças por mil nascidos vivos – no restante do país, é de 23. Mas o exército de voluntários vai mais longe e aprendeu a maior lição que a “mãezinha”, como é conhecida em todos os cantos do Brasil, poderia dar: a solidariedade. São milhares de homens e mulheres que dedicam seu tempo ao próximo e aprenderam que, como dizia a médica, “não existe fé sem obras”.

Assim, diante desse exemplo de vida e legado, solidariedade é a lição de Zilda para todos nós. "Quanto mais medito sobre a vida de Zilda Arns Neumann e seu trabalho em favor das crianças e mães pobres, me convenço que a esperança nasce com a pessoa humana e se realiza plenamente em Deus". Foi essa a mensagem de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo e irmão de Zilda Arns, para comentar a sua morte.

E é essa mensagem que uso como referência para pedir a todos que sejam na vida um pouco do que foi Zilda Arns. Ao mesmo tempo sugiro uma reflexão do porquê de Deus querer que a sua morte viesse a acontecer no Haiti. Não seria essa vontade Divina: o desejo de fazer com que o mundo passasse a olhar o povo haitiano como seres humanos???

Pedro Lacerda, empresário, presidente da Fiemg Regional Vale do Paranaíba
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