sábado, 24 janeiro, 2009 17:59
Acesso ao
livro na conjuntura da crise
Rosely Boschini
Nas crises econômicas como a atual,
a indústria da cultura, na qual se incluiu o
setor editorial, pode ser mais duramente afetada do
que outros segmentos. O problema tende a ser mais acentuado
nas nações emergentes e nas que se encontram
em desenvolvimento, de modo proporcional ao que se observa
em tempos de vacas gordas. Afinal, as taxas históricas
do nível de emprego e inclusão social
têm efetiva congruência com os índices
de leitura. O brasileiro lê, em média,
4,7 livros por ano. Na Alemanha, por exemplo, são
6,3 volumes por habitante/ano; na França, sete;
na Itália, cinco; e nos Estados Unidos, 8,2.
É natural que um povo que ganha mais compre mais
livros, assim como bens de consumo de um modo geral.
Embora haja muita verdade nesta análise, não
se pode ignorar que o nível de desenvolvimento
das nações guarde estreita relação
de causa-efeito com a cultura, a informação
e o conhecimento. Assim, neste momento de adversidade
macroeconômica, é imprescindível
multiplicar os esforços voltados a estimular
a indústria cultural e os livros, em particular,
considerando seu significado para a democratização
das oportunidades e a prosperidade socioeconômica
do País. Em síntese, a crise não
pode interromper ou abalar de modo grave o avanço
da leitura e o acesso aos bens da cultura.
Dessa maneira, é necessário trabalhar
muito no sentido de que o acesso ampliado ao livro e
a todas as mídias gráficas, como jornais
e revistas, seja um dos fatores de fomento econômico
e social e até mesmo de enfrentamento da crise
mundial. Para isso, são fundamentais algumas
estratégias e ações que já
vêm sendo realizadas pela Câmara Brasileira
do Livro (CBL) e que devem como nunca, ser potencializadas:
campanhas de incentivo ao hábito de leitura;
manter, na totalidade dos mais de cinco mil municípios
brasileiros, bibliotecas públicas com acervo
mínimo de obras de ficção e não-ficção,
didáticas e paradidáticas; incentivar
a produção das pequenas editoras; viabilizar
o mercado das livrarias de pequeno porte, em especial
nos bairros das capitais e nas cidades menores; ampliar
ainda mais o Programa Nacional do Livro Didático
(PNLD); eliminar barreiras legais e/ou burocráticas
injustificadas que prejudiquem o mercado editorial e
dificultem o acesso da população ao livro.
No contexto dessas prioridades, há desafios relativos
a ações de mercado, mobilização
política perante os poderes constituídos
e articulação do setor editorial com todos
os outros segmentos da cadeia produtiva do livro. Essa
tarefa está sendo cada dia mais intensificada
pela CBL, no cumprimento de missão intrínseca
às entidades de classe na economia contemporânea.
No universo da globalização, as entidades
de classe não devem manter a antiga postura de
representatividade passiva de um setor de atividade.
É premente que trabalhem de maneira pró-ativa
para estimular, defender, ter voz política e
contribuir para o fortalecimento do segmento em que
atuam seus associados. No caso do livro, este fiador
do desenvolvimento e da justiça social, é
decisiva a sinergia do mercado em torno de seus organismos
representativos, de modo que todas as medidas e estratégias
em curso tenham ainda mais força e possam mitigar
os efeitos do crash financeiro mundial na produção
editorial do País. Vencer tal desafio não
é uma conquista importante apenas para editoras,
livrarias, distribuidoras e creditistas, mas para toda
a sociedade. Afinal, o conhecimento adquirido por uma
pessoa é o único bem que crise alguma
é capaz de depreciar!