26 julho,
2008
Estudo:
cidades brasileiras são "quase labirintos"
Um estudo apresentado na Faculdade
de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB)
apontou que as cidades brasileiras são as mais difíceis
do mundo para as pessoas se deslocarem. De acordo com a
pesquisa, defendida pelo arquiteto Valério Augusto
Soares de Medeiros em tese de doutorado, os centros urbanos
do País são os mais "labirínticos"
do planeta.
O arquiteto traçou o mapa
das ruas de 44 metrópoles nacionais, a maioria com
mais de 300 mil habitantes, além de avaliar a facilidade
de deslocamento ao longo das vias, comparado com outras
120 cidades das Américas, incluindo Lisboa, Londres,
Veneza, Pequim, Hong Kong e Nova York.
As cidades de Uberlândia
(MG) e Salvador (BA) se destacaram como as líderes
de complexidade. "É mais difícil se localizar
e se orientar em Uberlândia e Salvador. Principalmente
para um visitante, aquele que chega pela primeira vez",
informou Medeiros, em comunicado divulgado no site da UnB.
Ferramentas
Ao analisar
os mapas, as ruas receberam cores que identificavam quantas
delas seriam acessíveis em relação
ao contexto urbano, assim como a localização
na cidade e a maneira que se articulam com a malha. Para
Valério, os mapas das cidades brasileiras se assemelham
à "colchas de retalhos" porque não
possuem um planejamento territorial com ordem de padrão
clara, considerando a visão global.
"Esse problema tem origem
nas décadas de 1950 e 1960, quando a política
habitacional subsidiava a construção de conjuntos
em regiões distantes dos centros, por conta dos preços
mais baixos", disse. Somam-se também outros
problemas como o inchaço populacional e a ocupação
dos espaços vazios, bem como a expansão urbana
pela iniciativa privada a partir dos anos 1980.
Divergência
Vinícius
de Moraes Netto, doutor em Urbanismo pela University College
London, de Londres, e professor da Faculdade de Arquitetura
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), acredita
que a idéia de usar o labirinto como forma de entender
as cidades brasileiras pode ser um tanto mistificadora e
imprecisa. "Ao contrário do que se pensa, até
mesmo as favelas possuem uma estrutura com certa inteligibilidade,
apesar de sua aparência caótica, pois existem
'esqueletos' dos caminhos principais", afirmou.
Segundo o arquiteto, as cidades
nunca são "labirínticas" porque
são construídas para serem o oposto do labirinto,
isto é, terem níveis de estrutura inteligíveis
e capazes de oferecer acessibilidade interna. No entanto,
em muitas partes, as metrópoles do País apresentam
características "quase labirínticas".
Para Netto, "a característica
de fragmentação da metróple nacional
é o principal caso, só comparável a
das cidades em países islâmicos - vale a pena
adicionar, sociedades regidas por códigos de conduta
e interação mais controlados, cujas cidades
são formas de reprodução dessa vida
social mais conservadora". Já as cidades do
ocidente (Europa e EUA, principalmente) expressam o oposto:
boa conectividade e continuidade de malha, para estimular
mobilidade, produção e a troca.
Trânsito
Assim
como a projeção das cidades brasileiras é
considerada por muitos como equivocada, o caos no trânsito,
visto atualmente no Brasil, seria uma de suas conseqüências.
O engenheiro de tráfego e perito em acidentes de
trânsito Walter Kauffmann Neto acredita que nem mesmo
as cidades foram mal projetadas.
De acordo com o especialista,
"cada indivíduo constrói a sua residência
ou negócio visando ao atendimento de suas necessidades
específicas, tais como proximidade do trabalho, do
cliente, do funcionário, custos de terreno, construção
e impostos" informou. Para ele, cabe ao poder público
entender este comportamento individual, prevendo a sua alteração
com o tempo, para construir vias de tráfego adequadas
para os deslocamentos da população.
Kauffmann disse que não
há grandes empenhos e obras no sentido de resolver
os problemas de trânsito no País. "Inexiste
uma solução para o problema. O trânsito
é um fenômeno complexo que somente será
melhorado por meio de um conjunto integrado de políticas,
obras e tecnologias focadas em um programa global de melhorias
de curto, médio e longo prazo", avaliou.
Existe culpado?
Vinícius
de Moraes Netto não crê que a culpa pela má
projeção das cidades seja do crescimento populacional,
que ocorreu em maior escala nos anos 1950 e 1960, em um
período de grande expansão urbana. "Tal
crescimento só evidenciou o despreparo tecnico de
nossos planejadores urbanos, e tornou a conseqüência
desse despreparo visível. Atualmente, nossas cidades
crescem pouco, mas pouco se faz para resolver os problemas
que vem desde então", considerou.
Ele explicou que "os corpos
técnicos de nossas secretarias de planejamento nao
reconhecem a gravidade da situação e parecem
desprezar os conhecimentos e métodos para aferição
de problemas entre estrutura urbana e de acessibilidade".
"Nosso corpo científico é escasso em
urbanismo e desconsidera as esferas técnica e política.
Enquanto esses mundos não conversarem - teoria, prática
e decisão - nossas cidades permanecerão como
estão", destacou.
O arquiteto ressaltou que o problema
principal tem sido a falta de visão global, sistêmica,
coletiva - e de ver a cidade e a estrutura do espaço
urbano como parte estratégica do desenvolvimento
da nossa economia e sociedade. "O problema não
está só no fato de que nossa infra-estrutura
está em atraso em relação à
dinâmica de nossas cidades e à aceleração
da economia do País. Está na mentalidade e
na gestão de tais pontos", completou.
Já Walter Kauffmann Neto
acha que o problema não é a falta de profissionais
para "pensar" os centros urbanos. "Tecnologia
e profissionais qualificados já existem em quantidade
suficiente para solucionar os crescentes problemas em qualquer
cidade brasileira. O que falta é a vontade política,
já que é mais vantajoso garantir vagas para
apadrinhados políticos do que valorizar bons engenheiros,
arquitetos e urbanistas", interpretou.
Soluções
O professor da UFRGS citou alguns pontos básicos
que podem ser a chave para qualificar o sistema das ruas
e a forma dos quarteirões: controlar a expansão
das cidades, que induzirão maiores distâncias,
custos, consumo de energias; controlar a urbanização
e as adições de novos trechos de malha, onde
atualmente tanto a iniciativa privada quanto governos locais
produzem bairros novos sem critério de amarração
com as ruas do entorno; e as reformas por meio de "cirurgias
urbanas", que aumentariam as conexões internas
entre ruas.
Fonte:
Terra