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Brasília

Estudo: cidades brasileiras são "quase labirintos"

Um estudo apresentado na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB) apontou que as cidades brasileiras são as mais difíceis do mundo para as pessoas se deslocarem. De acordo com a pesquisa, defendida pelo arquiteto Valério Augusto Soares de Medeiros em tese de doutorado, os centros urbanos do País são os mais "labirínticos" do planeta.

O arquiteto traçou o mapa das ruas de 44 metrópoles nacionais, a maioria com mais de 300 mil habitantes, além de avaliar a facilidade de deslocamento ao longo das vias, comparado com outras 120 cidades das Américas, incluindo Lisboa, Londres, Veneza, Pequim, Hong Kong e Nova York.

As cidades de Uberlândia (MG) e Salvador (BA) se destacaram como as líderes de complexidade. "É mais difícil se localizar e se orientar em Uberlândia e Salvador. Principalmente para um visitante, aquele que chega pela primeira vez", informou Medeiros, em comunicado divulgado no site da UnB.

Ferramentas

Ao analisar os mapas, as ruas receberam cores que identificavam quantas delas seriam acessíveis em relação ao contexto urbano, assim como a localização na cidade e a maneira que se articulam com a malha. Para Valério, os mapas das cidades brasileiras se assemelham à "colchas de retalhos" porque não possuem um planejamento territorial com ordem de padrão clara, considerando a visão global.

"Esse problema tem origem nas décadas de 1950 e 1960, quando a política habitacional subsidiava a construção de conjuntos em regiões distantes dos centros, por conta dos preços mais baixos", disse. Somam-se também outros problemas como o inchaço populacional e a ocupação dos espaços vazios, bem como a expansão urbana pela iniciativa privada a partir dos anos 1980.

Divergência

Vinícius de Moraes Netto, doutor em Urbanismo pela University College London, de Londres, e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), acredita que a idéia de usar o labirinto como forma de entender as cidades brasileiras pode ser um tanto mistificadora e imprecisa. "Ao contrário do que se pensa, até mesmo as favelas possuem uma estrutura com certa inteligibilidade, apesar de sua aparência caótica, pois existem 'esqueletos' dos caminhos principais", afirmou.

Segundo o arquiteto, as cidades nunca são "labirínticas" porque são construídas para serem o oposto do labirinto, isto é, terem níveis de estrutura inteligíveis e capazes de oferecer acessibilidade interna. No entanto, em muitas partes, as metrópoles do País apresentam características "quase labirínticas".

Para Netto, "a característica de fragmentação da metróple nacional é o principal caso, só comparável a das cidades em países islâmicos - vale a pena adicionar, sociedades regidas por códigos de conduta e interação mais controlados, cujas cidades são formas de reprodução dessa vida social mais conservadora". Já as cidades do ocidente (Europa e EUA, principalmente) expressam o oposto: boa conectividade e continuidade de malha, para estimular mobilidade, produção e a troca.

Trânsito

Assim como a projeção das cidades brasileiras é considerada por muitos como equivocada, o caos no trânsito, visto atualmente no Brasil, seria uma de suas conseqüências. O engenheiro de tráfego e perito em acidentes de trânsito Walter Kauffmann Neto acredita que nem mesmo as cidades foram mal projetadas.

De acordo com o especialista, "cada indivíduo constrói a sua residência ou negócio visando ao atendimento de suas necessidades específicas, tais como proximidade do trabalho, do cliente, do funcionário, custos de terreno, construção e impostos" informou. Para ele, cabe ao poder público entender este comportamento individual, prevendo a sua alteração com o tempo, para construir vias de tráfego adequadas para os deslocamentos da população.

Kauffmann disse que não há grandes empenhos e obras no sentido de resolver os problemas de trânsito no País. "Inexiste uma solução para o problema. O trânsito é um fenômeno complexo que somente será melhorado por meio de um conjunto integrado de políticas, obras e tecnologias focadas em um programa global de melhorias de curto, médio e longo prazo", avaliou.

Existe culpado?

Vinícius de Moraes Netto não crê que a culpa pela má projeção das cidades seja do crescimento populacional, que ocorreu em maior escala nos anos 1950 e 1960, em um período de grande expansão urbana. "Tal crescimento só evidenciou o despreparo tecnico de nossos planejadores urbanos, e tornou a conseqüência desse despreparo visível. Atualmente, nossas cidades crescem pouco, mas pouco se faz para resolver os problemas que vem desde então", considerou.

Ele explicou que "os corpos técnicos de nossas secretarias de planejamento nao reconhecem a gravidade da situação e parecem desprezar os conhecimentos e métodos para aferição de problemas entre estrutura urbana e de acessibilidade". "Nosso corpo científico é escasso em urbanismo e desconsidera as esferas técnica e política. Enquanto esses mundos não conversarem - teoria, prática e decisão - nossas cidades permanecerão como estão", destacou.

O arquiteto ressaltou que o problema principal tem sido a falta de visão global, sistêmica, coletiva - e de ver a cidade e a estrutura do espaço urbano como parte estratégica do desenvolvimento da nossa economia e sociedade. "O problema não está só no fato de que nossa infra-estrutura está em atraso em relação à dinâmica de nossas cidades e à aceleração da economia do País. Está na mentalidade e na gestão de tais pontos", completou.

Já Walter Kauffmann Neto acha que o problema não é a falta de profissionais para "pensar" os centros urbanos. "Tecnologia e profissionais qualificados já existem em quantidade suficiente para solucionar os crescentes problemas em qualquer cidade brasileira. O que falta é a vontade política, já que é mais vantajoso garantir vagas para apadrinhados políticos do que valorizar bons engenheiros, arquitetos e urbanistas", interpretou.

Soluções

O professor da UFRGS citou alguns pontos básicos que podem ser a chave para qualificar o sistema das ruas e a forma dos quarteirões: controlar a expansão das cidades, que induzirão maiores distâncias, custos, consumo de energias; controlar a urbanização e as adições de novos trechos de malha, onde atualmente tanto a iniciativa privada quanto governos locais produzem bairros novos sem critério de amarração com as ruas do entorno; e as reformas por meio de "cirurgias urbanas", que aumentariam as conexões internas entre ruas.


26/07/2008
Fonte: Terra
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