segunda-feira, 22 setembro, 2008 18:50
Ancestral
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Subterrânea,
esbranquiçada e sem olhos, espécie descoberta
no Amazonas pertence à mais antiga linhagem
de formigas vivas atualmente. Trabalho, com participação
brasileira, será publicado na revista Pnas |
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Fábio
de Castro | Agência Fapesp
LINK
ORIGINAL
As formigas surgiram
há cerca de 120 milhões de anos, durante o
período Cretáceo, quando se diferenciaram
de um ancestral comum às vespas.
Um grupo internacional
de pesquisadores acaba de descrever uma nova espécie,
encontrada nas proximidades de Manaus, que afirmam ser a
linhagem mais antiga de formigas existentes na atualidade.
A formiga vive sob o solo e mede
de 2 a 3 milímetros quando adulta. Esbranquiçada
e sem olhos, ganhou o nome de Martialis heureka. A referência
ao planeta Marte se deve à aparência “alienígena”
do animal, que possui uma combinação de características
jamais registradas. Depois da análise morfológica
e genética, os cientistas verificaram que a formiga
correspondia não apenas a uma nova espécie,
mas também a gênero e subfamília inéditos.
A descoberta será publicada
esta semana no site e em breve na edição impressa
da revista Proceedings of the National Academy of Sciences
(Pnas). Os autores do estudo são Christian Rabeling
e Jeremy Brown, da Universidade do Texas (Estados Unidos),
e Manfred Verhaagh, do Museu Estatal de História
Natural de Karlsruhe (Alemanha). O trabalho de campo no
Amazonas teve participação de Marcos Garcia,
pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, unidade
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
De acordo com Garcia, o grupo
havia trabalhado em conjunto em dois projetos de três
anos de duração realizados a partir de 1996,
dentro de um convênio bilateral entre Brasil e Alemanha
apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). A formiga havia sido encontrada
pela primeira vez por Verhaagh, em 1998.
“Trabalhamos até
o fim de 2003 em projetos que pesquisavam os organismos
de solo e sua importância para os ecossistemas locais.
O professor Verhaagh coletou dois exemplares dessa formiga,
mas houve um acidente no transporte. Eles secaram e não
puderam ser analisados”, disse Garcia à Agência
FAPESP. O entomologista da Embrapa coordenava, na época,
a parte brasileira do projeto.
Em 2003, Rabeling, que fazia
então sua pesquisa de mestrado, realizava um trabalho
de campo em um terreno da Embrapa, próximo a Manaus,
quando encontrou por acaso um novo exemplar da espécie
desconhecida. Segundo o pesquisador alemão, o animal
foi coletado na serapilheira, a camada superficial do solo
da floresta onde há restos de vegetação,
folhas, ramos, caules e cascas de frutas em diferentes estágios
de decomposição.
“Eu estava arrumando meus
pertences para ir embora, no fim da tarde, quando vi a formiga,
que me pareceu estranha. Depois da coleta, não consegui
identificá-la e enviei uma foto dela ao professor
Manfred, que me respondeu imediatamente dizendo que se tratava
da formiga encontrada em 1998”, disse Rabeling à
Agência FAPESP.
Segundo o pesquisador, existe
uma ampla literatura sobre as mais de 12,5 mil espécies
de formigas no planeta. Mas, depois de analisar as características
morfológicas da nova espécie, os cientistas
constataram que ela não se encaixava em nenhuma das
20 subfamílias existentes. “Desde 1923, esta
é a primeira descoberta de uma nova subfamília
de formigas com espécimes vivos”, afirmou.
Em seguida, os cientistas removeram
as pernas do lado direito da formiga e extraíram
o DNA para realizar análises genéticas. “Seqüenciamos
três genes e colocamos esses dados em uma matriz de
dados existente. Essa análise genética mostrou
que a formiga era a mais antiga com espécimes vivos”,
explicou.
Segundo o pesquisador, foram
coletados anteriormente fósseis mais antigos, mas
a Martialis heureka é a mais basal de todas as formigas
vivas já submetidas a uma análise filogenética.
Rabeling contou que a Sphecomyrma,
um fóssil preservado em âmbar e descrito em
1967 por Edward Wilson, da Universidade Harvard, é
considerado o “elo perdido” das formigas e vespas.
“As vespas são os
ancestrais de todas as formigas atuais. A partir desse ancestral,
elas foram se especializando para viver no solo, em árvores
ou na serapilheira e formaram o grupo monofilético
das formigas”, explicou. As formigas evoluíram
rapidamente para diferentes linhagens, partir do Cretáceo
(entre 145,5 milhões e 65,5 milhões de anos
atrás).
Novas coletas
Rabeling contou que Wilson, um dos principais especialistas
em formigas no mundo, também foi consultado quando
a Martialis heureka foi coletada. Seu comentário
gerou o nome da nova espécie. “Quando observou
a combinação desconhecida de caracteres morfológicos
aberrantes, Wilson brincou que esse gênero só
podia vir de Marte”, contou.
O cientista acredita que a descoberta
tenha implicações para a conservação
do bioma amazônico. “O projeto que envolvia
a Universidade de Tuebingen, à qual eu pertencia
na época, o Museu de Karlsruhe e a Embrapa vinha
estudando insetos da região por uma década
e, depois de todo esse tempo, ainda encontramos espécies
novas. Isso mostra a importância da conservação,
já que espécies como a Martialis heureka são
fundamentais para ajudar a entender a evolução”,
destacou.
Segundo Rabeling, a descoberta
reforça a hipótese de que as formigas predadoras
cegas que vivem sob o solo apareceram no início da
evolução das formigas. “A cor pálida
do corpo e a falta de olhos sugerem que essas formigas fizeram
adaptações propícias para seus hábitos
subterrâneos”, disse.
De acordo com Rabeling, o grupo
agora pretende realizar outro projeto para coletar mais
exemplares da formiga na Amazônia, a fim de realizar
estudos sobre seu comportamento. O grupo pretende também
desenvolver novas metodologias para coleta de espécies
subterrâneas.
O artigo Newly discovered
sister lineage sheds light on early ant evolution, de Christian
Rabeling e outros, poderá ser lido em breve por assinantes
da Pnas em www.pnas.org.