Câncer envenenado

Testes feitos no
Laboratório de Genética do Instituto Butantan
indicam que uma toxina extraída do veneno da jararaca
é
capaz de inibir a metástase do melanoma,
a forma mais agressiva de câncer de pele
(Foto: Instituto Vital Brazil)
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP –
Cientistas do Laboratório de Genética do Instituto
Butantan estão testando os efeitos da jararagina,
uma toxina presente no veneno da jararaca (Bothrops jararaca)
para tratar o melanoma, a forma mais agressiva de câncer
de pele. De acordo com a coordenadora dos estudos, Itamar
Romano Garcia Ruiz, os resultados obtidos até agora
são promissores.
Segundo ela, a literatura científica
internacional indica que toxinas presentes em diversos organismos
são eficientes para diminuir a proliferação
de células tumorais in vivo e in vitro. Isso levou
o grupo, que trabalha com a genética do câncer
desde 1996, a investigar os efeitos da toxina da jararaca
sobre tecidos cancerosos.
“Estudamos culturas de
células de melanoma tratadas com a jararagina, uma
das toxinas que compõem o veneno da jararaca. Tivemos
uma série de resultados, incluindo uma significativa
inibição da proliferação do
tumor”, disse Itamar à Agência FAPESP.
A pesquisadora afirma que o grupo
está testando os efeitos da toxina na morfologia,
adesão, migração e invasão celular.
Em todos os casos, segundo ela, os resultados são
promissores. O tratamento mostrou uma importante redução
das metástases. “No entanto, ainda falta um
longo caminho para que essas pesquisas resultem efetivamente
em uma alternativa para o tratamento da doença”,
afirmou.
O trabalho é feito em
parceria com a Divisão de Ciências Fisiológicas
e Químicas, que extrai a jararagina do veneno das
serpentes do Instituto Butantan. “O veneno das serpentes
é uma sopa de vários tipos de substâncias
que produz um efeito anestésico e degrada os tecidos.
A jararagina é uma proteína que faz parte
dessa sopa”, explicou Itamar.
O veneno dos animais, em especial
as cobras e os anfíbios, serve como proteção
ou arma natural, instalada durante a evolução.
“Cada um tem seu mecanismo. No caso das cobras o veneno
é importante, já que elas não têm
braços para agarrar as presas. As substâncias
presentes ali anestesiam e paralisam a presa. Procuramos
aproveitar a riqueza desse composto de substâncias”,
disse.
Um metal posicionado em determinado
local de sua estrutura dá à jararagina a capacidade
de degradar outras proteínas. “O que possibilita
o uso contra o câncer é que essa proteína
tem a capacidade de reconhecer uma parte da membrana da
célula tumoral, ligando-se a ela e impedindo sua
evasão, bloqueando a metástase. A literatura
científica mostrava que o nível de metástase
diminuía com o uso do veneno. Nós começamos
a usar apenas essa componente do veneno para aumentar a
eficiência dessa propriedade”, disse.
Biomarcadores
e clonagem
Além de estudar as culturas
de células tumorais do melanoma, o grupo realiza
uma série de pesquisas sobre a estrutura do DNA e
a expressão gênica desses tumores. “Outra
linha que estamos começando envolve a clonagem e
o seqüenciamento do gene que codifica a jararagina,
com a finalidade de obter uma ferramenta que, no futuro,
seja útil para combater o melanoma”, explicou
Itamar.
No laboratório, os estudos
sobre o câncer tiveram início em 1996, segundo
a pesquisadora, sempre com o apoio da FAPESP. Na linha que
trata da regulação gênica e da estrutura
do DNA, os estudos são feitos em colaboração
com o Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo (USP).
“Eles nos forneceram os
tumores dos pacientes, que usamos para analisar o DNA, comparando-o
com o próprio tecido saudável ou com o sangue
do paciente. Com isso, temos estudado o RNA-repetitivo para
tentar desenvolver biomarcadores que nos permitam mostrar
se as intervenções cirúrgicas foram
suficientes. Além da utilidade imediata para os médicos,
esse tipo de estudo nos dá novas informações
sobre como se desencadeiam e progridem os processos tumorais”,
afirmou.
Quando um paciente com um tumor
é submetido a cirurgia, uma margem de tecido saudável
é extraída, para evitar que o câncer
retorne. “Quando a pele é costurada, uma pequena
parte que fica saliente é extraída, servindo
como controle para estudo do tecido perto do próprio
tumor. O mesmo é feito com o sangue – estudamos
os leucócitos, que têm DNA. Com isso, estudamos
a estrutura do DNA tumoral, tentando correlacionar a gravidade
do tumor com as alterações observadas”,
contou.
A outra linha de estudos do laboratório
é voltada para a investigação dos genes
que codificam toxinas como a jararagina e a botropsina.
“O DNA é formado por partes codificadoras,
conhecidas como éxons, e partes intermediárias,
ou íntrons. Estamos estudando a estrutura total,
considerando éxons e íntrons. Para isso temos
que clonar e seqüenciar esses genes, o que fazemos
em colaboração com a área de biotecnologia”,
disse Itamar.
Até há pouco tempo
os íntrons eram conhecidos como “DNA-lixo”,
mas hoje, de acordo com a pesquisadora, sabe-se que 80%
deles codificam o RNA e estão ligados à regulação
dos genes.
A parte molecular dos estudos
sobre os efeitos da jararagina em cultura de células
de melanoma deverá ser concluída até
o fim do ano. A clonagem da jararagina começou a
ser feita este ano, pela mestranda Alessandra Finardi de
Souza.
“O seqüenciamento
já está bastante adiantado. O objetivo da
clonagem é usar o domínio interessante da
toxina para combater a célula tumoral. Em vez de
fazer todo o processo bioquímico de extração
da proteína, separando a jararagina de todas as outras
componentes do veneno, teremos o gene clonado e poderemos
expressar e produzir só o que nos interessa para
agir sobre a célula tumoral”, explicou.