Inseticida genético

Pesquisador
da Faculdade de Saúde Pública da USP desenvolve
técnica para produção de mosquito geneticamente
modificado, que ao ser liberado na natureza pode contribuir
para o controle dos pernilongos domésticos (foto:
FEHD/Hong Kong)
Por Thiago Romero
Agência FAPESP –
Partindo do princípio de que são escassas
as formas de controle efetivo de mosquitos, cada vez mais
resistentes aos inseticidas comerciais, o pesquisador André
Wilke, da Faculdade de Saúde Pública (FSP)
da Universidade de São Paulo (USP), adaptou um método
para o controle desses insetos.
A metodologia se caracteriza
pela produção de exemplares geneticamente
modificados para liberação em regiões
infestadas por Culex quinquefasciatus (também
conhecido popularmente como pernilongo ou muriçoca),
a fim de controlar sua população. O mosquito
é considerado uma praga urbana por ser capaz de se
desenvolver em águas poluídas e atingir elevada
densidade.
No trabalho, descrito
na dissertação de mestrado Controle genético
de mosquitos Culex quinquefasciatus, que acaba
de ser defendida na FSP, com apoio da FAPESP na modalidade
Bolsa de Mestrado, o pesquisador adaptou procedimentos da
técnica de Liberação de Insetos Carregando
Gene Letal Dominante (RIDL, na sigla em inglês), que
utiliza microinjeções de genes em embriões
de mosquitos. A técnica consiste na produção
de insetos com um gene letal.
“Trabalhamos com a inserção
de um gene letal sob o comando de um promotor específico
de fêmea para levar o mosquito à morte no momento
desejado”, disse Wilke à Agência FAPESP.
“Isso significa que, ao
integrarmos esse gene letal ao genoma do mosquito, os machos
transgênicos podem ser liberados na natureza para
cruzar com fêmeas selvagens, resultando em uma progênie
[conjunto de descendentes] apenas de machos, uma vez que
o gene letal é expresso nas fêmeas”,
explicou.
O efeito nos machos, que cruzam
com fêmeas selvagens para gerar outros machos, dura
por até três gerações, causando
o declínio no número de indivíduos
e, posteriormente, suprimindo a população.
“O conceito é que, ao utilizar um mosquito
geneticamente modificado carregando um gene letal dominante,
podemos controlar efetivamente sua população
por supressão”, disse.
O pesquisador explica
que as fêmeas do Culex quinquefasciatus cruzam
apenas uma vez durante a vida, estocando o esperma do macho
para fecundações posteriores. “A técnica
tem diversas vantagens. Diferente dos inseticidas que são
tóxicos ao meio ambiente, os mosquitos liberados
não prejudicam outros animais que venham a comê-los,
já que são considerados espécie específica
e atingem somente a população de Culex,
além de não deixar nenhum tipo de resíduo
no meio ambiente”, afirma Wilke.
De acordo com o pesquisador,
é possível manter a linhagem indefinidamente
em laboratório. “Quando os mosquitos precisarem
ser liberados, basta prepararmos um lote de machos para
cruzar com fêmeas selvagens. Os machos não
picam o homem e, portanto, também não transmitem
patógenos [agente biológico causador de doenças]”,
disse.
Vetor de doenças
A espécie Culex
quinquefasciatus tem importância vetorial na
transmissão de parasitas e arboviroses (viroses transmitidas
por artrópodes). “Ela tem a capacidade de sobreviver
em águas altamente poluídas, como as do rio
Pinheiros, em São Paulo, onde geralmente não
existem predadores naturais. Isso acarreta um desequilíbrio
ecológico e enorme número de indivíduos.
Os rios poluídos propiciam hábitats sem competição
para o mosquito”, explicou.
Além do inerente
incômodo das picadas, o Culex quinquefasciatus
tem capacidade vetorial para diversos arbovírus,
entre os quais os agentes de encefalites, inflamações
agudas do cérebro, sendo também vetor de parasitas
causadores de filariose, doença também conhecida
como elefantíase, causada por vermes que parasitam
os vasos linfáticos do homem.
Wilke lembra, no entanto,
que para a prevenção de doenças transmitidas
por outros vetores, como por exemplo o Aedes aegypti,
causador da dengue, a técnica precisaria ser modificada.
“Utilizamos a técnica RIDL para uso exclusivo
da espécie Culex quinquefasciatus. Não
há maneiras de controlar o Aedes utilizando
o Culex pelo simples fato de eles serem espécies
distintas e não cruzarem”, observou.
A técnica RIDL foi desenvolvida
por laboratórios da Universidade de Oxford, na Inglaterra,
sendo um deles liderado pelo professor Luke Alphey, da Oxford
Insect Technologies. Para Wilke, as aplicações
práticas para o controle de vetores utilizando a
RIDL são inúmeras, o que a torna uma importante
ferramenta para esse tipo de manejo.
“A RIDL é específica
para a espécie alvo, não polui o meio ambiente
e não contamina o homem ou animais. Porém
o ideal é que outras medidas de controle sejam feitas
em conjunto, como a despoluição dos rios e
a educação da população”,
explicou.
O trabalho de mestrado de Wilke
é parte de um projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP
no âmbito do programa Apoio a Jovens Pesquisadores,
coordenado pelo professor Mauro Toledo Marrelli, do Departamento
de Epidemiologia da FSP, orientador de Wilke.
“Nosso trabalho
mostra que essa técnica apresenta um enorme potencial
de controle e manejo de vetores nas grandes cidades. A RIDL
é uma ferramenta extremamente útil em saúde
pública. Uma vez controlado o vetor de um patógeno
como o Culex quinquefasciatus, o número
de infecções e o incômodo causado por
esses mosquitos diminuem”, disse Wilke.
O estudo contou com
a colaboração do professor Luke Alphey, que
fornece material genético semelhante aos utilizados
com sucesso em Oxford durante pesquisas com o Aedes
aegypti, além do apoio do grupo de pesquisa
de Margareth Capurro, professora do Instituto de Ciências
Biomédicas da USP, onde são feitas as microinjeções
e o manejo do insetário para a obtenção
do mosquito transgênico.