Ter, 30 dezembro, 2008 18:06
Migração
(bem) anterior
Por Alex Sander Alcântara

Pesquisadores
brasileiros encontram evidências
de que os tupi-guaranis podem ter chegado ao
Sudeste um milênio antes do que se acreditava
Ilustração Agência
Fapesp
Agência FAPESP
– A saída de índios tupis-guaranis da
Amazônia não é um evento tão
recente como se imaginava. Um novo estudo encontrou evidências
do povo na região onde hoje está o município
de Araruama, no Rio de Janeiro, há 2.920 anos –
mais de mil anos antes do que as evidências indicavam
até então.
Os resultados do trabalho foram
publicados nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
De acordo com a primeira autora, Rita Scheel-Ybert, professora
de Arqueologia do Departamento de Antropologia do Museu
Nacional – vinculado à Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) –, o aparecimento de datas
cada vez mais antigas no Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil,
nos últimos anos, tem mudado o paradigma a respeito
da ocupação.
Segundo ela, a hipótese
mais aceita até o momento, baseada em dados lingüísticos,
considerava que a saída dos tupis-guaranis da Amazônia
não poderia ter ocorrido antes de cerca de 2.500
anos atrás.
“A datação
anterior existente para o sítio Aldeia Morro Grande,
em Araruama, de 1.740 anos, já era considerada bastante
recuada, sendo inclusive a mais antiga para o Estado do
Rio de Janeiro. As novas datas, de cerca de 2.900 e 2.600
anos, seriam, por essa razão, completamente inesperadas”,
disse à Agência FAPESP.
De acordo com a pesquisadora,
as datas muito mais antigas do que as precedentes, e ainda
sem paralelo na região, colocam em questão
a data de saída dessas populações da
Amazônia e, possivelmente, suas rotas de migração.
As novas datas, acredita ela, não questionam a origem
amazônica dos tupis-guaranis, pois, para isso, seria
necessário um número maior de evidências.
“Nossa hipótese
é que a multiplicação dos estudos e
um maior investimento em datações, tanto na
Amazônia como no resto do Brasil, tenderão
a revelar outras datações tão ou mais
antigas como essas e permitirão uma melhor compreensão
dos processos de ocupação do nosso território”,
disse, salientando que outros autores já haviam sugerido
que a expansão tupi-guarani a partir da Amazônia
possa ter começado há bem mais de 2.000 anos.
Duas fogueiras,
uma comprovação
A pista inicial – encontrada
a partir dos carvões de uma fogueira – foi
descartada pela pesquisadora no fim da década de
1990. Por ser antiga demais, ela não acreditou que
a fogueira pudesse ser de origem humana (antrópica)
e acabou engavetando a análise.
Segundo ela, a antigüidade
da primeira data obtida, de 2.920 anos, pareceu-lhe tão
desproporcional em relação ao que era esperado
que em um primeiro momento achou que os carvões datados
poderiam não ser de origem humana. “Imaginamos,
na época, que eles poderiam ser restos de um paleoincêndio
anterior ao sítio, pois se tratava de carvões
dispersos no sedimento do sítio”, disse.
“Foi apenas após
a análise antracológica [ciência que
estuda os carvões conservados nos sedimentos arqueológicos]
que se teve certeza de que esses carvões eram, sem
dúvida, de origem antrópica e associados ao
sítio em questão, possivelmente originados
em uma fogueira de queimar cerâmica”, apontou.
A confirmação da
primeira pista veio com a segunda datação
(de 2.600 anos), feita por Kita Macario, professora do Centro
de Estudos Gerais do Instituto de Física da Universidade
Federal Fluminense (UFF), que realizava doutorado nos Estados
Unidos. Segundo Rita, a colega datou uma fogueira do mesmo
sítio arqueológico de Morro Grande, no município
de Araruama, que era interpretada, por critérios
arqueológicos, como sendo de origem ritual.
“Mais uma vez a antigüidade
da data surpreendeu, especialmente porque ela não
tinha conhecimento da minha datação, o que
só veio a ocorrer posteriormente”, explicou.
Segundo Rita, essa seqüência de resultados confirmou
as datas, convencendo a equipe de que eram realmente válidas.
“Além disso, o fato
de as datações terem sido feitas em contextos
diversos, em laboratórios diferentes, de modo totalmente
independente e ainda assim fornecerem resultados semelhantes,
naturalmente valida os resultados, à medida que assegura
que não pode ter havido nenhum tipo de contaminação
das amostras, nem erro de medição”,
disse.
Métodos
As datações foram
feitas, segundo a professora do Museu Nacional, pelo método
do carbono-14. E os resultados obtidos são apresentados
como “anos AP”, isto é, “anos antes
do presente”, mas que, na realidade, significam “anos
antes de 1950”.
“A data de 1950 é
usada como referência pelo fato de as explosões
atômicas terem modificado significativamente os teores
de carbono-14 na atmosfera depois disso”, explicou.
Até agora, segundo Rita,
as análises realizadas demonstraram que os grupos
que habitaram a aldeia Morro Grande viviam, de fato, na
Mata Atlântica, o que já era esperado, “além
de fornecer uma série de considerações
inéditas sobre uso da madeira em contexto cotidiano
e ritual”.
Para a cientista, a descoberta
muda definitivamente o paradigma de que a saída dos
tupis-guaranis da Amazônia tenha sido um evento recente.
E coloca em xeque as hipóteses atualmente vigentes
de data de saída e, possivelmente, de rotas de migração.
“No entanto, enquanto não aparecerem novas
datas que venham a confirmar e explicar essas que foram
obtidas, não dispomos de hipóteses alternativas
a sugerir”, ressaltou.
“Consideramos que, mais
do que atestar a ocupação tupi-guarani mais
antiga do Brasil, nossos resultados colocam em evidência
a necessidade de que novas pesquisas arqueológicas
sistemáticas sejam realizadas, tanto em nível
local como regional, e que um maior número de datações
seja feito”, disse.
Além de Rita e Kita, participaram
do estudo Angela Buarque, do Departamento de Antropologia
do Museu Nacional, Roberto Anjos, do Instituto de Física
da UFF, e Mariana Beauclair, do Departamento de Geologia
e Paleontologia do Museu Nacional.
Para ler o artigo A
new age to an old site: the earliest Tupiguarani settlement
in Rio de Janeiro State?, de Rita Scheel-Ybert e outros,
disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP),
clique aqui.
Agência Fapesp
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