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Pesquisadores
do principal experimento dedicado ao estudo dos efeitos
da fragmentação em florestas tropicais
afirmam que crise econômica deteve, por hora,
avanço da colonização que ameaçava
o projeto. Mas, sem definição política,
pressão populacional poderá reacender
o problema |
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Leia mais em:
61ª
Reunião Anual da SBPC |
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Indefinição
problemática
terça-feira, 14 julho, 2009 13:41
Em julho de 2007,
pesquisadores que atuam no Projeto Dinâmica Biológica
de Fragmentos Florestais (PDBFF) – o principal experimento
no mundo dedicado ao estudo dos efeitos da fragmentação
em florestas tropicais – já alertavam que aquela
verdadeira floresta laboratório estava seriamente
ameaçada pela política de colonização
da área.
Dois anos depois, apesar do apelo
dos cientistas, publicado na revista Nature, a situação
permanece estagnada, segundo o coordenador científico
do PDBFF, José Luís Camargo, do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
“Desde então, a
chegada de novos colonos à área do projeto
praticamente cessou, graças à crise econômica.
Mas nada foi feito para impedir que isso volte a ocorrer
no futuro. Sem uma definição precisa da política
de colonização da área, a pressão
populacional de Manaus em breve se tornará uma ameaça
real ao experimento”, disse Camargo à Agência
FAPESP durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada
na capital amazonense.
Uma parceria entre o Inpa e o
Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais, nos Estados
Unidos, o PDBFF tem o objetivo de avaliar mudanças
causadas no ecossistema da floresta tropical à medida
que ela é fragmentada. Criado há 30 anos,
o projeto já gerou mais de 500 artigos, além
de 115 teses e dissertações.
Segundo Camargo, o projeto ocupa
uma área de 1 quilômetro quadrado na qual há
fragmentos comparáveis de 1, 10 e 100 hectares, ilhados
em áreas desmatadas desde a década de 1970.
Essa configuração permite o monitoramento
comparativo antes mesmo de as áreas terem sido alteradas,
o que confere ao projeto um valor científico incalculável.
Mas a localização, a apenas 80 quilômetros
de Manaus, representa um risco iminente.
“O acesso é relativamente
fácil e a pressão urbana tende a aumentar.
Manaus já dobrou a sua população nos
últimos 20 anos, o que caracteriza uma explosão
habitacional. Com os investimentos que serão trazidos
à cidade com sua escolha para ser uma das sedes da
Copa do Mundo de futebol, essa pressão populacional
poderá se tornar incontrolável”, afirmou.
Camargo explica que o projeto
se localiza no Distrito Agropecuário da Superintendência
da Zona Franca de Manaus (Suframa), ligado ao Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
A Suframa, segundo ele, realizou, em associação
com o Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra), um plano de distribuição
de pequenos lotes adjacentes às áreas de pesquisa.
“Nos últimos dois
anos a crise diminuiu essa movimentação, mas
não houve iniciativas para uma definição
política que impusesse, por exemplo, a criação
de zonas-tampão que impedissem os assentamentos contíguos
às áreas de pesquisa”, disse.
Para o cientista, o impacto não
seria tão ameaçador se a instalação
dos colonos estivesse associada a Sistemas Agroflorestais
(SAF). “Mas não é o que vemos. As famílias
que vão para lá estão se dedicando
à produção de carvão. No entanto,
aquelas áreas poderiam ser recuperadas, pois hoje
temos técnicas de enriquecimento de capoeiras capazes
de recuperar a floresta”, destacou.
Entender a floresta
O norte-americano William Laurance,
do Instituto Smithsonian – que em 2007 assinou em
coautoria com Regina Luizão, do Inpa, o artigo na
Nature alertando para os riscos corridos pelo PDBFF –,
afirmou que a própria Suframa realizou há
cerca de cinco anos um projeto de Zoneamento Ecológico-Econômico
(ZEE) no distrito, concluindo que a área é
um hotspot de biodiversidade (uma das áreas prioritárias
para a conservação global).
“O estudo foi extraordinariamente
bem feito mas, aparentemente, os autores ficaram sentados
em cima dele, porque nunca chegou a ser lançado oficialmente.
Achamos preocupante a atitude da Suframa em relação
à colonização. Os colonos estão
queimando a floresta para fazer carvão e vender em
Manaus. E essa devastação, ainda por cima,
rende muito pouco a essa população”,
disse.
Segundo Laurance, as pesquisas
realizadas no PDBFF têm contribuído de forma
contundente para o conhecimento dos impactos da fragmentação
florestal.
“Graças aos estudos
feitos nesse experimento pudemos verificar que o tamanho
dos fragmentos tem uma correlação com a vulnerabilidade
da floresta: quanto menor o fragmento, maior a mortalidade
de árvores e a suscetibilidade aos impactos das mudanças
climáticas, da exploração de madeira
e queimadas”, disse.
A partir desses estudos, os pesquisadores
tentam entender que fatores causam as mudanças ecológicas
detectadas em fragmentos florestais, como a alta mortalidade
de árvores.
“Foi identificado, por
exemplo, que a mortalidade é muito maior perto das
bordas dos fragmentos, já que os ventos são
mais intensos, expondo especialmente as árvores maiores.
Outro fator é o efeito das matrizes adjacentes: as
pastagens em torno do fragmento, por exemplo, causam mudanças
microclimáticas importantes, tornando as bordas mais
secas e quentes”, disse.
Segundo Laurance, novos estudos
realizados na área, que serão publicados em
breve, têm feito a identificação botânica
das árvores jovens, com diâmetro entre 1 e
10 centímetros.
“Estamos fazendo estudos
fitodemográficos com essas árvores jovens
para saber em que medida sua composição está
sofrendo modificações e se determinadas espécies
são mais ou menos vulneráveis à fragmentação.
Já sabemos que entre as árvores adultas há
muito mais mortalidade nas bordas dos fragmentos. Nos interessa
entender agora a dinâmica das árvores jovens
porque elas correspondem ao futuro da floresta”, afirmou.
Agência
Fapesp