ABC avalia que
é hora de mandar doutores para a Amazônia
quarta-feira, 15 julho, 2009 14:43
(Agência SBPC)
– A formação e a fixação
de recursos humanos qualificados para pesquisa científica
são desafios imediatos para qualquer tentativa de
buscar modelos de desenvolvimento sustentáveis para
a região amazônica. A situação
atual é marcada por pequena quantidade de doutores
atuando na região (tanto em absoluto, quanto per
capita), investimentos em C&T menores do que nas demais
regiões, dificuldades em preencher vagas de concursos
públicos em que o doutorado é requisito e
fuga de pesquisadores para outros estados.
O cenário foi traçado nesta segunda-feira,
dia 13/07, na Reunião Anual da SBPC, em mesa-redonda
para discutir a revisão do documento “Amazônia:
desafio brasileiro do século XXI”, elaborado
pela Academia Brasileira de Ciências (ABC). Coordenada
pelo presidente da ABC, Jacob Palis, a mesa debateu sugestões
para melhorar o quadro e tornar palpável uma série
de recomendações para elaboração
de políticas públicas.
Segundo Palis, a revisão
se impõe por dois motivos. Em primeiro lugar, algumas
coisas mudaram desde o lançamento do documento, em
2008. Os salários de professores e pesquisadores
foram reajustados e foi criada a Universidade Federal do
Oeste do Pará (Ufopa) – a criação
de novas instituições de ensino superior e
institutos de pesquisa estava proposta no documento.
O segundo motivo é a proximidade
com o ano eleitoral de 2010. O presidente da ABC pretende
receber sugestões de melhorias ao estudo ao longo
deste segundo semestre e início de 2010, com o objetivo
de contribuir no debate sobre programas de governos que
será colocado no próximo ano.
Remuneração diferenciada – Palis defende
remuneração diferenciada para os doutores
atuantes em regiões ainda carentes de recursos humanos
qualificados, sugestão já inserida no documento
de 2008. Colocar o incentivo financeiro em prática,
vencendo eventuais resistências, é o desafio.
“O País terá que encarar esse problema”,
disse o presidente da ABC.
As discussões na mesa-redonda
foram guiadas por levantamento preliminar de dados feito
pela pesquisadora Flávia Costa, do Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em parceria com demais
jovens membros da ABC atuantes na região norte. Os
números colhidos junto ao CNPq, às FAPs da
região, às universidades e aos institutos
de pesquisa, demonstram as desigualdades regionais –
Amazonas e Pará estão em estágio mais
avançado em relação aos demais estados.
Palis afirmou que o sistema universitário
centralizado nacionalmente (sem diferenciação
regional da remuneração, por exemplo) tem
inspiração francesa e não funciona
diante das desigualdades regionais do Brasil. Uma mudança
radical no sistema, porém, sofrerá muita resistência.
Por isso, o presidente da ABC
defende a participação ativa dos governos
estaduais na fixação de doutores. Por meio
das Fundações de Amparo à Pesquisa
(FAPs), os estados poderiam, por exemplo, oferecer bolsas
automáticas para bolsistas de produtividade do CNPq,
dobrando a remuneração de pesquisadores dispostos
a atuar na região amazônica. “No Amazonas
e no Pará, há boa disposição
para esse tipo de iniciativa”, disse Palis.
Essa opção,
porém, traz embutido mais um obstáculo: os
quatro únicos estados que não possuem FAPs
estão na região norte – Tocantins, Roraima,
Rondônia e Amapá. A mobilização
pela criação das fundações será,
portanto, fundamental para fixar doutores na região
amazônica. Os prejuízos estão estimados
no levantamento de Flávia Costa: os estados sem FAP
são os que menos investem em C&T e os que menos
possuem doutores em atuação.
Vinicius Neder, do Jornal
da Ciência, para a Agência SBPC