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Antonio
Cruz/ABr |
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Manaus
- Índios da etnia Tuyuka, de São Gabriel
da Cachoeira, norte do Amazonas, participam da 61ª
Reunião Anual da SBPC |
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Leia
mais em:
61ª
Reunião Anual da SBPC |
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Revitalização
de línguas nativas
quinta-feira, 16 julho, 2009 13:32
Por Jussara
Mangini, de Manaus
Agência FAPESP –
Das cerca de 150 línguas nativas atualmente em uso
no Brasil – aquelas empregadas tradicionalmente por
povos indígenas antes do contato com os não-indígenas
–, pelo menos 21% estão seriamente ameaçadas
de desaparecer em curto prazo, devido ao número reduzido
de falantes e à baixa taxa de transmissão
para novas gerações, segundo pesquisadores.
Um caminho para tentar reverter
esse quadro seria a formulação e aplicação
de uma Política Linguística e Científica.
Essa foi uma das principais conclusões da mesa-redonda
“Línguas Nativas da Região Norte: perspectivas
para a sua documentação, manutenção
e pesquisa”, realizada na 61ª Reunião
Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), em Manaus.
De acordo com os participantes,
essa política poderia contribuir para: definir parâmetros
de documentação (trabalhar por família
linguística ou por áreas etnográficas
como a calha dos rios, por exemplo, seguindo o que pensam
os falantes ou membros dos povos envolvidos); criar mecanismos
que ajudem a suprir a falta de recursos humanos interessados
nessa área de pesquisa; e promover a valorização
das línguas nativas, contribuindo com o desenvolvimento
de estratégias de transmissão desses idiomas.
“O processo de documentação
é fundamental para ampliar o conhecimento sobre a
diversidade e transmissão das línguas nativas”,
destacou Frantomé Pacheco, professor do Departamento
de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas, que
presidiu a mesa-redonda.
Para Dennis Albert Moore, curador
da Coleção Linguística e coordenador
da área de linguística do Museu Paraense Emílio
Goeldi, um dos desafios da documentação é
que idiomas que são registrados como diferentes às
vezes são dialetos de uma mesma língua, reflexo
de divisões étnicas e políticas.
Moore, que contribuiu com a produção
de um atlas das línguas em extinção,
usa como exemplo o caso da família linguística
Mondé, do tronco Tupi. “A fala dos Gavião,
de Rondônia, e a fala dos seus vizinhos Zoró
são geralmente listadas como línguas distintas,
quando, na realidade, são dialetos tão próximos
como o português de Salvador e o português do
Rio de Janeiro”, disse.
Em artigo publicado na revista
Scientific American, em setembro de 2008, intitulado O desafio
de documentar e preservar as línguas amazônicas,
Moore, juntamente com outros especialistas, explica que
na coleta de dados há uma tendência de confundir
a população de um grupo com o número
de indivíduos que falam a língua. “Certamente,
o número de falantes é muito menor do que
se pensava e a situação das línguas
é, portanto, mais grave”, afirmou.
Línguas
e falantes
Além de ser a região
com maior concentração de populações
indígenas no Brasil, a Amazônia concentra dois
terços das línguas indígenas faladas
no país.
Apenas no Estado do Amazonas
o número de línguas ainda faladas está
entre 50 e 56. Entre as que desapareceram diante do contato
com os não-indígenas estão Baré,
Mura, Kokama e Torá. Há pessoas que se identificam
etnicamente como pertencentes a essas etnias, mas que empregam
uma variedade regional/indígena do português.
A Língua Geral Amazônica
(Nhenngatu) é empregada por muitas etnias, identificando
seus membros como indígenas pertencentes a elas (como
os Baré, cuja língua tradicional já
não é mais falada).
Segundo dados apresentados por
Pacheco, a maioria das línguas conta com poucos falantes
(abaixo de 100). Entre as com maior número (acima
de 4 mil) estão: Sateré (6.219), Baniwa (5.811),
Tikuna (cerca de 35 mil), Tukano (8 mil), Yanomami (6 mil),
Yanomam (4 mil) e Língua Geral Amazônica (6
mil).
No Pará há cerca
de 26 idiomas nativos, número semelhante ao de línguas
faladas na Europa Ocidental, apontou Moore. Dessas 26, duas
não têm pesquisas sobre elas. Das demais, 50%
têm estudo em nível de doutorado e muitos artigos
publicados, 31% têm estudo em nível de mestrado
e 12% têm boa descrição.
Segundo o pesquisador do Museu
Goeldi, o futuro de uma língua é determinado
pela transmissão à geração subsequente,
o que é difícil de apurar. No Pará,
foram identificadas cinco línguas (19%) com índice
zero de transmissão. Outras duas (8%) têm pouca
transmissão, três (12%) têm índice
médio e 16 (62%) têm boa ou alta transmissão.
Em Roraima, de acordo com Maria
Odileiz Sousa Cruz, da Universidade Federal de Roraima,
há 61 povos indígenas com menos de 200 falantes
do idioma nativo e cinco povos que variam de 10 mil a 20
mil falantes.
O número de falantes em
cada uma das famílias linguísticas no Estado,
sem contabilizar o grupo Yanomami, que vive isolado, é:
Makuxí (cerca de 12 mil falantes), Taurepang (600),
WaiWai (2.500), Ingarikó (1.170), Waimiri-Atroari
(970), Ye’kuana (426), Wapixana (4.000), Atoraiú
(1) e Sapará (1).
Estratégias
A demanda por documentação
por parte dos grupos indígenas tem aumentado rapidamente,
de acordo com os participantes da mesa-redonda na reunião
da SBPC. Um deles, Euclides Pereira, gerente técnico
do Projetos Demonstrativos para Povos Indígenas,
ligado ao Ministério do Meio Ambiente, reforçou
essa preocupação como representante do povo
Makuxí.
Segundo Pereira, não adianta
só proteger a língua, é preciso difundi-la.
Mas como se trata de uma língua oral, para ensinar
é preciso conhecer sua estrutura. Há palavras,
por exemplo, que só são ditas por homens e
outras só por mulheres, assim como estão surgindo
novas no contato com outros povos e com não-indígenas.
“Não funciona ensinar
Makuxí da mesma forma que se ensina o português.
A universidade poderia contribuir no assessoramento da produção
de materiais que explorem não só a escrita,
mas também imagens que envolvam os alunos com histórias,
mitos e fundamentos da língua. Talvez possa produzir
vídeos e CDs que facilitem o entendimento e a difusão”,
sugeriu.
No Brasil, a digitalização
e a anotação de gravações de
amostras naturais de línguas estão em fase
inicial. O Museu Goeldi monta arquivos digitais modernos
em servidores. Arquivos desse tipo têm como beneficiários
principais os grupos indígenas, tal como na Austrália,
onde 95% das consultas aos arquivos são feitas por
aborígenes.
Há ainda programas de
alfabetização e revitalização,
mas os resultados não são levantados e avaliados
sistematicamente. Uma das iniciativas que visam ao levantamento
da situação de todas as línguas é
o Inventário Nacional da Diversidade Linguística,
planejada pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan) em parceria com a Associação
Brasileira de Linguística (Abralin).
Em Roraima, destacam-se algumas
iniciativas de instrumentalização dos falantes
nativos que têm como objetivo trabalhar com a história
das línguas em seus diversos estágios. É
o caso de duas emissoras de rádio que transmitem
programas educativos em línguas nativas. A Universidade
Federal de Roraima também criou o Núcleo Insikiran
de Formação Superior Indígena, hoje
com 240 alunos, entre outros cursos criados por outras instituições
do Estado.
Agência
Fapesp