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Pesquisa
feita no Instituto de Geociências da USP desenvolve
fossa séptica mais eficiente e de menor custo
do que as convencionais |
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Saneamento
acessível
segunda-feira,
23 agosto, 2010 20:45
Fabio Reynol
| Agência FAPESP
A grande maioria das
cidades brasileiras sofre, em maior ou menor grau, de contaminação
por nitrogênio, particularmente de nitrato. As zonas
rurais são contaminadas por causa do uso excessivo
de fertilizantes e os solos urbanos recebem nitrogênio
principalmente de fossas sanitárias ou mesmo de redes
de esgoto sem manutenção ou mal projetadas.
Esse problema levou o grupo de
pesquisa do Laboratório de Modelos Físicos
do Instituto de Geociências da Universidade de São
Paulo (IG-USP) a desenvolver uma fossa séptica que
fosse mais eficiente e, ao mesmo tempo, acessível
às populações mais pobres, que dependem
principalmente desse tipo de saneamento.
O projeto Minimização
dos Impactos dos Sistemas de Saneamento (Minisis), apoiado
pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à
Pesquisa – Regular, analisou o problema de maneira
ampla e resultou em uma série de contribuições
ao sistema de saneamento por fossas sépticas.
“As fossas convencionais
são bastante eficientes em degradar matéria
orgânica infiltrada no solo, mas o seu rendimento
é limitado para nutrientes, como o nitrogênio”,
disse Ricardo Hirata, professor do IG-USP e coordenador
do projeto. O resultado é a contaminação
do ambiente por microrganismos e por nitrato (NO3), uma
das formas que se apresenta o nitrogênio no ambiente
e que é muito estável e móvel e pode
permanecer por décadas nas águas subterrâneas.
A dificuldade de degradação
do nitrato, aliada ao fato de derivar de uma fonte crescente,
os dejetos humanos, fazem dele o contaminante mais abundante
do planeta nas águas subterrâneas. “O
nitrato não é o contaminante mais agressivo,
mas com certeza é o mais comum e o que se apresenta
em maior volume nos reservatórios de água
subterrânea, os aquíferos”, disse.
O problema aumenta com o crescimento
das cidades, cujas redes de coleta de esgoto nunca crescem
na mesma proporção. O resultado é a
permanência de nitrato no ambiente por períodos
que podem chegar a centenas de anos.
O nitrato permanece nos lençóis
freáticos e volta à população
com a captação de água por poços
ou nascentes, configurando-se em um grande problema de saúde
pública. “Um dos mais sérios casos de
contaminação é o da cidade de Natal
(RN), cuja população consome água encanada
com nitrato”, disse Hirata.
Em São Paulo, a situação
também requer atenção, segundo o pesquisador,
pois 75% dos municípios paulistas são abastecidos
total ou parcialmente pela água que vem de fontes
subterrâneas, muitas dessas vulneráveis à
contaminação por fossas.
Sem condições financeiras
de construir uma estrutura apropriada, muitos moradores
cavam buracos simples no solo e que, frequentemente, encontram
o nível freático. Esse recurso, chamado de
“fossa negra”, é ainda mais nocivo ao
ambiente, pois injeta o contaminante diretamente na água
subterrânea, sem que nenhuma forma de redução
do contaminante possa ocorrer no solo, onde se processa
a maior parte da transformação bioquímica
dessas substâncias nocivas, segundo o professor.
Desenvolvimento
no local
Para
desenvolver o novo modelo de fossa, o grupo da USP precisava
de uma comunidade que não fosse atendida pela rede
de esgoto. O bairro de Santo Antônio, no distrito
de Parelheiros, zona sul de São Paulo, foi o escolhido.
Os pesquisadores acompanharam
o desempenho de duas fossas pertencentes a moradores vizinhos.
Uma delas, a fossa controle, era do tipo negro convencional.
A segunda foi construída na casa ao lado segundo
a tecnologia desenvolvida pelo grupo.
A fossa projetada pelos pesquisadores
tem dois níveis. O primeiro é formado por
óxidos de cálcio e de ferro, um rejeito da
indústria siderúrgica com propriedades bactericidas.
“Por ter um pH muito alto, próximo de 12, esse
material consegue degradar vírus e bactérias
com alta eficiência”, explicou Hirata.
Para o experimento a equipe conseguiu
trazer escória do porto capixaba de Tubarão,
que possui grande fluxo de exportações de
minério de ferro. Após passar pela camada
mineral, o líquido efluente percola para a segunda
barreira reativa, composta por areia e serragem da madeira
cedrinho. Os cavacos de madeira, que fornecem carbono ao
meio por respiração aeróbica, consomem
o oxigênio e propiciam que o nitrato seja reduzido
bioquimicamente a um gás de nitrogênio.
O projeto foi bem-sucedido e
a primeira camada eliminou 95% dos vírus e bactérias
presentes. Já a barreira de serragem e areia degradou
com eficiência 60% do nitrato encontrado, mas Hirata
aponta que o conhecimento alcançado no experimento
permite melhorar esse número para 80%.
A degradação do
nitrato no novo sistema foi tema da tese de doutorado de
Alexandra Vieira Suhogusoff, defendida este ano. A aluna
foi orientada por Hirata e teve apoio FAPESP por meio de
uma Bolsa de Doutorado Direto.
A redução dos microrganismos
obtida na primeira camada da fossa rendeu a tese de doutorado
de Jesse Stimson, da Universidade de Waterloo, no Canadá,
instituição que colaborou com o projeto de
pesquisa.
O trabalho ainda contou com equipamentos
de monitoramento para controlar a quantidade de material
lançado em cada fossa e permitir a retirada de amostras.
Os resultados obtidos foram usados para construir modelos
numéricos que indicaram a possibilidade de se repensar
a ocupação urbana sem rede de esgoto, permitindo
aumentar o número de fossas sem implicar contaminações
das águas subterrâneas ou mesmo superficial.
“Como ela é mais
eficiente, podemos aumentar em até 60% a densidade
de fossas em um bairro, comparativamente à capacidade
de suporte com uso de técnicas convencionais”,
afirmou Hirata, ressaltando que o custo da obra é
bem acessível, embora não tenha estimado o
valor exato.
Outra vantagem é que a
construção da nova fossa não exige
treinamento específico de profissionais. “Qualquer
pedreiro familiarizado com obras de poços é
capaz de construir o novo modelo”, disse. Isso permite
que seja utilizada mão de obra local, mais acessível
financeiramente.
Poços
mais seguros
Outro resultado
do projeto foi o desenvolvimento de uma metodologia para
avaliação sanitária de poços
de água. Trata-se de um questionário simples
com dez perguntas objetivas que exigem respostas simples
de “sim” ou “não”, como “há
criação de animais próxima ao poço?”,
“o poço possui trincas na parede interna?”
e “a água que sai da cozinha passa a menos
de 10 metros do poço?”
Com ele, um agente de saúde
pode fazer um levantamento da qualidade da água consumida
em um bairro, uma vez que a qualidade do poço é
estimada a partir do número de respostas positivas
recebidas.
“É um modo simples
de municiar os órgãos de saúde pública
na importante questão do consumo de água na
área periférica de cidades”, sugeriu
Hirata, que alertou para o fato de a população
não possuir parâmetros objetivos para avaliar
a água de seus poços.
“Para muitos, a água
cristalina e fresca é sinônimo de água
potável e, como as doenças provocadas pela
contaminação aparecem esporadicamente, eles
não associam essas doenças à qualidade
da água”, apontou. O questionário foi
adaptado de uma metodologia desenvolvida na Inglaterra e
aplicada com sucesso em alguns países africanos.
Segundo o professor do Instituto
de Geociências da USP, a fossa e o questionário
desenvolvidos nessa pesquisa são soluções
baratas e que podem ajudar especialmente as áreas
mais afastadas e carentes enquanto não recebem rede
de esgoto.
“O ideal seria
que todos tivessem coleta de esgoto, porém, como
nossa experiência mostra que a área de saneamento
não costuma contar com muitos recursos, essas soluções
poderiam amenizar muito a contaminação da
água e reduzir os problemas de saúde da população”,
disse Hirata.