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divulgação
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Segundo
o estudo, os indicadores ambientais foram muito tímidos |
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Incentivos
ao biodiesel não melhoram indicadores ambientais
segunda-feira,
23 agosto, 2010 21:20
Rosemeire
Soares Talamone
Serviço de Comunicação
Social
Coordenadoria do Campus de Ribeirão Preto
Pesquisa da professora
Flavia Trentini, da Faculdade de Direito de Ribeirão
Preto (FDRP) da USP analisou o Programa Nacional de Produção
e Uso de Biodiesel (PNPB) e concluiu que a implantação
do Selo Social mostrou-se eficaz para melhorar os indicadores
econômicos e sociais dos agricultores, mas por outro
lado os indicadores ambientais foram muito tímidos.
Segundo Flavia, a presença de cláusula ambiental
de responsabilidade dentro do PNPB atua posteriormente à
degradação ambiental, portanto é necessária
uma revisão dessa questão pelo órgão
que concede o Selo Social para o biodiesel.
O estudo avalia o impacto
do Selo Combustível Social no PNPB a partir dos indicadores
de sustentabilidade econômico, social e ambiental.
A pesquisadora utilizou amostras coletadas em dois pólos
de produção de matérias primas do biodiesel,
em Quixadá (Ceará), e em Cachoeira do Sul
(Rio Grande do Sul). “Escolhemos Quixadá em
função de a região receber incentivos
governamentais e por estarem focados no desenvolvimento
de culturas alternativas, sobretudo da mamona, e na geração
de renda numa das regiões mais pobres do País”,
explica. No Sul, que utiliza a soja para a produção
do biodiesel, diz a pesquisadora, a escolha se deu por ser
a que mais se sobressai na produção do biocombustível
e em 2009, representou 75,4% de toda a produção
do Brasil.
A questão econômica
foi analisada a partir de dados de geração
de renda e de renda complementar e retorno econômico
satisfatório. Já o social teve por base a
autossuficiência alimentar da família, por
meio da diversificação de culturas, incentivo
ao processo decisório coletivo e proteção
à diversidade cultural. A ambiental focou a proteção
de recursos naturais (solo e água) e rotação
e consórcio de culturas. “A pesquisa foi qualitativa,
com 60 agricultores familiares produtores de oleaginosas
destinadas à produção de biodiesel,
a escolha dos agricultores participantes foi intencional
e não probabilístico”, diz a pesquisadora.
No Ceará, o
perfil dos agricultores que fizeram parte da amostra é
de homens, com mais de 40 anos, analfabetos, assentados
pelo Programa Nacional de Reforma Agrária e com experiência
de mais de 10 anos na agricultura. As propriedades têm
tamanho médio de 23,69 hectares, mas a área
destinada ao plantio da mamona não ultrapassa a 2,18
hectares. No Sul são homens, com mais de 30 anos
de idade, alfabetizados, mas 68% não completaram
o primeiro grau, 83% são proprietários e arrendatários
das propriedades, e com experiência também
de mais de 10 anos na agricultura. O tamanho das propriedades
no Sul é quase três vezes maior que do Ceará,
61,10 hectares, e a área destinada ao plantio da
soja não passa de 44,33%. Para a pesquisa nos dois
locais também foram entrevistados representantes
de empresas envolvidas na produção, associações
de classe e órgãos do governo.
Renda
Na questão da renda, a pesquisadora observou que
até a introdução do PNPB no Nordeste,
a agricultura era de subsistência, com o cultivo de
milho e feijão. Portanto, com a inserção
da mamona foi criada uma nova fonte de renda, mas toda aplicada
na subsistência alimentar. No Sul, também a
renda vem do cultivo de duas espécies, plantadas
em épocas distintas, soja e arroz, mas são
destinadas ao mercado, como mais uma alternativa de fonte
de renda. Mesmo sendo mais uma fonte de renda nas duas regiões,
o destino dos recursos gerados também se diferencia.
“Enquanto no Sul eles cresceram para todos os agricultores,
no Nordeste 40% disse que cresceu, para 35% foi mantida,
resultado de perda parcial ou total da produção
em função das condições climáticas,
e para 10% os recursos diminuíram”.
“Com relação
à aplicação da renda resultante da
venda da mamona e da soja o questionamento também
apresentou diferenças”, diz a pesquisadora.
Enquanto no Sul a resposta foi de investimento na propriedade,
compra de bens imóveis e pagamento de dívidas,
no Nordeste, onde a venda da mamona aparece como única
fonte de renda, a preocupação foi com a melhoria
na alimentação. Quanto à diversificação
da cultura, ela cumpre o indicador econômico de ingresso
de renda de outras atividades. “No Sul, ela está
atrelada ao mercado e, no Nordeste, como meio de segurança
alimentar e subsistência dos agricultores”,
aponta Trentini.
Ambiente
Os indicadores ambientais foram analisados sob o aspecto
do meio ambiente natural, aquele que existe independente
da influência do homem, como, por exemplo, água,
flora, fauna e solo. A preocupação nesse aspecto
foi com a rotação de culturas, que se agrega
ao uso de corretivos no solo como fatores de proteção.
No Sul, 70% dos agricultores responderam que utilizam corretivos,
enquanto no Nordeste esse índice é de 58%.
Por outro lado a rotação de culturas em alguns
locais das duas regiões é feita por meio de
consórcios, mas algumas das culturas não são
indicadas para a proteção e conservação
do solo.
Os agricultores das
duas regiões foram questionados sobre a existência
de área não cultivada e destinada à
preservação da vegetação, como
reservas legais e de preservação permanente.
Enquanto no Sertão Central do Ceará 64% dos
agricultores responderam que possuem área não
destinada ao cultivo, no Centro do Rio Grande do Sul, 80%
dos entrevistados deixam de produzir em uma área
determinada. No Nordeste, dois fatores chamaram a atenção
da pesquisadora. “A expressiva área destinada
à reserva legal é resultado da forma de aquisição
da propriedade”, explica. ” Os entrevistados
são assentados no Programa Nacional de Reforma Agrária,
que obriga a averbação da área de reserva
legal. Também a falta de maquinário para trabalhar
a terra pode explicar esse índice”.
Outro fato que despertou
a atenção foram as condições
dos recursos hídricos. No Nordeste, 91% não
despejam qualquer tipo de dejetos nos rios, riachos, olhos
d’água, enquanto no Sul esse percentual é
de 75%. O dado não esperado, segundo a pesquisadora
foi a afirmação de separação
dos resíduos orgânicos e inorgânicos
por 73% dos agricultores da região Sul, que conta
com coleta seletiva rural.
O estudo da professora
Flavia faz parte do trabalho de pós-doutorado apresentado
na Faculdade de Economia, Administração e
Contabilidade (FEA) da USP, em São Paulo, com orientação
da professora Maria Sylvia Macchione Saes. A pesquisa também
integra a obra “Ensaios sobre Biocombustíveis”,
volume 2, que será lançada em 13 de setembro
durante o Workshop “Biocombustíveis e Sustentabilidade”,
realizado na FDRP.