Livro de Marcio
Paschoal e debate revivem obra e vida do cantor e compositor
maranhense João do Vale

Foto-montagem
- Marcio Paschoal em primeiro plano sobre imagem de João
do Vale, a partir de material de divulgação
do Banco do Nordeste do Brasil - Pedro Reis / Farol Comunitário
- Reprodução Proibida
FORTALEZA,
28.09.2008 – Co-autor de clássicos da MPB como
“Carcará”, “Pisa na fulô”,
“Na asa do vento”, “O canto da ema”
e “Coroné Antônio Bento”, o cantor
e compositor maranhense João do Vale (Pedreiras,
MA, 11/10/1933 – São Luís, MA, 06/12/1996)
teve sua vida e obra esquadrinhada pelo escritor carioca
Marcio Paschoal, no livro “Pisa na fulô mas
não maltrata o carcará – Vida e obra
do compositor João do Vale, o Poeta do Povo”.
Nesta terça-feira, 30, às 19 horas, o autor
apresentará o livro e será figura central
de debate sobre a história de vida e trajetória
artística de João do Vale, dentro do programa
Literato, a realizar-se no cineteatro do Centro Cultural
Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 –
2º andar – Centro – fone: (85) 3464.3108).
Participam da conversa com Marcio Paschoal o jornalista,
radialista e pesquisador musical Nelson Augusto, o jornalista,
compositor e crítico musical Dalwton Moura e o público
presente ao Centro Cultural, que poderá formular
perguntas por escrito.
O livro é uma importante obra de referência,
com 295 páginas contendo mais de 40 fotos, cópias
de contratos de edição e de partituras originais,
discografia, musicografia – são mais de duzentas
canções – e depoimentos de quase uma
centena de artistas que conviveram com João do Vale,
entre eles Edu Lobo, Fagner, Chico Buarque, Bibi Ferreira,
Zeca Baleiro, Chico Anysio, Ivan Lins, Ferreira Gullar,
Jaguar, Zé Kéti e Nara Leão.
João do Vale, vida e obra
JOÃO Batista DO VALE foi o quinto de oito irmãos,
dos quais apenas três sobreviveram à infância
pobre. Os pais eram agricultores pobres e sem terra. Por
volta dos seis anos de idade, foi apelidado de "Pé
de xote", pois vivia pulando e dançando. Um
de seus avós fora trazido de Angola como escravo
e posteriormente fugiu. Chegou a perder a vaga no Grupo
Escolar Oscar Galvão para dar lugar ao filho de um
coletor de impostos. Auxiliava nas despesas da casa, vendendo
balas, doces e bolos que a mãe fazia.
Com 12 anos, mudou-se com a família para São
Luís, onde trabalhou vendendo laranjas nas ruas.
Nesse período participou do Noite Linda, um grupo
de bumba-meu-boi, como fazedor de versos, o chamado "amo".
De 14 para 15 anos fugiu de casa, indo de trem para Teresina,
onde conseguiu emprego como ajudante de caminhão.
Fazia viagens entre Fortaleza e Teresina. Um dia viajou
até Salvador e resolveu ficar por lá, por
estar mais perto do Rio de Janeiro, para onde tencionava
ir.
Mais tarde foi para Minas Gerais, onde trabalhou como garimpeiro
na cidade de Teófilo Otoni, onde obteve dinheiro
para a sonhada viagem à então capital da República.
Foi para o Rio de Janeiro de carona em caminhão e
arranjou emprego de pedreiro em Copacabana, numa obra na
Rua Barão de Ipanema. Trabalhava e dormia na obra,
visitando periodicamente as rádios, principalmente
a Nacional, à procura de artistas que gravassem suas
composições. Mostrava suas músicas
a muitos artistas, inclusive à cantora Marlene e
a Tom Jobim, que naquela época tocava piano num inferninho
em Copacabana.
Em 1953, teve a primeira composição gravada,
por Zé Gonzaga: o baião "Madalena",
que fez muito sucesso no Nordeste. Por essa época,
conheceu Luiz Vieira na Rádio Tupi, que gostou de
seus versos e o ajudou a desenvolver suas músicas,
tendo convencido ainda a cantora Marlene a gravar o baião
"Estrela miúda", parceria de João
do Vale e Luiz Vieira. Como o dinheiro recebido pelas primeiras
gravações chegava a 200 mil-réis contra
os cinco mil-réis que ganhava como pedreiro, abandonou
a construção civil e resolveu dedicar-se à
carreira artística.
Surgiram outras gravações de composições
suas. Em 1954, participou como figurante do filme "Mão
sangrenta", dirigido por Carlos Hugo Christensen. Nessa
época fez amizade com o diretor Roberto Farias, para
o qual faria posteriormente trilha sonora de alguns filmes,
entre os quais "Mundo da lua", de 1958. Em 1955,
Luiz Vieira gravou o baião "O lenço da
moça", parceria dos dois. No ano seguinte, o
mesmo Luiz Vieira gravou o baião "Forró
do Furtuoso", também de parceria dos dois.
Em 1956, Dolores Duran gravou "Na asa do vento",
parceria com Luiz Vieira, que seria regravada por Caetano
Veloso em 1975 no LP "Jóia". Em 1957, Marlene
gravou de sua parceria com Luiz Vieira o samba "Minha
candeia". No mesmo ano, Ivon Curi gravou "Pisa
na fulô", xote de parceria com Silveira Júnior
e Ernesto Pires, que foi um dos discos mais vendidos na
época. A mesma composição seria ainda
gravada por Marinês e sua Gente e por Zé Gonzaga
e seu Conjunto.
Nesse período fez parceria não-oficial com
Luiz Gonzaga, pois pertenciam a editoras diferentes, e assim
as composições da dupla – "Sertanejo
do Norte", "De Teresina a São Luís",
"Pra onde tu vai, baião?" e "Fogo
no Paraná", entre outras – apareceram
como sendo parceria com Helena Gonzaga, esposa de Luiz Gonzaga.
No início dos anos 1960, a convite do compositor
e sambista Zé Kéti, foi se apresentar no bar
Zicartola, na Rua da Carioca, comandado pelo compositor
da Mangueira, Cartola, e sua mulher, Dona Zica, onde se
reuniam compositores, que cantavam e apresentavam suas músicas.
A convite de Sérgio Cabral, passou a se apresentar
no Zicartola toda sexta-feira. Por essa época começou
a surgir a idéia de fazer o show "Opinião".
Recebeu convite de Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, para
fazer a parte nordestina, com Zé Kéti comandando
a parte de samba. A estréia do show aconteceu em
4 de dezembro de 1964, primeiramente com ele, Zé
Keti e Nara Leão, e posteriormente com Maria Bethânia,
que eletrizou as platéias, interpretando "Carcará",
maior sucesso da carreira de sua carreira e verdadeiro hino
contra a ditadura militar da época. O show foi apresentado
ao longo de 1965 e 1966.
Em 1965 gravou o baião "Minha história",
uma autobiografia. No mesmo ano lançou o LP "O
poeta do povo", trazendo inúmeras composições
já conhecidas e lançando outras como "Pra
mim não", com Marília Bernardes, "O
jangadeiro", com Dulce Nunes, "O bom filho à
casa torna", com Eraldo Monteiro e “Fogo no Paraná",
com Luiz Gonzaga. Em 1966, estrelou ao lado de Nelson Cavaquinho
e Moreira da Silva o show "A voz do povo". Em
1969, fez a trilha sonora do filme "Meu nome é
Lampião", direção de Mizael Silveira.
Ainda nos anos 1960 foi aos Estados Unidos a convite do
professor Earl W. Thomaz, para falar a professores de Português
a respeito das expressões sertanejas que usava em
suas músicas.
Em 1970, Tim Maia gravou e fez bastante sucesso com "Coroné
Antônio Bento", parceria com Luiz Vanderley.
Em 1973, lançou com Paulinho Guimarães "Se
eu tivesse o meu mundo". Em 1974 Gilberto Gil gravou
no LP "Expresso 2222" a música "O
canto da ema", numa interpretação marcante.
Em 1975, João do Vale participou de nova montagem
do show "Opinião", com Zé Kéti
e Marília Medalha, com direção de Bibi
Ferreira. Em 1976 apresentou o show "E agora João?".
Em 1978 passou a apresentar o "Forró forrado",
que por dez anos marcou época na música popular
brasileira. Entre 1979 e 1980, chegou a percorrer 40 cidades,
realizando shows ao lado de Zé Ramalho. Ainda em
1980 participou ao lado de Chico Buarque e outros artistas,
do Projeto Calunga, que realizou inúmeras apresentacões
em Angola. Em 1981, Chico Buarque organizou o disco "João
do Vale convida", com a participação
de Nara Leão, Tom Jobim, Gonzaguinha e Zé
Ramalho, entre outros, cujo lançamento ocorreu no
Forró Forrado. No mesmo ano participou de excursão
à Cuba. Em 1982, gravou disco ao lado de Chico Buarque.
Em 1985 participou com Carlinhos Vergueiro do show inaugural
do Projeto Pixinguinha, Seis e Meia, na Sala Adoniran Barbosa,
em São Paulo. Em 1986 participou ao lado de Maria
Bethânia, Zé Kéti, Suzana de Moraes
e Marília Medalha no Teatro Carlos Gomes do espetáculo
de rememoração da montagem do show "Opinião".
Em 1991 gravou depoimento para o Museu da Imagem e do Som.
Em 1992 foi homenageado com um show no Teatro da Praia Grande,
em São Luís (MA).
Em 1994, Chico Buarque voltou a produzir disco de João
do Vale, intitulado "João Batista do Vale",
que recebeu no ano seguinte o Prêmio Sharp de Melhor
Disco Regional. O disco contou com a participação
de diversos artistas interpretando músicas de sua
autoria, entre os quais o próprio Chico Buarque,
que interpretou "Minha história";Fagner,
"Na asa do vento"; Alceu Valença, "De
Teresina a São Luís"; e Paulinho da Viola,
"A voz do povo". No mesmo ano foi homenageado
pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro com a medalha
Pedro Ernesto. Em 2000, Marcio Paschoal lançou pela
Editora Lumiar o livro "Pisa na fulô, mas não
maltrata o carcará", uma biografia do artista.
Em 2006, por ocasião do décimo aniversário
de sua morte, o compositor foi homenageado com o musical
"João do Vale, o poeta do povo", apresentado
em temporada no teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro,
com texto e direção de Maria Helena Kuhner.
O espetáculo mostrou enredo baseado na biografia
do compositor escrita por Marcio Paschoal e contou com os
atores Deucledes Gouvêa, Rubens de Araújo e
Marcê Porena.
Após a temporada no Glauce Rocha, o espetáculo
rumou para o Teatro Sesi, de Nova Iguaçu (RJ), cidade
em que morou o compositor. Em seguida, teve duas apresentações
especiais, em dias seguidos, no Teatro Baden Powell, em
Copacabana, no Rio de Janeiro, com casa lotada.
Sobre o autor do livro
Marcio Paschoal é carioca, economista, escritor,
letrista, crítico e pesquisador musical. Estreou
na literatura em 1995, com o ensaio de humor “Cada
louco com a sua mania” (2ª edição
/ Editora Record – ilustrações de Jaguar).
Em 1996, publicou o romance “Sofá branco”
(Editora Record – menção honrosa Prêmio
Graciliano Ramos e seleção Prêmio Nestlé
de Literatura/1997). Presta assessoria em redação
para a Fundação Getúlio Vargas, é
colaborador do Jornal do Brasil (em música e literatura)
e ministra cursos de humor na literatura.
Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música
Popular Brasileira (www.dicionariompb.com.br).