Amazônia
antiga e urbana
29/8/2008
Cientistas identificam
áreas que antes do Descobrimento reuniam comunidades
com mais de 5 mil habitantes e que contavam com vilas muradas,
tanques para cultivo de peixe e estradas (divulgação)
Agência FAPESP
– Não são exatamente as cidades perdidas
que há tempos cientistas e exploradores tentam encontrar
na Amazônia, mas a descoberta impressiona. São
antigos assentamentos, hoje quase totalmente escondidos
pela floresta, que constituíram há séculos
estruturas grandes e complexas o bastante para serem chamadas
de urbanas.
Segundo estudo publicado
na edição desta sexta-feira (29/8) da revista
Science, antes da chegada dos colonizadores europeus a bacia
do rio Amazonas era um local bem diferente, com comunidades
que reuniam mais de 5 mil indivíduos.
Em torno dos assentamentos
foram encontrados sinais de represas e lagos artificiais
que indicam que os habitantes criavam peixes próximo
às suas moradias. Também foram identificadas
remanescentes de áreas cultivadas.
A pesquisa foi feita
por pesquisadores brasileiros e norte-americanos. Um dos
autores é Afukaka Kuikuro, da Associação
Indígena Kuikuro do Alto Xingu e descendente dos
habitantes originais dos assentamentos.
“Se analisarmos
as vilas medievais médias ou as pólis gregas,
veremos que a maioria tinha uma escala semelhante à
que era encontrada na Floresta Amazônica”, disse
Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida,
um dos autores do estudo.
O trabalho também
aponta que o tamanho e a escala dos assentamentos no sul
da Amazônia implicam que áreas que muitos cientistas
consideravam como florestas tropicais virgens foram, na
realidade, grandemente influenciadas pela atividade humana.
A pesquisa aponta que
os assentamentos eram formados por redes de vilas muradas
maiores (de cerca de 600 km²) e vilarejos, cada uma
organizada em torno de uma praça central onde eram
conduzidos rituais.
Tais estruturas urbanas
pré-descobrimento, afirmam, podem auxiliar no desenvolvimento
de soluções futuras para a população
indígena em outras regiões da Amazônia
e no Mato Grosso. “Algumas das práticas que
esses antigos habitantes utilizavam podem ajudar a desenvolver
formas de implantar soluções de desenvolvimento
sustentável”, disse Heckenberger.
Os assentamentos agora
analisados, cuja descoberta foi anunciada em outro artigo
publicado na Science em 2003, foram formados entre 1250
e 1650, tendo desaparecido ao entrar em contato com doenças
trazidas pelos colonizadores europeus.
Apesar de quase totalmente
extintas, as antigas comunidades guardam características
transmitidas oralmente pelos Kuikuro. Os pesquisadores levaram
mais de uma década para identificar e mapear as comunidades
antigas com o auxílio dos Kuikuro e de satélites
e GPS.
As antigas comunidades
não tinham os tamanhos das maiores vilas medievais
européias, mas os cientistas verificaram que elas
contavam com grandes muros, construídos a partir
de trabalhos feitos na terra que permanecem.
Os assentamentos tinham
também uma estrada principal semelhante, sempre orientada
do nordeste ao sudoeste de modo a seguir o solstício
de verão e conectada à praça central.
“Não são cidades, mas se trata de urbanismo,
construído em torno de vilas”, disse Heckenberger.
A pesquisa destaca que
parte da Amazônia virgem não é tão
virgem assim, uma vez que conta com uma história
de atividade humana. “Isso derruba modelos que sugerem
que estamos olhando para uma biodiversidade original”,
disse Heckenberger.
Participaram do estudo
pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e do
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O artigo Pre-Columbian
urbanism, anthropogenic landscapes, and the future of the
Amazon, de Michael Heckenberger, Afukaka Kuikuro e outros,
pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.