Esclarecimento
do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, sobre a redução
do teor de enxofre no diesel
1. O Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) aprovou,
em 2002, uma resolução determinando que em
2009 os novos veículos a diesel (ônibus e caminhões)
deveriam ter emissão equivalente à gerada
por motores tipo Euro 4 e diesel S-50 (com 50 ppm - partes
por milhão de enxofre).
2. A ANP (Agência Nacional do Petróleo) atrasou
em quatro anos a especificação necessária
do S-50; a Anfavea (fabricantes de veículos) sequer
começou a testar e preparar o euro 4 alegando o atraso
da ANP; a Petrobras investiu 4 bilhões de dólares
em 12 refinarias para dessulfurizar (retirar o enxofre)
o diesel, mas está atrasada e só produzirá
a quantidade necessária do S-50 em 2010; o governo
federal e o Conama, neste período, não tomaram
as medidas enérgicas necessárias para evitar
o descumprimento da resolução.
3. Ainda no 1º mês de nossa gestão, reunimos
todas as partes, cinco ministérios, ANP, Anfavea,
Petrobras, Sindicom (Sindicato de Distribuidoras de Combustível),
governos do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo
e Ministério Público Federal. Todos reconheceram
que foi a 1ª vez, em cinco anos, que o governo federal
tomou a iniciativa de reunir todas as partes para avaliar
e encaminhar a questão. Realizamos três reuniões,
incluindo sociedade civil e os secretários estaduais
de Meio Ambiente do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e do
Município de São Paulo e o MP. Encomendamos
a uma fundação independente uma metodologia
de cálculo para avaliar, por ano e por poluente,
as conseqüências para a saúde da população
que seriam geradas pelo atraso do cumprimento da resolução
315.
4. Sofremos fortes pressões das áreas econômicas
e governamentais envolvidas para adiar, alterar ou criar
exceções técnicas para a resolução
315/02. Um dos argumentos era que a resolução
dava 36 meses à Anfavea para disponibilizar os motores
a partir da especificação da ANP, que atrasou
quatro anos. Não aceitamos as pressões e os
argumentos e decidimos manter a resolução
e exigir o seu cumprimento. Anunciamos que nenhum caminhão
ou ônibus novo a diesel sairia das fábricas
em 2009 sem atender a resolução ou obter acordo
judicial com o MP Federal.
5. Além disso, decidimos criar uma nova etapa do
Proconve (Programa de Controle de Poluição
do Ar por Veículos Automotores), instituindo um padrão
para 2012 equivalente ao Euro 5 e ao S-10 , cinco vezes
menos poluidor do que o S-50. Argumentamos que o atraso
intolerável não poderia justificar um recuo
e sim um salto adiante, para nos igualar com o padrão
europeu vigente, já que os nossos pulmões
são idênticos. Apresentamos essa resolução
ao Conama, que a aprovou, por unanimidade, em 30 de outubro
último, incorporando emendas dos ambientalistas,
do MP Federal e do setor produtivo. Foi uma vitória
importante, pois sequer havia previsão para essa
nova etapa.
6. Estamos elaborando um Plano Nacional de Qualidade do
Ar, com medidas muito além do diesel, envolvendo
vistoria veicular obrigatória das emissões,
como a que existe há nove anos no Estado do Rio de
Janeiro, por conta de uma lei estadual de nossa autoria.
Até agora, o Rio é o único estado com
esse procedimento, que comprovadamente reduz as emissões.
Um veículo desregulado emite até 50% a mais
de poluentes. O plano incluirá ainda padrões
mais rigorosos para emissões industriais, campanhas
nacionais para regulagem de motores, aumento da participação
do biodiesel (no diesel), integração de transportes
e incremento do transporte sobre trilhos.
7. Todos saudaram estas três medidas: manter a resolução
315, criar a nova etapa com o S-10 e iniciar o Plano de
Qualidade do Ar. O secretário de Meio Ambiente do
Estado de São Paulo Xico Graziano, e o secretário
municipal de Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo
Jorge, escreveram matérias nos jornais apoiando essas
três decisões do MMA.
8. Quanto ao período referente a 2009 e 2011, a decisão
ficou exclusivamente por conta do MP Federal de São
Paulo. A procuradora da República Ana Cristina Bandeira
Lins ouviu durante dois meses as partes responsáveis,
criou um núcleo técnico de alto nível
com profissionais da Cetesb, do Ibama, de fundações,
e realizou mais de 20 reuniões de avaliação
técnica das emissões e das medidas compensatórias
apresentadas pela Petrobras e pela Anafavea, incluindo a
importação de milhões de litros de
diesel S-50, a regulagem de dezenas de milhares de ônibus
e caminhões e a própria antecipação
da fase do S-10, sendo que apenas esta medida representará
para a Petrobras um gasto suplementar de 2 bilhões
de dólares.
9. A Anfavea sequer havia iniciado a produção
de novos motores. Quando assumimos o MMA, há cinco
meses, todos já sabiam que a resolução
era impossível de se cumprir, devido às omissões
de vários anos. O que se avizinhava, portanto, era
um desastre ambiental, institucional e social. O Conama
seria desrespeitado, o ambiente agredido por emissões
sem qualquer compensação e, face à
decisão firme do MMA, a não assinatura do
TAC implicaria na não-produção de 200
mil novos ônibus e caminhões a diesel, no fechamento
de oito fábricas e na demissão de 10 mil trabalhadores.
10. O TAC patrocinado pelo MP Federal de São Paulo
foi assinado pela Cetesb e pelo governo de São Paulo,
que foram (também) os autores da ação
civil pública que colocou essa questão na
Justiça Federal. Eles exigiram uma série de
condições suplementares, laboratórios
de última geração de análise
e controle do diesel, inexistentes no país, e a ampliação
das regulagens de outros milhares de ônibus e caminhões
pela Petrobras e Anfavea. Como seus técnicos acompanharam
todas as rodadas e os cálculos, supõe-se que
ficaram convencidos de que as medidas - incluindo o fornecimento
de S-50 já em 2009 às regiões metropolitanas
do país e às frotas cativas de ônibus
- compensavam as emissões resultantes do descumprimento
da resolução 315, caso contrário não
teriam assinado o TAC. O Ibama exigiu também um cronograma
para a substituição definitiva do S-2000 e
do S-1800 no interior, assim como prazos definidos para
a substituição do S-500 em todas as regiões
metropolitanas.
11. Claro que não comemoramos. O ideal era a resolução
ter sido cumprida, o que foi inviabilizado em cinco anos.
Do ponto em que enfrentamos o problema, há cinco
meses, as decisões sob nossa responsabilidade foram
todas transparentes e elogiadas. Não cedemos à
postergação da resolução, avançamos
com o S-10 e iniciamos o Plano de Qualidade do Ar. A decisão
da Procuradoria da República de São Paulo
é de sua inteira responsabilidade e das partes que
a assinaram. Há os que apostaram no impasse, inclusive
por motivação política, e levantaram
alternativas fantasiosas, como a imediata importação
de todo o diesel hoje consumido, fechando várias
refinarias, e a importação de 200 mil ônibus
e caminhões. O MP Federal, os governos do Rio, Minas
e São Paulo, a Anfavea, o governo federal e a Petrobras
não aceitaram essa possibilidade, o que conduziria
à não assinatura do TAC e à colocação
do assunto na Justiça, sabe-se lá por quantos
anos.
12. Avaliamos que, dentro da adversidade, obtivemos o melhor
resultado entre os possíveis, já que o integral
cumprimento da resolução já havia sido
anteriormente inviabilizado. Vamos agora avançar
para fiscalizar e cumprir o TAC , idem para a nova resolução
e a vistoria obrigatória nos estados. Além
do que, ampliar a participação do etanol e
do biodiesel na matriz energética, num crescimento
médio de 11% ao ano. Em defesa do clima e dos pulmões.
CARLOS MINC
Ministro do Meio Ambiente
Brasília, 3 de novembro de 2008
Daniela Mendes
Assessoria de Comunicação
Ministério do Meio Ambiente