MPF vai investigar
mineração de urânio em Caetité
Procuradores
recomendam ainda que o Ibama não dê licença
de ampliação da atividade, prevista pela INB,
enquanto não forem cumpridas todas as condicionantes
estabelecidas após audiência pública
realizada sexta-feira.
Caetité, 9 de novembro
de 2008 - Após quase cinco horas de audiência
pública realizada em Caetité (BA), na sexta-feira
(7/11), para discutir a mineração de urânio
na cidade pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil
(INB), o Ministério Público Federal (MPF)
da Bahia decidiu investigar os impactos sociais e ambientais
das atividades da empresa por meio de uma auditoria independente,
que deverá ser paga pela própria INB. A empresa
tem prazo de 15 dias para depositar o valor correspondente
em conta judicial. Caso descumpra a ordem, o MPF iniciará
Ação Civil Pública contra a empresa.
O MPF recomendou ainda que o
Ibama não libere a Licença de Ampliação
de Operação da Unidade de Concentração
de Urânio no local enquanto não forem atendidas
as condicionantes em aberto da atividade atual e que a auditoria
seja concluída, além de exigir novo EIA/Rima
e nova licença ambiental para a duplicação
da capacidade da mina de urânio de 400 para 800 toneladas
por ano. Essa duplicação é fundamental
para atender a demanda de combustível da usina nuclear
Angra 3. Outra medida importante adotada pelo Ministério
Público é a inclusão das propostas
da Secretaria Estadual de Saúde da Bahia no estudo
epidemiológico a ser realizado pela Fiotec/Fiocruz
em atendimento à licença ambiental da INB.
Entre as mais de mil pessoas
que participaram da audiência em Caetité, estiveram
presentes os procuradores da República Flávia
Galvão Arruti, da Procuradoria da República
em Guanambi, e Ramiro Rockenback, do ofício de meio
ambiente do MPF/BA; o deputado federal Edson Duarte (PV-BA),
relator do Grupo de Trabalho Fiscalização
e Segurança Nuclear da Câmara dos Deputados;
Laércio Vinhas, superintendente do Ibama-BA; Wanderley
Rosa Matos, diretor de Monitoramento e Informação
do Instituto de Gestão das Águas e Clima (Inga)
do governo da Bahia; Rebeca Lerer, coordenadora da campanha
de Energia Nuclear do Greenpeace; representantes da INB
e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN);
e representantes da comunidade, da política e igreja
locais.
"Estamos satisfeitos com
as medidas adotadas pelo MPF. Apenas uma auditoria independente,
com especialistas não vinculados à CNEN poderá
esclarecer os reais impactos ambientais e sociais da extração
e beneficiamento de urânio pela INB em Caetité",
afirmou Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia
do Greenpeace que participou da audiência pública
em Caetité. "A maior parte dos depoimentos populares
confirmou as denúncias do relatório Ciclo
do Perigo: Impactos da produção de combustível
nuclear no Brasil, lançado pelo Greenpeace em 16
de outubro, que motivou a realização dessa
audiência. A população de Caetité
quer e merece respostas sobre todas as denúncias
e problemas que vêm sendo relatados há mais
de 8 anos."
Para Rebeca, a auditoria exigida
pelo MPF será um primeiro passo para o maior controle
social das instalações atômicas do país.
"Esperamos agora que o Ministério
de Ciência e Tecnologia, responsável pela CNEN
e pela INB, obedeça a justiça e colabore com
a realização da auditoria para que o processo
ocorra da maneira mais ágil possível".
No último dia 4 de novembro,
o Instituto de Gestão das Águas e Clima (Inga),
da secretaria de Meio Ambiente da Bahia, divulgou o resultado
das análises que realizou em amostras de água
da região de Caetité e também constatou
contaminação da água por urânio.
A amostra coletada em um dos sete poços analisados
apresentou contaminação em limite acima do
permitido pela resolução do Conselho Nacional
de Meio Ambiente (Conama) 357/05. O poço está
localizado na mesma propriedade em que o Greenpeace coletou
amostras de água que também apontaram contaminação
por urânio.
O governo da Bahia interditou
o poço e vai fornecer água para as cerca de
20 pessoas. As famílias terão assistência
por parte da Secretaria de Saúde do município
e do Estado da Bahia. As comunidades de Juazeiro, no entanto,
ainda não receberam fornecimento de água potável.
"Apelamos ao poder público
municipal e estadual para que garantam a saúde destas
pessoas e forneçam água potável enquanto
esta situação é investigada",
disse Rebeca Lerer, que considerou a audiência pública
um momento histórico.