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Especialistas
indicam que desafios das metrópoles frente às
mudanças climáticas exigem academia multidisciplinar
e governos mais sensíveis à urgência
do tema, além de mudança cultural na sociedade |
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Transformações
necessárias
quarta-feira, 22 julho, 2009 14:28
Por Fábio
de Castro
Agência FAPESP
– Enfrentar os impactos das mudanças climáticas,
com medidas de adaptação e mitigação
das emissões de gases de efeito estufa, exigirá
esforços em todos os setores: a academia precisará
de um enfoque mais multidisciplinar, o governo deverá
se sensibilizar para a urgência do tema e a sociedade
terá que compreender a necessidade de uma profunda
mudança cultural.
Esses desafios foram
debatidos nesta terça-feira (21/7) por cientistas
e formuladores de políticas públicas no Painel
Internacional de Especialistas em Megacidades, Vulnerabilidade
e Mudança Climática Global, na sede da FAPESP,
em São Paulo.
O evento, liderado pelo
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem o objetivo
de traçar um mapa das vulnerabilidades das regiões
metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro frente
aos efeitos do aquecimento global, com o objetivo de subsidiar
políticas públicas de adaptação
às mudanças climáticas.
Segundo o coordenador
do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas
Globais, Fábio Feldman, a criação dos
fóruns estaduais, em 2005, foi um avanço que
permitiu aos estados uma maior articulação
com as políticas municipais e federais. Ainda assim,
prevalecem as dificuldades históricas na implantação
de políticas nacionais relacionadas ao clima.
“Há dificuldades
dos governantes para compreender que o clima é um
tema para hoje, não para daqui a 20 anos. No Ministério
da Ciência e Tecnologia, por exemplo, a estrutura
para trabalhar nesse tema é muito pequena, mantendo
o mesmo número de pessoas há mais de 15 anos”,
disse.
Segundo ele, as principais
propostas dos fóruns têm foco na elaboração
de marcos regulatórios relacionados às mudanças
climáticas em todos os níveis de governo.
“Em São Paulo elaboramos uma política
para criar um processo – ou seja, incluir na agenda
governamental a obrigatoriedade de inventários e
mapas de vulnerabilidades. Acreditamos que isso vá
mobilizar a sociedade brasileira para um avanço concreto”,
explicou.
Feldman declarou que
há grandes dificuldades políticas para o estabelecimento
de metas de emissões de gases de efeito estufa. “O
problema é que as metas são entendidas como
punição e não como oportunidade de
inovação tecnológica”, afirmou.
Outra dificuldade importante
no Brasil, segundo Feldman, é articular as políticas
públicas de clima com políticas setoriais
como as de transportes e saúde. Um exemplo disso,
segundo ele, é a redução dramática
do imposto sobre produtos industrializados (IPI) concedida
pelo governo brasileiro, por causa da crise financeira.
“Com essa redução
do IPI teremos uma imensa frota renovada de caminhões.
Mas perdemos a oportunidade de articular essa iniciativa
com as políticas climáticas, já que
essa renovação será feita com uma tecnologia
atrasada do ponto de vista do padrão de emissões.
O padrão do diesel comercializado no Brasil é
muito ruim, comparável apenas a alguns países
da África”, declarou.
Segundo Feldman, a legislação
não conseguirá, por si só, implantar
as políticas de adaptação e mitigação.
“Os dois avanços em políticas ambientais
mais importantes que surgiram nos últimos anos foram
o indicador de sustentabilidade ambiental da Bovespa e a
decisão das redes de supermercados de só comprar
carne com rastreabilidade, para evitar os produtos que devastem
a Amazônia. Esses dois avanços não envolveram
legislação”, disse.
Mudança
cultural
O presidente da Companhia
de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Fernando
Rei, afirmou que propor medidas de adaptação
e mitigação implica uma mudança cultural
que, muitas vezes, é rechaçada pela sociedade.
“Muita gente acha
que vai haver alguma revolução tecnológica
que nos permitirá manter os atuais níveis
de consumo. Há uma grande dificuldade da academia
e dos órgãos ambientais para se confrontar
com esse tipo de contrapropaganda”, disse Rei.
Para Rei, a resistência
à mudança de hábitos por parte dos
cidadãos indica que há uma tendência
de transferir as responsabilidades ao poder público.
“Embora a Constituição Cidadã
já tenha completado 21 anos, seguimos construindo
um projeto de nação no qual o cidadão
tem muito poucos deveres. A Carta Magna, no entanto, destaca
o compromisso da coletividade e do poder público
na preservação da qualidade ambiental”,
declarou.
Segundo Rei, é
preciso também que a academia trate o problema do
clima de forma mais multidisciplinar. “Nosso processo
de ensino encaminha os alunos para um universo de certezas.
Não geramos na academia alunos que trabalhem com
dúvidas. A burocracia acadêmica dificulta a
construção de um olhar científico multidisciplinar.
No entanto, o tema da mudança climática é
essencialmente multidisciplinar e, por isso, será
preciso repensar a forma de se produzir conhecimento”,
disse.
Rei afirmou que, em
sua avaliação, as principais vulnerabilidades
na Região Metropolitana de São Paulo dizem
respeito à questão da saúde –
com novos vetores de epidemias e qualidade da saúde
pública – e ocupações em áreas
sensíveis, especialmente em torno de mananciais.
“Para combater
a ameaça que essas vulnerabilidades representam com
a possível ocorrência de eventos extremos,
será preciso discutir as políticas públicas.
Mas temos perdido a oportunidade de fazer isso porque o
mercado e a sociedade estão ainda muito ausentes
do debate. Essa não pode ser uma discussão
exclusiva da academia e do poder público”,
declarou.
Agência
Fapesp