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Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia reúne
instituições de cinco estados para desenvolver
meios de controle de pragas que sejam eficientes e possam
substituir substâncias sintéticas |
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Pragas
controladas sem impacto ambiental
terça-feira,
24 agosto, 2010 12:37
Fabio Reynol
| Agência FAPESP
A aplicação
de inseticidas pode resolver a incidência de doenças
em uma determinada lavoura, mas traz uma série de
efeitos colaterais indesejáveis. Eliminar o inseto
transmissor pode afetar a reprodução de outras
espécies vegetais que dependem dele para a polinização.
Além disso, resquícios dos químicos
empregados aderem à planta e podem contaminar a alimentação
humana, bem como rios e outros corpos d'água.
A preocupação com
essas questões fez surgir o conceito de controle
biorracional de pragas, uma maneira de controlar o desenvolvimento
de insetos sem exterminá-los com o uso de produtos
naturais e seus derivados, procurando minimizar os impactos
ambientais.
No Brasil, oito unidades de pesquisa
de cinco estados se uniram para formar o Instituto Nacional
de Ciência e Tecnologia (INCT) de Controle Biorracional
de Insetos Pragas, com a proposta de desenvolver soluções
de diversos problemas que atingem as plantações
brasileiras.
A Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar), a Universidade Estadual de São Paulo
(Unesp), campus de Rio Claro, e a Universidade de São
Paulo (USP), com seus campi de Ribeirão Preto e da
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba,
são as quatro unidades paulistas que integram o instituto
e recebem apoio da FAPESP e do Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT) por meio da modalidade Temático-INCT.
O INCT também é
integrado pelas universidades federais do Paraná
e de Sergipe e por duas unidades da Comissão Executiva
do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac): a Estação
Experimental Sósthenes de Miranda, em São
Sebastião do Passé (BA), e a Superintendência
da Amazônia Oriental, em Belém (PA).
Uma das vantagens de utilizar
compostos naturais no controle de pragas é retirar
substâncias tóxicas dos processos ecológicos.
“A probabilidade de uma substância natural apresentar
toxicidade a um inseto é pequena. Ela pode inibir
o desenvolvimento de um determinado inseto, por exemplo,
e isso poupa de produtos tóxicos o animal, o meio
ambiente e o próprio ser humano, que consumirá
alimentos vindos daquela planta”, disse a coordenadora
do INCT, Maria de Fátima das Graças Fernandes
da Silva, professora do Departamento de Química da
UFSCar, à Agência FAPESP.
Por serem mais familiares ao
organismo, as substâncias naturais são metabolizadas
mais facilmente, enquanto os produtos sintéticos
podem acabar se acumulando. Isso ocorre porque os produtos
de origem natural fazem parte de um processo de coevolução
entre a planta e o inseto. No caso da aplicação
de um inseticida sintético, a probabilidade dessa
interação é bem menor.
As fontes de substâncias
naturais não são somente as plantas, mas também
fungos e bactérias, e o trabalho de pesquisa também
envolve os mecanismos de interação entre insetos
e plantas. “É preciso entender por que o inseto
vai até a planta, por que ele carrega a bactéria
e por que essa bactéria se desenvolve bem no vegetal,
provocando doença”, disse Maria de Fátima.
Uma abordagem como essa
foi feita para entender a propagação da Xylella
fastidiosa, bactéria causadora da clorose
variegada de citros, popularmente conhecida como praga do
amarelinho, e cujo vetor são pequenas cigarras da
família Cicadellidae.
“Ao entender a interação
química entre bactéria e planta, podemos desenvolver
um metabólito que iniba a proliferação
do patógeno no vegetal ou ainda buscar uma substância
que controle a proliferação do inseto vetor”,
explicou Maria de Fátima.
O controle dos insetos é
ambientalmente mais interessante do que a sua eliminação
completa, de acordo com a pesquisadora, pois ele pode ser
o vetor de uma doença para uma determinada planta
e ao mesmo tempo o polinizador de outra. Portanto, eliminá-lo
resultaria em perdas ambientais maiores na região
em que o inseto desaparecesse.
Formigas famintas
Outro
braço dessa pesquisa investiga a formiga-cortadeira
(Atta sexdens rubropilosa), considerada praga de vários
tipos de plantas. Para abordar o problema, a equipe da Unesp
de Rio Claro estuda o comportamento social desses insetos
e o grupo da UFSCar analisa os processos químicos
envolvidos.
Uma das abordagens envolve um
ataque indireto. Em vez de atingir as próprias formigas,
uma substância desenvolvida no projeto elimina os
fungos das quais elas se alimentam.
As formigas cortam as folhas
das plantas e as levam para um compartimento do formigueiro.
Nele, as folhas alimentam uma colônia de fungos que,
por sua vez, alimenta toda a comunidade de insetos.
O produto desenvolvido na pesquisa
pode ser aplicado sobre a planta ou sobre o solo e é
absorvido pelo vegetal e se mistura à seiva, espalhando-se
por toda a sua estrutura. O produto que fica nas folhas
é recolhido pela formiga e, uma vez no formigueiro,
inibe a proliferação do fungo.
Sem alimento suficiente, a colônia
de insetos abandona a área deixando aquela plantação.
“Eliminar completamente a formiga não seria
interessante, pois elas realizam funções importantes
como a aeração do solo”, explicou Maria
de Fátima.
A pesquisadora conta que foram
desenvolvidos no âmbito do INCT dois produtos para
combater a Xylella fastidiosa e um para o controle da formiga-cortadeira,
que já despertaram o interesse de duas empresas.
Os produtos deverão ser patenteados e comercializados.
Algumas dessas sustâncias
são envolvidas em cápsulas de escala nanométrica.
Esse encapsulamento imprime uma estabilidade muito maior
ao princípio ativo, que dura mais e tem sua eficácia
aumentada. Isso permite que ele seja aplicado em uma quantidade
menor, gerando economia ao produtor agrícola.
Resistência
dos produtores
O INCT de Controle
Biorracional de Insetos Pragas também está
colaborando com a eliminação de uma doença
que atinge o mogno africano (Khaya ivorensis). Essa espécie
fornecedora de madeira foi importada com o intuito de substituir
o mogno brasileiro (Swietenia macrophylla), alvo da lagarta
da mariposa Hypsipyla grandela.
Entretanto, embora resistente
à mariposa, o mogno africano começou a ser
alvo de um fungo que atinge o seu tronco e o deforma, inutilizando
a parte comercialmente mais valiosa da planta. O trabalho
conjunto com a Ceplac do Pará objetiva encontrar
uma solução para o problema.
A pesquisa foca ainda em diversos
tipos de lagartas que atacam lavouras. Estão em testes
substâncias naturais que inibem o desenvolvimento
de suas larvas ou que produzam insetos incapazes de atingir
uma plantação.
Embora ambientalmente mais saudável,
o controle biorracional de pragas enfrenta um grande obstáculo
para sua aplicação: a resistência dos
produtores rurais.
“Esse é o maior
obstáculo, não apenas no Brasil, mas em diversos
outros países. Muitos produtores consideram mais
fácil a aplicação de inseticidas e
a eliminação completa do inseto causador do
problema, ainda que ele seja importante para outras plantas
e culturas”, lamentou Maria de Fátima.
INCT de Controle Biorracional
de Insetos Pragas: www.cbip.ufscar.br