Venenos raros
e preciosos
quarta-feira, 9 setembro, 2009 19:00
Funed desenvolve parcerias
e ações educativas para coleta de animais
peçonhentos para produção de soros
Quando uma pessoa é
picada por um animal peçonhento (venenoso) e não
recebe o tratamento correto, com o soro adequado, as consequências
vão de sequelas graves até a morte. E para
a produção do soro, a extração
do veneno de algumas espécies de serpentes e escorpiões
é imprescindível.
A Fundação
Ezequiel Dias (Funed), uma das três instituições
brasileiras responsáveis pela produção
de soros antiofídicos e antiescorpiônicos no
Brasil, desenvolve uma série de projetos e parcerias
para manter regular o estoque de venenos, transformando
essa tarefa numa atividade de educação sócio-ambiental
e cooperação institucional.
Nos meses mais quentes
do ano, que já se aproximam, as ocorrências
de acidentes com animais peçonhentos são mais
frequentes, pois é nesse período que as serpentes
e escorpiões se tornam mais ativos e saem em busca
de alimentos. Em média, a Funed recebe cerca de 25
cobras por semana (100 animais/mês). No mês
de agosto, por exemplo, a Fundação recebeu
83 serpentes, a maioria do gênero Crotalus, popularmente
conhecida como cascavel, que é a mais comum na região
Sudeste.
Serpentes como a da
espécie Micrurus Frontalis, mais conhecida como coral,
são raridades, assim como as serpentes do gênero
Lachesis, popularmente conhecida como surucucu. Uma das
formas encontradas pela Fundação Ezequiel
Dias para manter a regularidade de venenos desses animais,
menos comuns na região, foi a elaboração
e implantação do Projeto Micrurus: ampliação
de plantel e manejo em cativeiro. O objetivo é aumentar
o número de exemplares das cobras do gênero
Micrurus - ao qual pertence a coral verdadeira - para extração
do veneno, utilizado na produção do soro antielapídico.
Segundo uma das autoras do projeto,
a biológa Giselle Cotta, além de garantir
a quantidade adequada de veneno, o objetivo é conhecer
mais sobre a biologia do animal e, dessa forma, melhorar
as técnicas de manejo em cativeiro. “As corais
verdadeiras possuem hábitos que dificultam sua captura
– têm atividade maior à noite e ficam
sempre escondidos, preferencialmente embaixo de folhas,
enterrados no solo ou sob galhos de árvores. O projeto
nos permite pesquisar, produzir e criar em cativeiro esses
animais”, afirma. Atualmente, a Funed possui nove
exemplares de corais, sendo seis Micrurus Frontalis e três
Micrurus Coralinus. Parte delas foi doada pela Fundação
Cobra Viva, localizada em Santa Catarina, outra parceira
da Funed. Por meio do projeto, a expectativa é de
que esse número chegue a 30.
O Serviço de Animais
Peçonhentos da Funed faz o cadastro de todas as cobras,
aranhas e escorpiões recebidos e foi por meio dessas
informações que a equipe do serpentário
identificou a área de aparecimento mais frequente
das corais verdadeiras, em locais próximos aos municípios
de Nova Lima, Brumadinho, Itabirito e Santa Luzia.
Depois da coleta e análise
de dados, realizadas nos últimos três meses,
foram estabelecidos contatos com dez condomínios
situados nessas regiões, com o objetivo de apresentar
o projeto à comunidade local. Desde o mês de
agosto, começaram a ser realizadas visitas da equipe
da Funed, com palestras e treinamentos sobre hábitos
e captura de serpentes aos moradores e funcionários.
Durante as visitas, são fornecidas também
caixas para guardar os exemplares recolhidos e um gancho
para realizar a captura de maneira segura. Os colaboradores
são também orientados sobre como identificar
a verdadeira cobra coral, que com frequencia é confundida
com outras espécies. Uma das características
da coral verdadeira é que seus olhos são pretos
e muito pequenos, quase imperceptíveis. Além
disso, ela apresenta cauda curta, que se enrola quando o
animal se sente ameaçado.
A Funed realiza visitas periódicas
e também monitora por telefone os condomínios
participantes da iniciativa. Giselle acredita que os resultados
serão alcançados a longo prazo, cerca de 24
meses. “O projeto cria a oportunidade de a sociedade
entender a importância das serpentes para o meio ambiente
e para a saúde pública”, afirma. A bióloga
Flávia Cappuccio também trabalhou na elaboração
do Projeto Micrurus, que teve a colaboração
da estagiária Julianne Cosse e foi licenciado pelo
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama).
Outra iniciativa para
manter a regularidade do estoque de venenos já em
andamento na Funed é o estabelecimento de uma parceria
com o Instituto Vital Brazil (IVB), do Rio de Janeiro, para
doação de serpentes do gênero Lachesis
(surucucu). No primeiro momento, a parceria prevê
o recebimento de doações do veneno da serpente,
e, depois, a possibilidade de doação, pelo
IVB à Funed, de uma surucucu fêmea, tornando
possível tentar uma procriação em cativeiro,
já que a Fundação já possui
um exemplar macho.
Escorpiões
Segundo Rômulo
Righi Toledo, chefe do Serviço de Animais Peçonhentos
da Funed, os escorpiões são facilmente encontrados
nos centros urbanos, principalmente em locais onde há
acúmulo de lixo, entulho e locais com falta de saneamento
básico. No Brasil, entre 2001 e 2006, 70% dos acidentes
causados por picadas de escorpião ocorreram nas áreas
urbanas. Em Minas Gerais, no ano de 2008, foram registrados
9.594 acidentes, segundo dados do Sistema de Informação
de Agravos de Notificações (Sinan), ligado
ao Ministério da Saúde. Normalmente, esses
animais são exterminados pelos cidadãos que
os encontram, o que impede o aproveitamento do animal em
cativeiro. Para manter o número ideal de exemplares
para produção do soro – cerca de 1.500
– a Funed conta com a colaboração das
Secretarias Municipais de Saúde do Estado e também
com os setores de zoonoses das prefeituras. Um exemplo dessa
colaboração foi a doação de
624 escorpiões, neste mês de setembro, pela
Prefeitura de Ituiutaba. Visando fortalecer essa parceria,
está em estudo, pela Secretaria de Estado da Saúde
e pelas Vigilâncias Municipais de Saúde, o
estabelecimento de uma norma determinando a entrega à
Funed dos animais vivos encontrados durante as visitas dos
agentes comunitários de saúde às residências.
Dicas
Ao encontrar um escorpião,
jamais deve haver a tentativa de capturá-lo diretamente
com as mãos. É preciso usar luvas e uma pinça
longa (com cerca de 20 cm). Caso não seja possível,
uma pá pode ser a alternativa. Após a captura,
é preciso que o animal seja acondicionado vivo dentro
de um pote plástico, com furos na tampa em um algodão
úmido, para permitir respiração do
escorpião. Em casos de picadas de escorpião
ou serpentes, o indicado é procurar atendimento médico
mais próximo do local do acidente. Nunca amarrar
ou cortar o local da picada, nem fazer torniquetes. Também
não se deve medicar o enfermo antes do atendimento
e avaliação do médico. Os paliativos
não diminuem a ação do veneno, apenas
retardam e dificultam o atendimento correto. Em Belo Horizonte,
o Hospital João XXIII é referência no
atendimento de pessoas picadas por animais peçonhentos.
Todos os anos, o Ministério
da Saúde estabelece qual será a demanda de
soro necessária para atender as necessidades do país
e repassa uma proposta para a Funed estabelecer a quantidade
que a Fundação irá produzir. No ano
de 2009, a Funed produziu cerca de 167 mil ampolas e planeja
produzir 214 mil ampolas em 2010. Após a produção,
a Funed encaminha os soros para a Central Nacional de Armazenamento
e Distribuição de Imunobiológicos (Cenadi),
localizada no Rio de Janeiro. Compete à Cenadi distribuir
os soros para todas as Secretarias Estaduais de Saúde.
Assessoria de
Comunicação Social
Fundação Ezequiel Dias - Funed
www.funed.mg.gov.br