O Século
da mulher
quarta-feira,
4 março, 2009 18:28
Segundo um estudo estatístico
realizado pelo Instituto Galupp, a pedido da Sociedade Brasileira
de Cirurgia Plástica, que tem por base os anos de
2003 e 2004, sabemos que mais de 60% das cirurgias realizadas
no Brasil foram de caráter estético e, dessas,
cerca de 80% foram realizadas em pacientes do sexo feminino.
Aproveitando a iminência do Dia Internacional da Mulher
(08 de março), risco um paralelo entre a evolução
sócio cultural da mulher e a evolução
da cirurgia plástica. Essa data, ao ser criada, não
pretendia apenas comemorar. O objetivo é discutir
o papel da mulher na sociedade atual.
No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma
fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana
de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica
e começaram a reivindicar melhores condições
de trabalho, tais como redução na carga horária
diária para dez horas (as fábricas exigiam
16 horas de trabalho por dia), equiparação
de salários com dos homens (elas chegavam a receber
até um terço do salário de um homem
para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno
dentro do ambiente em que trabalhavam. A manifestação
foi reprimida com grande violência. As mulheres foram
trancadas e queimadas dentro da fábrica. Aproximadamente
130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente
desumano.
A história nos mostra que em meados do século
XX, no Brasil, ainda existia uma enorme discrepância
entre as regalias dos homens e das mulheres. Não
se esperava da mulher que ela fosse companheira do marido,
pelo contrário, as suas principais atividades giravam
em torno da criação dos filhos e da prestação
de serviços ao homem. Esperava-se da mulher que ela
ficasse quieta em público. As mulheres definiam para
si uma série de papéis submissos e dependentes
do sexo oposto. O conformismo era o traço predominante
no relacionamento entre elas.
No período próximo as duas Grandes Guerras,
o número de pessoas mutiladas por ferimentos de guerra
era muito grande e impulsionou a criação de
hospitais especializados no tratamento dessas sequelas.
Os médicos eram cirurgiões-gerais que passaram
a se dedicar exclusivamente à cirurgia reparadora.
Por volta de 1970, as mulheres elevaram seu nível
educacional. A educação acabou facilitando
a participação crescente delas no mercado
de trabalho. Mas não é só isso. Os
investimentos das mulheres em educação têm
impactos que vão muito além do seu progresso
pessoal. Elas, quando educadas, cuidam melhor da sua saúde,
da saúde da família e, em especial, das crianças.
Mães educadas transferem bons hábitos de higiene
para os filhos e orientam suas vidas de modo mais seguro.
Elas ajudam as crianças na escola, reduzindo a repetência
e a evasão. Ou seja, a educação da
mulher se transfere para as gerações seguintes.
Além disso, a educação leva as mulheres
à liberdade sexual e à terem menos filhos,
diminuindo o risco da gravidez indesejada e reduziram o
tamanho da família. Ocupam agora uma posição
estratégica na modelagem da sociedade.
Era também inicio da Cirurgia Plástica Moderna,
que apresentou um desenvolvimento muito grande na Europa
e de lá se difundiu para o mundo.
Nos últimos 40 anos, as mulheres conquistaram o mercado
de trabalho e sua independência financeira, se divorciaram,
passaram a ocupar postos de poder político e administrativos,
mostraram que são tão competentes quanto os
homens e muito mais dedicadas em tudo que se envolvem.
As cirurgias plásticas estéticas começaram
a ganhar espaço nos últimos 30 anos, principalmente,
por meio do ilustre Prof. Ivo Pitanguy. Essas intervenções
se destacaram por meio da mídia e tinham, inicialmente,
como pacientes as mulheres de maior poder aquisitivo, que
passaram pela maternidade e que tinham sofrido modificações
indesejáveis em suas mamas e abdômen. Nesse
período, essas cirurgias eram inacessíveis
à maioria das mulheres, pois havia poucos especialistas
e os preços eram proibitivos.
Todos esses acontecimentos ajudaram a criar um estereótipo
de mulher, constantemente em busca da “perfeição”.
Elas “têm” que ser modernas, práticas,
capazes de exercer suas funções domésticas,
conviverem bem em diversos segmentos da vida social, e ainda,
estarem belas.
Temos que reconhecer que, com a nova posição
social da mulher como consumidora exigente e diferenciada,
o poder de compra vem crescendo de forma acelerada, despertando
o interesse de inúmeros setores do mercado. Isso
obriga o mercado feminino a estar constantemente atualizando,
na intenção de atender as necessidades desse
público.
Os procedimentos estéticos tem se tornado cada vez
mais sofisticados, com resultados cada vez mais refinados.
Com o aumento na expectativa de vida, da melhora de condições
econômicas e da manutenção da saúde
vem o desejo do rejuvenescimento. “Perfeição”,
ou melhor, na busca otimista para o aprimoramento do corpo
e até de superação das limitações
impostas pela condição humana por meio da
tecnologia. Novas técnicas e materiais foram desenvolvidos,
cirurgias minimamente invasivas e vídeo-endoscopia
vêm de encontro às necessidades das pacientes
de poderem voltar o mais breve possível às
suas atividades. Outros procedimentos cosméticos
de mudança de forma e rejuvenescimento se tornaram
cada vez mais interessantes, auxiliando a volta da confiança
e da autoestima.
Atualmente o Brasil ocupa uma posição de destaque
mundial em relação ao número de cirurgias
plásticas realizadas anualmente, fica atrás
somente dos EUA. Prova da democratização de
uma série de procedimento antes elitizado, incorporando-os
à sociedade, como recursos dos mais utilizados para
obtenção de uma finalidade: o bem estar.
Avaliando essa evolução, foi possível
apreender que, mesmo diante da necessidade de modernização,
libertação e versatilidade, a mulher continua
desenvolvendo o seu papel de dona-de-casa, administradora
do lar, mãe e esposa, porém, tendo a necessidade
de manter-se bela e atraente ao colocar em prática
o seu poder de sedução.
O avanço da noção dos direitos humanos
e o aumento da demanda pelo tratamento adequado marcam as
próximas décadas com um movimento francamente
equalizador, entre aqueles que durante séculos foram
tratados de forma diferente no trabalho e na sociedade.
Tudo indica que este e é o século da mulher.
Dr. Fernando Fernandes.
Médico cirurgião plástico.
Especialista pela SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia
Plástica).
Titular da SBQ (Sociedade Brasileira de Queimaduras).
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