segunda-feira,
17 novembro, 2008 18:12
Nossa
Consciência Negra
O Dia da Consciência
Negra, 20 de novembro, é feriado em 335 cidades,
segundo levantamento da Seppir-Secretaria Especial de Políticas
de Promoção da Igualdade Racial. A data, que
será tema de diversos eventos pelo país, lembra
o dia em que foi assassinado, no ano de 1695, o líder
Francisco Zumbi, do Quilombo dos Palmares, herói
e um dos principais símbolos da resistência
negra à escravidão.
Havia em Pernambuco, Minas Gerais, Bahia e outros estados
cerca de 700 quilombos, 2600 comunidades remanescentes e
milhares de insurreições que lutaram contra
o jugo dos senhores de escravos, período que o sociólogo
Clovis Moura definiu como modo escravista colonial. Em 1971,
ativistas do Grupo Palmares, do Rio Grande do Sul, chegaram
à conclusão de que o dia 20 de novembro tinha
sido a data da execução de Zumbi e estabeleceram-na
como Dia da Consciência Negra.
Em 2003, a lei 10.639, sancionada pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, estabeleceu a data como parte do calendário
escolar. Mas, apesar dessa agenda de eventos para celebrar
a negritude, a nossa consciência negra é fenômeno
novo dentre as várias manias adotadas pelo povo.
Hoje é chique ser black. É moderno cultivar
os valores da cultura black, enquanto o fosso social entre
brancos e negros ( os pretos e os pardos juntos ) mantém
o apartheid brasileiro inalterado.
O mito da democracia racial, por aqui, foi denunciado como
mentira pela realidade socialmente perversa e pelos dramáticos
indicadores sociais; que compravam que negro no Brasil está
associado à miséria e exclusão social.
Por exemplo, somente o IBGE calcula que precisaremos de
pelo menos 20 anos de políticas voltadas para as
ações afirmativas para colocar brancos e negros
em níveis mínimos de igualdade.Portanto,
a lembrança de datas como essas têm um viés
político muito forte: a resistência venceu
a escravidão. Por isso, suas atividades vêm
carregadas de tempero emocional.
Dessa forma, o Dia da Consciência Negra traz consigo
tantas e variadas atividades, como as marchas para aumentar
a consciência do pertencimento étnico, os protestos
mais raivosos e justos, e as homenagens aos homens e mulheres
negros ( Zumbi e Dandara, líderes da República
de Palmares; Osvaldão, líder da Guerrilha
do Araguaia; Machado de Assis, escritor; André Rebouças,
engenheiro especialista em engenharia hidráulica-ferroviária
e de portos; Chiquinha Gonzaga, compositora, pianista e
primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, João
Cândido, líder da Revolta da Chibata, entre
outros) que, de alguma forma, ajudaram na construção
da riqueza da nação mais negra fora do continente
africano.
E o maior significado desse dia é que longe do ranço
contra quem quer que seja, hoje a população
negra, ou os 49,8% do povo brasileiro, luta pelo cumprimento
do plano de ação assumido na Conferência
da ONU Contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerância Correlata em 2001 e pelas
propostas da Conferência Nacional de Promoção
de Igualdade Racial, organizada em 2005 pelo governo brasileiro.
Além disso, o Movimento Negro quer justiça
social aos próprios negros, aos povos de tradição
indígena e aos demais grupos que durante a construção
dessa nação-continente tiveram seus direitos
humanos violados.
Ou seja, no século XXI o debate sobre as alternativas
para o desenvolvimento sustentável, as soluções
para superação dos conflitos étnicos
e o combate ao preconceito e às desigualdades sócio-raciais
se dão entrelaçadas pelo culto à capacidade
de resistência dos povos e pelo clamor por eqüidade.
É inegável a herança africana na culinária,
na dança, no ethos do nosso povo, mas é inegável
também o atraso com que o Estado brasileiro trata
essas questões. Às vezes quando as assumem
o faz lentamente e de forma mais para negro ver do que para
negro ter justiça e respeito de fato.
Alexandre
Braga é Africanista, coordenador de comunicação
da Unegro-União de Negros Pela Igualdade e da coordenação
executiva do Fomene - Forum Mineiro de Entidades Negras.
Belo Horizonte-MG. www.unegro.org.br
e www.fomene.org.br
- bragafilosofia@yahoo.com.br