sexta-feira,
1 janeiro, 2010 16:57
A
guerra civil no Equador
Alexandre Braga
Uma guerra civil de
proporções ainda não calculadas poderá
assolar o Equador e retardar o processo de crescimento civilizatório
jamais visto nessa região andina. Processo que tem
a alcunha de “Socialismo do Século XXI”,
e cujo ideólogo é o Presidente da Venezuela
Hugo Chávez; suas várias medidas trouxeram
estabilidade política ao país, já que,
após 30 anos o Equador conseguiu reeleger um presidente
na esteira da reabertura democrática, promulgou uma
nova Carta Constitucional, sancionou uma série de
políticas em prol da promoção da igualdade
racial e tem intensa agenda de ações no setor
de desenvolvimento econômico.
Mas, apesar do clima
de otimismo que toma conta das pessoas nas ruas e comunidades
– afro e indígena -, com essa nova realidade
política, o fantasma do separatismo e de um possível
golpe de Estado não é expectativa de tempos
passados. Isso porque os grupos descontentes que saíram
derrotados nas recentes eleições parlamentares
equatorianas muitos deles representantes do setor financista
e das velhas camadas da elite, ainda mantêm vivas
as esperanças da volta ao poder central para frear
os avanços sociais que o Equador está trilhando
a duras penas.
Liderados por Jaime Nebot, do Partido PSC e prefeito de
Guaiaquil, um dos maiores centros da especulação
econômica da América Latina, e por Madera Guerrero,
essa pequena fração das oligarquias ainda
controla boa parte da economia, dos meios de comunicação
e exerce certa influência na opinião dos cidadãos
equatorianos. Nebot se reelegeu prefeito de Guaiaquil com
exatos 68,44% dos votos contra os 44,62% da candidata apoiada
por Rafael Correa, María Duarte.
O impasse começou
ainda nos pré-lançamentos das candidaturas
eleitorais no pleito convocado para escolher 124 membros
da Assembléia Nacional, 23 governadores, 221 prefeitos
e 1.581 vereadores, além do próprio mandatário
principal, o presidente da República. Correa sagrou-se
vitorioso ainda no primeiro turno das eleições
com 51,99%, tornando-se Presidente do Equador pela segunda
vez. Em janeiro, sua coligação “Pais”
lança a candidatura de María Duarte a prefeita
de Guaiaquil para enfrentar Jaime Nebot e Madera Guerrero,
que conta com o apoio maciço do empresariado local
e tem como triunfo o badalado Malécon - um centro
turístico de 2,5 km inaugurado quando Nebot foi chefe
da municipalidade no ano 2.000.
Nebot e Guerrero vencem
e lançam brutal campanha contra a decisão
do Presidente Rafael Correa de renegociar o contrato de
prestação de serviços da companhia
distribuidora de água Interagua por abusos nos preços
dos serviços prestados. Os opositores de Correa reclamam
ainda uma dívida de 34 milhões de dólares,
que supostamente o governo do Presidente teria com a cidade
de Guaiaquil. Jaime Nebot chama o governo de Rafael Correa
de “irresponsável e ineficiente”, e por
causa dessa decisão utiliza essa propalada pendência
para insuflar os moradores contra o governo central.
Para piorar os ânimos
dessa guerra anunciada, um grupo de camelôs e trabalhadores
informais reivindica o livre exercício profissional
nas ruas da cidade. Nebot alega que isso traria mais prejuízo
ao comércio, mas articula uma revolta desses comerciantes
informais contra o governo; para tanto organiza um “exercito”
de mais de 100.000 comités “cívicos”
para lutar contra Rafael Correa.
Essas ações
já provocaram diversos confrontos tanto com a Polícia
Metropolitana quanto com a Polícia Nacional. No interior
do Equador, a oposição é encabeçada
pelo empresário e homem mais rico do país,
Álvaro Noboa, candidato derrotado nas eleições
gerais de abril de 2009 e membro do Partido Renovador. Por
causa da aplicação do Projeto de Soberania
Energética, que deve consumir a cifra de 152 milhões
de dólares na melhoria do sistema elétrico
equatoriano, tem havido alguns casos de apagões em
Guaiaquil, Quito, Miraflores e Guayas, pois nessas localidades
acontece a interrupção temporária da
energia para a troca de novas turbinas pela CELEC- Transeletric
Companhia Elétrica do Equador.
Os oposicionistas Nebot,
Álvaro Noboa e consortes têm procurado insuflar
a população contra essas atualizações
no setor. O caso mais recente é o dos meios de comunicação,
em que está em curso o Projeto das Telecomunicações,
que visa corrigir históricas distorsões e
colocar em prática a justiça midiática.
A turba oposicionista tentou usar o fechamento temporário
da rádio Voz de Arutam, na cidade de Morona Santiago,
como motivo para que grupos indígenas se rebelassem
contra o governo Correa. Mas ninguém, e muitos desses
grupos mostraram que isso ocorreu porque a rádio
usava dos conteúdos violentos e atentava contra os
valores das crianças e adolescentes, crime que mundialmente
é condenável.
Vi, ouvi e presenciei
um Equador com todos os ingredientes de uma guerra civil
à flor da pele. Em que pese os ótimos compromissos
públicos da gestão de Rafael Correa com seu
povo, o clima de conspiração e separatismo
é muito forte pois setores importantes do sistema
financeiro, especulativo e empresarial e da elite não
se conformam em ver em ascenso o poder popular para beneficiar
os pobres e historicamente excluídos. Guaiaquil prepara-se
silenciosamente para ser o mais novo país latinomaericano,
a República de Guaiaquil com o beneplácito
dos Estados Unidos e incentivo do Banco Mundial.
Há inclusive
um plano, já pronto, de divisão territorial
com 7 zonas principais encabeçadas por Esmeraldas,
Pichincha, Cotopaxi, Manabí, Guayas, Cañar
e El Oro. Portanto, as notícias oficiosas divulgadas
pelas FARC, e reiteradas pelo camarada Hugo Chávez,
de que a Colômbia prepara intento militar contra a
soberania do Equador, não são nada desprezíveis.
Alexandre
Braga é Relações-Públicas, Articulista
e Coordenador de Comunicação da UNEGRO-União
de Negros Pela Igualdade - Minas Gerais/Brasil. bragafilosofia@yahoo.com.br