domingo,
5 setembro, 2010 19:08
Voto
facultativo
Eleição
após eleição ouve-se falar sempre que
o cidadão deve votar consciente, exercendo bem a
cidadania e por consequência fortalecendo a democracia.
A recomendação mais incisiva vem da imprensa;
mas políticos e até a própria Justiça
Eleitoral incentivam a conscientização sobre
a importância de votar, mas apenas quando as eleições
estão próximas.
Esse equívoco
é histórico e tem-se perpetuando. O argumento
dos defensores da permanência da obrigatoriedade limita-se
e se esgota na tese de que o brasileiro não sabe
votar e é desinteressado pela política. Pode
ser que o fato de ser forçado aumente a presença
dos votantes, mas não aumenta a legitimidade dos
eleitos, pois quem vota apenas para cumprir seu dever não
se interessa pela escolha do candidato, não participa
das decisões após eleito, e entende completa
a sua cidadania apenas com seu comparecimento às
urnas.
Deveria ser cobrado,
e não é, o envolvimento da sociedade nas decisões
administrativas dos eleitos. A começar por debates
nas escolas de ensino básico sobre as atribuições
de cada Poder. A discussão didática se limita
em dizer que o Poder Legislativo faz leis; o Executivo as
executa; e o Judiciário exige o cumprimento. Um debate
alienista, superficial e incompleto. Uma participação
efetiva poderia ser através do acompanhamento de
um projeto de lei nas Câmara e Senado Federais por
um grupo de pessoas. Visitas de alunos nas votações
das assembléias estaduais e nas câmaras municipais,
por exemplo, ajudaria na conscientização de
como o parlamentar vota e como o dinheiro seria gasto. Simulações
poderiam ser feitas nas escolas. Isso, sim, contribuiria
para o aperfeiçoamento da cidadania. Efetivamente,
o político só aparece quando é candidato
para dizer o seu número numa corrida, que impossibilita
decorar.
Além do mais,
essa obrigatoriedade assemelha-se à chamada indústria
da multa. Quando deixa de votar, o cidadão paga uma
multa de pouco mais de três reais, que tem a mesma
relevância do voto. O dinheiro arrecadado com as multas
vai para os partidos. Ora, os partidos são pessoas
de Direito Privado, como outra qualquer, ao receber dinheiro
de arrecadação pública, fere no mínimo
a razoabilidade e o bom-senso. Pouquíssimas pessoas
sabem quanto se arrecada e nenhuma sabe dessa destinação.
Seria muito mais justo o repasse a entidades de interesse
social relevante.
O Brasil tem tradição
em ser o último a acabar com as distorções.
Foi assim com a escravidão que, muitos entendem,
ainda continua, com os torturadores da Ditadura Militar,
com a legalização do aborto e do casamento
entre homossexuais.
Com a obrigatoriedade
do voto ocorre o mesmo. Não se lê nada nos
editoriais dos jornais; não se ouve nenhum democrata
falar nisso no rádio nem na televisão; nenhum
jornalista escreve sobre; não se sabe a posição
de nenhum famoso a respeito, mesmo daqueles que são
remunerados para falar bem ou mal de candidatos ou para
ter medo de outros. No Brasil o que é normal e razoável
passa a ser a exceção. Com os denominados
formadores de opinião não poderia ser diferente.
Eles são dolosa ou inconscientemente coniventes e
mais comprometidos em manter e eternizar a mediocridade.
Estamos nos acostumando com política como significado
de falcatrua, compra de parlamentares e desculpas pela continuação
permanente de problemas sociais.
Escrevi o primeiro
texto sobre o fim do voto obrigatório em 1998. Somente
o falecido Roberto Campos escreveu dois artigos no mesmo
sentido.
Com o voto obrigatório,
o Brasil está atrás de Bolívia e do
Haiti. Instituir o voto facultativo se faz imperioso até
para tornar coerente a defesa decantada da democracia. Tornar
um eleitor consciência tem se limitado em informar-lhe
a cor certa do botão que deva apertar na urna eletrônica.
Parece elementar: não há democracia onde o
voto é obrigatório.
Pedro
Cardoso da Costa, Bel. Direito - Interlagos/SP