terça-feira,
9 novembro, 2010 8:22
O alerta
do impostômetro
O novo recorde da arrecadação
nacional apontado recentemente pelo impostômetro da
Associação Comercial de São Paulo (um
trilhão de reais em 299 dias) corrobora o anseio
nacional de que, em 2011, dê-se prioridade absoluta
à reforma tributária. Será inaceitável
postergá-la, repetindo-se a omissão de sucessivos
governos e legislaturas, ao longo dos 22 anos desde a promulgação
da Constituição de 1988.
O problema é
ainda mais grave se levarmos em conta que o contribuinte
não tem proporcional retorno do que paga aos cofres
públicos, pois são precários os serviços
essenciais, como na educação e saúde,
estratégicos para a melhoria do Índice de
Desenvolvimento Humano e democratização das
oportunidades. Também se mostra ineficiente o combate
à criminalidade, e o Estado continua incapaz de solucionar
os gargalos da infraestrutura, principalmente em transportes
e energia. Além disso, os impostos muito elevados
reduzem o capital privado disponível para investimentos,
fazendo com que o crescimento do PIB fique aquém
do potencial.
Os equívocos
do sistema tributário não se limitam à
péssima relação custo-benefício
dos altos valores nominais da arrecadação
ante os serviços oferecidos pelo Estado. Renda, circulação
de bens e propriedade são tributadas de maneira equivocada
e há outras distorções, como o fato
de a tributação sobre o consumo no Brasil
ser altamente regressiva. Como o ICMS e IPI são inerentes
aos produtos, o imposto pago pelos indivíduos em
qualquer compra é proporcionalmente mais oneroso
quanto menor for sua renda.
Outros problemas são
a bitributação (como ocorre com o ICMS e o
IPI na indústria gráfica) e legislação
confusa, resultante de um emaranhado desconexo de leis e
portarias editadas pela União, estados e municípios,
contra a mesma base de contribuintes. Ademais, algumas unidades
federativas atiram-se à guerra fiscal, concedendo
isenções e descontos em impostos para atrair
investimentos e, mais recentemente, escancarar seus portos
ao ingresso de importações. Com isso, contribuem
para reduzir a competitividade dos produtos nacionais e
mitigar a criação de empregos.
Diante de tantos e
graves problemas, o impostômetro, além de sua
localização em frente à antológica
Praça do Pátio do Colegio, onde se deu a fundação
da cidade de São Paulo, estabelece nova e instigante
analogia com a história: seus números são
um alerta ao governo e ao parlamento a serem empossados
em 1º de janeiro, de que não se pode ignorar
indefinidamente as lições do passado.
Fabio Arruda Mortara, M.A., MSc., empresário,
é presidente da Associação Brasileira
da Indústria Gráfica (Abigraf Regional São
Paulo) e do Sindicato da Indústria Gráfica
no Estado de São Paulo (Sindigraf-SP).
Camila Del Nero | Ricardo Viveiros & Associados