quarta-feira,
10 novembro, 2010 9:25
O Fantasma
do crescente endividamento do consumidor
Ricardo
Loureiro
O crédito é
uma importante variável econômica, que promove
a expansão da atividade, amplia o poder de compra
dos consumidores e multiplica as transações.
Ainda que seja uma
experiência recente no país, de menos de duas
décadas, o crédito de massa já transformou
a economia e a vida do brasileiros. Os ganhos socioeconômicos
são indiscutíveis e tornam o mercado consumidor
um dos mais atraentes do planeta.
Com uma espetacular
perspectiva de crescimento, dada a baixa relação
crédito/PIB, de 46,7%, esta é a hora do Brasil
discutir o atual formato de seu sistema de crédito
e os impactos sobre o endividamento do consumidor, que evolui
aceleradamente.
O país não
dispõe de mecanismos para evitar o superendividamento
do consumidor e isto é uma vulnerabilidade. Como
não se sabe quem está com dívidas acima
de sua capacidade de pagamento e se desconhece o histórico
de crédito, há uma zona cinzenta entre quem
é bom ou mau pagador. Hoje, o superendividamento
ocorre de forma individualizada no Brasil, mas determina
impactos no coletivo. O prejuízo com os maus pagadores
é distribuído por todos os consumidores, por
meio do custo elevado do crédito, penalizando a grande
maioria que, de fato, paga bem.
Vários países
passaram por problemas de superendividamento de sua população,
alguns com crise e outros não, mas todos encontraram
uma única saída para isto.
Por exemplo, na Coréia
do Sul, em 1997, a Crise da Ásia, que quebrou boa
parte do sistema financeiro da região, pegou as famílias
altamente endividadas. Sem crédito bancário,
as famílias passaram a usar seus cartões de
crédito para pagamentos. De 1999 a 2002, o número
de cartões mais que dobrou e atingiu a marca de 100
milhões para uma população de 46 milhões.
Para se ter uma idéia da situação,
o saldo utilizado no cheque especial e no cartão
de crédito bateu os 114% do PIB. O endividamento
das famílias passou para 96% da renda disponível.
Sentindo o risco iminente, entre 2003 e 2004, os governantes
passaram a impor limites nesta modalidade, aumentando a
inadimplência das famílias, que chegou a 10,5%,
e mais insolvência para o sistema financeiro. Para
evitar o que poderia ainda ser pior, no segundo semestre
de 2004, o cadastro positivo entrou em operação,
para melhorar e aperfeiçoar o sistema e os relatórios
de crédito. No final daquele mesmo ano, a inadimplência
caiu para 5,5% e em 2005 para 3,2%. Hoje, a inadimplência
das famílias está em 1,1% e a Coréia
do Sul tem um sólido ambiente de crédito.
Hong Kong é
outro destaque na reversão do crescimento acelerado
do superendividamento. Em 2002, após um longo ciclo
de crescimento econômico, acompanhado por uma firme
expansão do crédito, a relação
endividamento familiar e renda disponível bateu os
140%. Lá existe o instrumento de falência pessoal,
que atende aqueles casos em que o consumidor não
tem ativos para pagar as diversas dívidas assumidas.
As falências pessoais decretadas atingiram o recorde
de 25.328 registros. Havia em Hong Kong uma situação
desconfortável, com cidadãos quebrados e instituições
com rentabilidade em queda e indo para na mesma direção.
Vale lembrar que tanto neste território chinês
quanto nos Estados Unidos e em outros países, o consumidor
que fica insolvente e entra em falência passa por
várias restrições. Em Honk Kong, seu
ativo é distribuído entre os credores. Nos
Estados Unidos, fica sem acesso ao crédito por uma
década.
Hong Kong implantou
seu cadastro positivo em junho de 2003 e, desde então,
tem promovido o compartilhamento das informações
positivas de crédito do consumidor. Como resultado,
já em 2004, a insolvência pessoal tinha caído
para 12.150 casos. O período de transição
para o novo sistema de crédito durou dois anos, com
o objetivo de criar uma firme cultura do cadastro positivo.
Em 2008, os registros de falências pessoais estavam
em 10.779 e, em 2009, com o impacto da crise financeira
global foram a 16.157 e devem voltar para o patamar abaixo
de 8 mil ocorrências nos próximos dois anos.
A população deste território e a economia
local estão livres dos problemas do superendividamento.
Hoje no Brasil, o envidamento
da população em comparação à
renda é de 39,1%, de acordo com o Banco Central.
É um número que não preocupa no momento,
porque a renda e o emprego também estão em
alta. Mas, vale a reflexão sobre os fatos.
A lição
que fica da Coréia do Sul e de Hong Kong e mais outros
países como a Tailândia e a África do
Sul, é que não se deve esperar a deterioração
do endividamento para se implantar um moderno e eficiente
sistema de crédito. Vários países,
de forma oposta, implantaram o cadastro positivo sem passar
pelo cenário crítico de uma crise de endividamento
do consumidor, como Portugal, Espanha, Itália, Alemanha,
Croácia, Irlanda, República Tcheca, Turquia,
Hungria, Marrocos, Arábia Saudita e muitos outros.
Este é um dos
desafios que se apresenta à economia brasileira:
ter um sistema avançado de avaliação
do risco de crédito, o cadastro positivo, que garante
qualidade ao crédito. Com ele é possível
gerenciar os efeitos colaterais do endividamento –
elevação do spread, dos juros e a restrição
do crédito.
Para que o endividamento
do brasileiro se torne sustentável é necessário
que a atual metodologia de avaliação do risco
seja revista, pois é uma prática ultrapassada
e ineficiente no que se propõe. Caso contrário,
continuaremos tendo no endividamento da população
um grande e ameaçador fantasma.
Ricardo
Loureiro é presidente da Serasa
Experian e da Experian América Latina.