quarta-feira,
1 dezembro, 2010 11:20
A dengue
e a educação para a limpeza pública
João
Vitte
Todos os anos, no final da primavera e início do
verão, é comum ver as comunidades se organizarem
para o combate ao mosquito da dengue, o Aedes aegypti, com
incentivo e orientação das autoridades responsáveis
pela saúde em relação à limpeza
pública. Durante o verão, a dengue está
diariamente presente na mídia, com reportagens sobre
os casos da doença e as ações dos governos
federal, estaduais e municipais e com textos que procuram
educar as pessoas sobre como combater o mosquito. Mas, se
todos os anos são tomados cuidados, por que houve
um aumento no número de casos de dengue?
De acordo com os últimos números do Ministério
da Saúde, divulgados pelo jornal “O Estado
de S.Paulo”, o número de casos de dengue no
Estado de São Paulo subiu 1.983,5% de 2009 para este
ano. Foram notificados 202.312 casos da doença de
janeiro até o dia 16 de outubro passado, contra 9.710
em 2009. Em todo o país, o número de casos
notificados subiu de 489.819 para 936.260 no mesmo período
- um aumento de 91,14%. Até o dia 16 de outubro,
o número de óbitos provocados pela dengue
chegou a 592, sendo 141 em São Paulo. No ano passado
foram 312 no país. Para o ministro da Saúde,
José Gomes Temporão, o cenário nacional
deste ano é "tão preocupante" quanto
o do ano passado.
O Ministério da Saúde diz que um dos motivos
para o crescimento das notificações é
a volta do sorotipo DEN-1, que circulou com grande intensidade
na década de 90 e voltou a predominar em alguns estados
no final de 2009. Há quem responsabilize as chuvas
e o forte calor, fenômeno que no verão passado
superou qualquer média de índices anteriores.
Obviamente, isso dificultou o trabalho dos governos junto
à população, mas é forçoso
reconhecer que as ações desenvolvidas pelas
autoridades nos anos anteriores se mostraram insuficientes
diante das condições climáticas adversas
da temporada passada.
O combate eficaz contra a dengue exige muito esforço
do poder público. É preciso ter agentes comunitários
que se dirijam até as residências, analisem
as áreas de perigo, expliquem por que as áreas
são consideradas de risco e estejam à disposição
para o esclarecimento de eventuais dúvidas. E isso
somente não basta. É preciso que a administração
pública dê o exemplo e não permita que
lixos se acumulem pela cidade e que haja o cuidado de manter
limpos os terrenos baldios.
Mas também é responsabilidade de cada um agir
para aniquilar as possibilidades de procriação
do mosquito. Afinal, é impossível ao poder
público vigiar locais como os quintais das casas,
as calhas, os vasos de plantas de todas as residências
etc. Mas esse processo de conscientização
também é trabalho do governo, seja através
de campanhas públicas ou de ações pontuais
nas escolas. É preciso educar a população.
Sabe-se que a limpeza pública ainda é ponto
fraco do brasileiro. Também não é um
serviço muito trabalhado pelos governos, a não
ser pelas prefeituras do litoral, durante o verão.
Porém, assim como a mãe fala a mesma coisa
para o filho no processo de educação, quantas
vezes forem necessárias, o governo deve falar constantemente
para a população sobre os riscos da falta
de limpeza. O cuidado constante com a limpeza pública
evita ratos, baratas e outros animais que trazem doenças.
Em Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, por
exemplo, esse cuidado teve um resultado exemplar. Nenhum
caso de dengue foi registrado no município no ano
passado. Os dois notificados foram “importados”.
Para esse resultado contribuíram ações
preventivas constantes. É feito um trabalho para
que as pessoas entendam a importância de manter suas
casas e a cidade limpas. A prefeitura oferece caçambas
de lixo, retira móveis, plantas e objetos velhos
nas residências, faz a coleta do óleo de cozinha
etc. E o poder público cobra da população
atitudes que levem à limpeza urbana. Há campanhas
periódicas para educar as pessoas sobre os cuidados
que se deve ter no dia-a-dia. São cuidados que muitas
vezes passam despercebidos, como o simples fato de se colocar
o lixo nas portas de casa somente no dia em que o lixeiro
passa. Ou então, a conscientização
de não jogar materiais nos terrenos baldios.
O resultado de todas essas ações pode ser
expresso em uma única palavra: saúde. E com
saúde não se brinca. É preciso levar
o assunto a sério, porque é a vida de seres
humanos que está em jogo.
* João Vitte é
prefeito de Santa Gertrudes, localizada no interior de São
Paulo.