quinta-feira, 2 dezembro, 2010 11:44
Menos
hipocrisia
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Organizador:
MORICONI, ITALO
Editora: OBJETIVA
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - CONTOS E CRÔNICAS |
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Rosely
Boschini
A decisão do Tribunal de Justiça de São
Paulo de impedir a distribuição do conceituado
livro “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”
a estudantes da rede pública de ensino cabe atenção,
mas o momento anterior de levar aos tribunais a questão
é motivo maior de reflexão devido à
forma com que foi tratada a causa.
É preciso construir
um debate mais amplo sobre essas contendas para não
cairmos no lugar comum de exacerbada austeridade moral às
letras e censura a obras literárias, principalmente
aquelas já consagradas e conhecidas como referência
do nosso idioma pela forma sublime com que usa palavras
e expressões da Língua Portuguesa.
Os textos dos livros
são repletos de traços de subjetividade que
os avalizam como o melhor meio para desenvolver o conhecimento
e a capacidade de reflexão. Não à toa
é o maior instrumento de aprendizado de crianças
e jovens.
Nesse campo, faz-se
necessário que todas as variáveis literárias
sejam apresentadas. Cabe nessa análise a inclusão
de obras clássicas a contemporâneas, de cunho
meramente pragmático e formal a relacionadas a temas
mais complexos, como religião, comportamento e ética.
Isso é inevitável e necessário para
o desenvolvimento humano. A conduta puritana em torno de
obras literárias não combina com o pensamento
flexível necessário para viver em uma sociedade
plural e democrática.
Portanto, torna-se
importante que pais de alunos e educadores formem debate
mais profundo do assunto – inclusive para busca de
solução adequada para seu ambiente —
antes de conduzir obras a questionamentos de cunho moral
por meio de grupos pouco familiarizados com a pedagogia
do ensino, como é o caso da obra tratada neste artigo.
Até porque muitos
desses livros antes de serem adotados em escolas passam
pelo crivo de sérias e competentes comissões
de seleção de material didático, composta
por um gama de profissionais alinhados à realidade
e às necessidades do estudante brasileiro. Vale ressaltar
que os mesmos estão sob a égide de importantes
programas governamentais de inclusão socioeducacional.
Discutir livros e leituras
é sadio e fundamental no processo da educação.
A velocidade com que o mundo caminha faz com que frequentemente
o próprio mercado se atente a revisar o seu conteúdo
editorial tratado em obras literárias, para acompanhar
as mudanças sociais e as novas condutas e atitudes
estabelecidas pelo mundo moderno.
Na mesma linha, o setor
editorial também presa pela manutenção
da liberdade de expressão e o avanço no tratamento
de temas que ampliem a observação apurada
da atualidade, para que todos possam viver de forma mais
harmoniosa nesse complexo mundo que nos cerca. A hipocrisia
na definição de livros que possam ser lidos
pelas crianças e jovens do país é o
pior remédio para combater a desarmonia entre as
pessoas.
*Rosely Boschini é
presidente da Câmara Brasileira do Livro - CBL