sexta-feira,
13 maio, 2011 8:42
A
segunda abolição
Alexandre
Braga
O Brasil não
foi o último país a abolir a escravidão.
Depois dele o fizeram a Coreia do Norte, em 1894, a China,
em 1910, o Nepal, em 1921; em 1928 aboliram a escravidão
o Irã e Serra Leoa, e em 1963 foi a vez dos Emirados
Árabes acabarem com o regime de servidão em
seu solo.
O Brasil, lindo por
natureza, já teve pelo menos quatro presidentes de
descendência africana: Campos Sales, 1898-1902; Nilo
Peçanha, 1909; Rodrigues Alves, 1902-1906; e Washington
Luis, 1926-1930. A Bahia, terra de todos os santos, não
é o estado brasileiro que possui a maior população
negra nacional conforme dados do último censo do
IBGE, de 2010.
Essa posição
é ocupada pelo estado de São Paulo. Mas proporcionalmente,
o município de Nossa Senhora das Dores, em Sergipe,
é a cidade mais negra do Brasil, com 98,7% de afrodescendentes,
um verdadeiro quilombo moderno.
Das chamadas grandes
cidades, São Paulo, a “capital” da América
Latina, possui a primeira posição das cidades
que abrigam o maior número de habitantes negros,
com quase 3 milhões de pretos e pardos. O Rio de
Janeiro vem em segundo lugar, com 2,3 milhões ou
40% de sua população; Salvador vem na terceira
posição, com 1,8 milhões de negros;
e Fortaleza, na quarta posição, com 1,2 milhões
de afros.
Esse conjunto de novas
informações é fruto das mais recentes
pesquisas históricas e a consolidação
de dados estatísticos realizados pelas mais importantes
universidades brasileiras, pesquisadores, órgãos
dos governos e por historiadores comprometidos em desfazer
a série de incorreções produzidas e
encasteladas na historiografia brasileira acerca da presença
do índio e dos negros na nossa sociedade.
Quase sempre essas incorreções
foram produzidas para inferiorizar a contribuição
de negros e índios no processo civilizacional do
país, ora para desvalorizar nossa ancestralidade
indígena ora para não reconhecer o forte legado
afro na cultura e outros setores essenciais da vida brasileira.
Processo de negação
este caracterizado pela ideologia do branqueamento, pela
qual as elites se exaltavam como brancas dominadoras e donas
absolutas da riqueza em solo, corpo e alma da vida nacional.
Tais elites empregaram para justificar essa superioridade
inexistente, o racismo, a escravidão e o controle
sobre os meios de comunicação, das terras
e sobre toda gama de dispositivos que pudessem contrariar
esses interesses.
Portanto, muito do que
se acreditou verdadeiro, descobriu-se falso a partir do
despertar da consciência nacional e do engajamento
político das camadas populares com apoio dos intelectuais,
dos artistas e políticos indigestos ao sistema.
O regime da escravidão,
por exemplo, foi um dos primeiros projetos a serem questionados
pelos militantes, que, naquela época, sonhavam com
um Brasil independente e soberano, ainda que suas ideias
estivessem carregadas de voluntarismo.
Já, agora, no
século XXI, a ideologia do “branqueamento”
vai perdendo força, pois a luta dos militantes ganhou
novos pontos de pauta que incluem diversos valores humanísticos
e temas da agenda da valorização dos direitos
humanos. Há, inclusive, leis específicas que
obrigam o ensino a novas versões sobre fatos e contribuições
dos negros e indígenas, como a Lei nº 10.639.
Essa Lei da historia negra nas escolas colocará no
debate a recontagem da contribuição africana
para o Brasil e trará para o povo o acesso às
informações que antes não eram divulgadas
pelas elites, mas que hoje são assuntos cada vez
mais presentes nos livros, revistas e na tv.
Portanto, o fato de
o Brasil ter sido um celeiro dessa “saga negra”
eleverá o interesse de autores ao tema, fortalecendo
a autoestima negra, o que definhará lentamente as
incorreções do passado e presente e colocará
as jovens gerações num patamar de civilidade
muito bom.
Hoje, como começa
a ser anunciado, o fato de o Brasil já ter tido alguns
presidentes com essa ascendência negra é um
acontecimento que nos orgulha. Pena que ainda os negros
tenham as piores condições de vida; figuram
nos mais inferiores índices de desenvolvimento humano,
desemprego, moradia; têm as piores colocações
no mundo do trabalho.
Portanto, há
concretamente a necessidade de se fazer uma grande
segunda abolição da escravatura, agora para
incluir os negros na sociedade do bem- estar, através
da promoção da igualdade, eliminação
das teias racistas e diminuição, em rito processual,
da violência contra as mulheres e os jovens.
Alexandre
Braga é Presidente da UNEGRO - Minas Gerais, tesoureiro
do Forum Mineiro de Entidades Negras e estudante de especialização
em Políticas Públicas pela UFOP - Universidade
Federal de Ouro Preto. bragafilosofia@yahoo.com.br