sexta-feira,
1 julho, 2011 22:56
Especialista
da USP questiona monotrilho
Em São Paulo,
justiça derruba liminar que impedia início
de obra da ligação Jabaquara-Morumbi, e Assembleia
autoriza operação de crédito para dois
outros projetos
Nesta semana, o tema
monotrilho voltou à tona em São Paulo. Na
quarta-feira (29), a Assembleia Legislativa do Estado aprovou
um projeto de lei que autoriza o governo a solicitar um
total de R$ 1,4 bilhão em crédito para a realização
de duas obras - a extensão da Linha 2-Verde do Metrô
até o Hospital Cidade Tiradentes, por sistema de
monotrilho, e a construção do metrô-leve
(Linha 18), que deve ligar a estação Tamanduateí
ao bairro de Alvarenga, em São Bernardo do Campo,
no ABC. Os orçamentos desses projetos somam R$ 8,7
bilhões. No dia seguinte, quinta-feira, a justiça
derrubou uma liminar que impedia, a pedido de moradores,
o início das obras da Linha 17-Ouro, que deve ligar
o Aeroporto de Congonhas à região do Morumbi,
e está orçada em R$ 3,17 bilhões.
Para Adalberto Maluf
Filho, pesquisador do Instituto de Relações
Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI),
o sistema de monotrilho ainda não é adequado
para o transporte de massa, por ser muito caro e ter capacidade
limitada. "Em função da beleza e da alta
confiabilidade, os monotrilhos foram desenvolvidos para
aplicações em aeroportos ou parques de diversão,
mas têm pouca capacidade para uso como meio de transporte
urbano", explica.
Como alternativa, o
pesquisador defende a priorização de investimentos
em corredores de ônibus de alta velocidade BRT (Bus
Rapid Transport), ciclovias e mesmo passeios para pedestres,
por serem mais eficientes e baratos. "Com R$ 1,5 bilhão
seria possível melhorar a vida de 15 milhões
de paulistas que usam ônibus na região metropolitana
toda, com um benefício econômico e social muito
maior do que investindo nesses projetos controversos de
monotrilhos", calcula.
De acordo com uma pesquisa
feita pelo especialista, os poucos monotrilhos com aplicação
urbana que deram certo no mundo custaram mais do que o previsto
inicialmente e foram projetados para serem erguidos sobre
largas avenidas, que não tinham muitos obstáculos
para a construção. "É uma realidade
não compatível com a situação
da Grande São Paulo. Quem vai pagar a conta se esses
projetos se somarem à enorme lista de obras abandonadas
e falidas pelo mundo?", questiona o especialista, citando
exemplos como Bankok, Jakarta, Seattle, Las Vegas e Johanesburgo,
entre tantos outros, que abandonaram seus projetos depois
de inúmeros processos de falências e escaladas
de preço.
Maluf Filho cita ainda
exemplos como Grécia e Dubai, que têm dificuldades
para pagar os investimentos feitos em projetos megalomaníacos
"segundo ele" de monotrilho e metrô-leve.
Lembra também que os projetos feitos para a Copa
do Mundo de 2010 da África do Sul foram substituídos
quase de última hora por corredores de ônibus,
depois de melhor avaliados. "Por que São Paulo
pretende seguir na contramão do mundo e apostar em
uma tecnologia que ainda carece de confiabilidade técnica
e de um histórico convincente de realizações?",
questiona.
O especialista lamenta
que outras cidades brasileiras, como Manaus, Salvador e
Recife, tenham sido influenciadas por São Paulo a
estudar a viabilidade dos monotrilhos. Em Manaus, felizmente,
o Ministério Público Federal e o Tribunal
de Contas da União conseguiram barrar o projeto de
monotrilho aprovado para a Copa, salvando bilhões
de reais do contribuinte brasileiro. Mas em Salvador, que
tem um projeto de metrô aéreo se arrastando
por 10 anos sem conclusão e um custo três vezes
maior que o inicialmente planejado, os governantes parecem
ter acreditado nas premissas extremamente otimistas oferecidas
pelas grandes construtoras brasileiras. Tenho dúvida
de que algum desses projetos saia do papel sem causar um
rombo gigantesco nos orçamentos públicos.
"O pior é que enquanto se estuda nada é
feito para melhorar a mobilidade urbana", conclui.
Flavia
Menani | Ex Libris