segunda-feira, 2 janeiro, 2012 10:38
Nosso
negócio é o Brasil
Ante o temor provocado
pela crise fiscal europeia, é muito pertinente refletir
sobre a conclusão de relatório divulgado no
final de novembro pela Comissão Econômica para
a América Latina e o Caribe (CEPAL): entre 1990 e
2010, a taxa de pobreza na região caiu 17 pontos
percentuais, recuando de 48,4% para 31,4% da população.
A indigência foi reduzida em 10,3 pontos (de 22,6%
para 12,3%). Os dois indicadores situam-se, agora, em seu
nível mais baixo dos últimos 20 anos.
Os dados desse novo
estudo, intitulado “Panorama Social da América
Latina 2011”, indicam que os países da região
deveriam prestar mais atenção ao seu potencial,
dedicar-se a corrigir os problemas que atrapalham suas economias,
ampliar ainda mais o processo de inclusão social,
desenvolvendo o mercado interno, e temer menos a crise europeia.
É preciso romper o paradigma da subserviência,
da dependência e do temor de que se o Hemisfério
Norte for mal, todo o mundo sucumbirá.
Essa reflexão
vale de modo mais enfático para o Brasil, que vem
promovendo, desde 2003, um expressivo movimento de ascensão
socioeconômica das classes de menor renda, que constituiu
reserva cambial superior a 300 bilhões de dólares,
que tem sistema financeiro sadio e monitorado, na medida
exata, pelo poder público, que soube adotar medidas
anticíclicas adequadas em 2008 e 2009 e que, a despeito
do menor crescimento em 2011, mantém o dinamismo
da economia.
Assim, vamos priorizar
soluções como as reformas tributária,
trabalhista e previdenciária, aumentar a segurança
jurídica e a pública, melhorar o ensino e
a saúde, resgatar o déficit da infraestrutura,
enfim, equacionar nossos reais problemas. Nossa economia
ganhou alavanca própria. Para ela é muito
mais importante vencer esses empecilhos históricos
do que a superação da crise do Velho Continente.
O Brasil não
pode desprezar-se. Hoje, já somos melhores do que
os europeus em muitossegmentos, como na decisiva área
de Tecnologia da Informação. Além disso,
estamos à frente no agronegócio e em energia,
incluindo fontes mais limpas e renováveis, como os
biocombustíveis e as hidrelétricas. A Europa,
com ou sem crise, continuará precisando de alimentos
para sua população e insumos para sua indústria,
e nós somos grandes fornecedores.
Cabe aos europeus encontrar
soluções para seus problemas. Suas dificuldades
são políticas. Afinal, para a mesma comunidade
monetária do Euro, há distintas realidades
na gestão do setor público. A despeito da
eficácia e responsabilidade de alguns governos, o
desequilíbrio fiscal gritante de outros contamina
a mesma moeda. Talvez devessem pensar numa uniformidade
mais aprofundada, derrubando de modo definitivo suas fronteiras
políticas. De imediato, uma das alternativas é
a que está sendo aventada por alguns economistas:
compra das dívidas das nações mais
afetadas pelo Banco Central Europeu, mesmo que seja utilizado
para isso dinheiro sem lastro, gerando certa inflação.
Isso, porém,
não é problema do Brasil. Nosso negócio
é priorizar o foco nas soluções internas,
acreditando em nosso potencial e capacidade. Estamos diante
de uma grande oportunidade histórica de nos consolidar
como uma das principais economias mundiais.
*Ivo Barbiero,
economista, é presidente da proScore, Bureau de Informação
e Análise de Crédito