Algas para enfrentar a Aids

Substâncias obtidas de algas marinhas inibem processo
de replicação do vírus HIV e poderão
resultar, em breve, no primeiro anti-retroviral brasileiro.
Compostos também podem ter aplicação
como microbicida (foto: Gutemberg Brito/IOC)
Por
Washington Castilhos, do Rio de Janeiro
Agência FAPESP – Algas marinhas
do litoral brasileiro poderão vir a ser uma importante
fonte para o tratamento e a prevenção da Aids
nos próximos anos.
Três substâncias – de
um total de 22 testadas –, obtidas a partir dessas
algas, mostraram promissora atividade inibitória
do processo de replicação do vírus
HIV em suas três fases: na transcriptase reversa,
na protease e, o mais importante, na morfogênese,
o que nenhum medicamento hoje existente no mercado faz.
Por essa razão, o Brasil poderá
ter, em breve, seu primeiro anti-retroviral, reforçando
o grupo das 17 drogas (todas importadas) que compõem
o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde.
O anúncio foi feito por pesquisadores do Instituto
Oswaldo Cruz (IOC), da Fundação Ataulpho de
Paiva (FAP) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) na
sexta-feira (29/8).
“Esta poderá ser uma nova alternativa
no arsenal terapêutico contra a Aids, sobretudo para
casos de resistência aos medicamentos tradicionais”,
afirmou o imunologista Luis Roberto Castello Branco, chefe
do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC.
Nos testes pré-clínicos –in
vitro (em tubos de ensaio e com tecidos humanos) e in vivo
(camundongos) – uma das substâncias, em particular,
identificada a partir de uma alga encontrada no atol das
Rocas, apresentou taxa de eficácia em sua ação
anti-retroviral de 98%, mesmo se aplicada em baixas concentrações.
Embora os três compostos tenham demonstrado
atividade inibidora da transcriptase (enzima que age na
primeira fase do ciclo replicativo viral), essa mesma substância
se revelou eficaz na inibição da protease
(que age no final do ciclo replicativo) e na morfogênese
(fase final, quando há a maturação
viral). Isto é o que, caso seja transformada em medicamento,
fará com que o fármaco brasileiro se destaque
entre os atualmente disponíveis.
“Diferentemente dos inibidores disponíveis
atualmente, percebemos que essa substância tem uma
função de atingir os três alvos: a transcriptase,
a protease e a morfogênese. Ou seja, ela bloqueia
a fase inicial e a final”, explicou o virologista
Cláudio Cirne, da Fundação Ataulpho
de Paiva, à Agência FAPESP.
“A grande falha dos medicamentos atuais
é que eles não conseguem bloquear o escape
do vírus, devido à sua capacidade de mutação.
Então, se existe uma substância que bloqueia
a fase final, inibindo também a morfogênese,
sua possibilidade de replicação será
mínima. O bloqueio da morfogênese faz com que
o vírus fique em uma forma completamente desorganizada
em sua estrutura”, afirmou.
O pesquisador observa, no entanto, que o
bloqueio da morfogênese não significa a erradicação
do vírus no organismo. “O HIV é um vírus
com forte capacidade de mutação, por isso
ele não vai deixar de existir”, salientou.
Além da ação anti-retroviral,
a substância mais promissora das três identificadas
apresentou toxicidade praticamente nula. Esta é outra
característica que a diferencia dos compostos atuais,
os quais, embora eficazes, são extremamente tóxicos
e caros.
O desenvolvimento de um anti-retroviral
nacional representará também uma alternativa
para a dependência estrangeira. O orçamento
de 2008 previsto pelo Programa Nacional de DST/Aids é
de R$ 1,3 bilhão, dos quais pouco mais de R$ 1 bilhão
é destinado aos gastos com medicamentos anti-retrovirais.
De acordo com os pesquisadores, a economia poderá
ser de 5% a 10%, o equivalente a R$ 50 ou R$ 100 milhões.
Os testes clínicos devem ter início
em 2010, na África – continente que tem os
mais elevados índices de incidência da doença
no mundo – e durar quatro anos. Segundo os cientistas,
as diferenças nas subtipagens virais entre Brasil
e África não serão significativas para
os testes.
“Não estamos desenvolvendo
uma vacina, e sim estudando inibidores da replicação
viral. Então, fazer o uso do AZT, por exemplo, em
um isolado no Brasil e em um isolado na África é
a mesma coisa. A enzima, responsável pela replicação,
é a mesma aqui e lá”, disse Cirne.
Microbicida
As três substâncias abriram
outra possibilidade para a equipe de pesquisadores do IOC,
FAP e UFF: o desenvolvimento de um microbicida de aplicação
local. O microbicida é voltado para uso vaginal,
permitindo às mulheres que se protejam da infecção
pelo vírus HIV mesmo sem o consentimento dos parceiros.
Estudos têm demonstrado a necessidade
de uma negociação no uso do preservativo masculino.
“Muitos homens não querem usá-lo e,
com isso, acabam infectando suas mulheres”, lembrou
Castello Branco. Segundo ele, os testes para o uso microbicida
das substâncias à base de algas foram exitosos.
“Uma das três substâncias
já foi testada em explantes [fragmentos de cérvix
uterino humano infectados pelo HIV, mantidos em cultura
em laboratório] na Universidade Saint George de Londres
e em nosso laboratório no IOC, e está entre
as 30 candidatas aceitas pela Aliança pelo Desenvolvimento
de Microbicidas, sendo a único da América
Latina no grupo”, disse o pesquisador. É também
a única à base de algas marinhas.
A grande questão que preocupa os
cientistas, no entanto, é que a quantidade dessas
algas existentes no Oceano Atlântico, entre a Carolina
do Norte, nos Estados Unidos, e o Rio de Janeiro, é
limitada. “Por isso, estamos investigando outras possibilidades
de fontes e de metodologias, como a síntese orgânica
em laboratório”, disse Castello Branco.
Os nomes das algas ainda
estão guardados em sigilo. O estudo está em
fase de patenteamento. Se desenvolvidos, os medicamentos
anti-retrovirais e o microbicida brasileiros à base
de algas marinhas vão representar mais uma esperança
para as 33,2 milhões de pessoas infectadas com o
vírus HIV no mundo, que teve 2,5 milhões de
novos casos em 2007. No mesmo ano, 2,1 milhões morreram
infectados. Na América Latina, são 1,6 milhão
de pessoas vivendo com Aids, um terço dos casos somente
no Brasil.