segunda-feira, 23 novembro, 2009 18:19
Especialista
esclarece dúvidas sobre meningite e comenta cenário
atual da doença no país
Pâmela
Pinto
Você sabia que somente
a meningite bacteriana meningocócica tem potencial
epidêmico? E que ela é transmita por pessoas
sadias, portadoras assintomáticas do meningococo,
bactéria normalmente encontrada na garganta? O médico
especialista em doenças infecciosas e parasitárias
David Barroso, pesquisador do Laboratório de Sistemática
e Bioquímica do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz),
explica como ocorre a transmissão e a melhor forma
de prevenção desta doença, com casos
recentes no país, na região Nordeste.
O que é
a meningite?
É uma infecção no sistema nervoso central
que tem diferentes causas, sendo vírus e bactérias
as principais. A meningite bacteriana, mais frequente em
nosso país, é causada por uma bactéria
vulgarmente denominada de meningococo - a única com
potencial epidêmico. Este micro-organismo é
o agente causal da doença meningocócica, cujas
manifestações mais frequentes são a
meningite e a septicemia. Comumente a meningite ocorre junto
com a septicemia, clinicamente diagnosticada pela presença
de manchas hemorrágicas (petéquias ou manchas
equimóticas) na pele e mucosas (oral e conjuntival).
As petéquias são semelhantes à picada
de mosquito, porém não desaparecem com a compressão
digital.
Qual o cenário
atual da meningite no país?
Nesta década, a doença meningocócica
tem sido registrada no Brasil na forma de casos esporádicos
(1 a 5 casos por 100.000 habitantes), surtos localizados
ou aglomerados de casos. Epidemias de grandes proporções
(mais de 20 casos por 100.000 habitantes) não têm
sido observadas. Atualmente, há em vários
estados do país um aumento ou predomínio do
número de casos decorrentes do sorogrupo C, o qual
pode ser prevenido pelo uso de vacina.
Há risco
do surto ocorrido recentemente na Bahia chegar a outras
regiões do país?
Surtos como atualmente em curso na cidade de Porto Seguro,
causados pelo sorogrupo C, têm sido registrados em
outras regiões, como aqueles que ocorreram nas cidades
de Corupá (SC, 2001), Parati (RJ, 2004), Rio de Janeiro
(RJ, 2006), Petrópolis (RJ, 2007) e o balneário
de Búzios (RJ, 2008). Com o deslocamento rápido
de pessoas, a disseminação do meningococo,
que é uma bactéria normalmente encontrada
na garganta de pessoas sadias, se faz de uma maneira eficaz
e muito dificilmente contida, pois os portadores sadios
não adoecem e nada sentem durante semanas ou meses.
Como a meningite
é transmitida?
O doente não é a fonte de contágio,
a não ser em condições excepcionais,
como respiração boca-a-boca, mas sim os portadores
sadios, que apesar de estarem infectados pelo meningococo
não apresentam sintomas. Isto é verdadeiro
mesmo durante epidemias de grandes proporções.
A transmissão é feita de pessoa a pessoa por
meio das secreções eliminadas pela boca, durante
uma conversação, respiração,
tosse, espirros ou troca de saliva.
Qual o período
de incubação?
É um período curto, de 1 a 2 dias (variando
de 1 a 14 dias), acarretando doença grave e rapidamente
progressiva, de 12 a 24 horas, o que exige logo a internação
do doente.
Qual a melhor
forma de prevenção da doença?
A única forma eficaz de prevenção da
doença é a vacinação, o que
precisa ser realizado o mais rápido possível
durante situações emergenciais, para atingir
o máximo de proteção e benefício
para a comunidade. No entanto, a melhor forma de controle
da doença pelo sorogrupo C, atualmente, é
por meio da utilização de rotina da vacina
conjugada, a única com eficácia em crianças
menores de 2 anos e aquela que confere proteção
duradoura, independente da faixa etária. Deste modo
a vacina conjugada, que possui alta eficácia e segurança
de uso em larga escala, protege contra a doença na
sua forma esporádica ou epidêmica.
Quais são
os primeiros sintomas?
A doença meningocócica, normalmente, começa
com mal estar geral, febre e vômitos. Após
o início da febre e sintomas de infecção
do trato respiratório superior (dor de garganta),
surgem dores nas articulações e nos músculos.
Entre o primeiro e o segundo dia de doença, surgem
lesões hemorrágicas com rápida disseminação
por toda a pele.
Existe tratamento
para meningite? Como ele é feito?
Sim. O tratamento envolve internação hospitalar,
pela necessidade de terapia com antibiótico por via
venosa e outras medidas de suporte. Nos casos mais graves,
há necessidade também de tratamento de terapia
intensiva. É preciso frisar que o sucesso do tratamento
depende do diagnóstico rápido e a imediata
administração de antibiótico parenteral.
O tratamento é feito durante sete dias, sendo que
a alta é autorizada no oitavo dia de internação.
Que tipos de
pesquisas sobre meningite estão em andamento no IOC?
Atualmente, estamos investigando a origem da bactéria
meningocócica, mapeando sua sensibilidade aos antibióticos
e pesquisando alternativas vacinais. Padronizamos um ensaio
de PCR (sigla para Reação em Cadeia da Polimerase)
para o diagnóstico das principais causas de meningite
bacteriana (meningococo, pneumococo e hemófilos),
o que permite um aumento do número de casos confirmados
e um melhor acompanhamento do agravo.
Agência
Fiocruz de Notícias