Retrocesso qualitativo
25/7/2008
Por Alex Sander Alcântara
Agência FAPESP – Uma pesquisa publicada na Revista de Economia
e Sociologia Rural apresenta um diagnóstico preocupante em relação à mudança
na pauta das exportações agrícolas brasileiras.
As análises apontam que os ganhos de competitividade da agricultura
brasileira foram acompanhados por piora da qualidade das exportações.
Ou seja, os produtos básicos, de baixo valor adicional e que exploram
os recursos naturais foram os que mais ganharam espaço.
Os resultados mostraram ainda
que os ganhos de competitividade da agricultura brasileira se devem,
principalmente, ao aumento da quantidade exportada.
O estudo visa contribuir para o debate sobre a desindustrialização
no Brasil, atribuída à apreciação cambial que,
para vários autores, decorre do aumento das exportações
agrícolas.
O estudo foi realizado por Maria
Auxiliadora de Carvalho, pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola (IEA) da Secretaria de Agricultura
e Abastecimento do Estado de São Paulo e por César Roberto
Leite da Silva, também pesquisador do IEA e professor titular da
Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
“É uma situação preocupante pelo fato de que
as exportações de produtos básicos e que exploram
intensivamente os recursos naturais foram as que mais cresceram. Isso contribui
para a apreciação da moeda nacional, inibindo as exportações
de produtos industrializados, de maior valor agregado. É o processo
de desindustrialização, também chamado de doença
holandesa ou ainda, maldição dos recursos naturais”,
disse Maria Auxiliadora à Agência FAPESP.
A pesquisa analisou o período de 1991 a 2003, utilizando-se o modelo
constant market share (CMS) sobre informações de comércio
exterior da FAO, organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação. A partir da análise,
chegou-se à conclusão de que a exportação agrícola
brasileira cresceu mais que o potencial, resultado de aumento expressivo
da competitividade. Mas, após mudança cambial, em 1999, parte
da competitividade foi neutralizada pelo aumento da participação
com produtos de demanda mundial em declínio.
A metodologia permite separar
os efeitos da variação de
uma série qualquer entre dois momentos do tempo. No caso da pesquisa,
o modelo CMS foi aplicado sobre as médias do valor das exportações
agrícolas entre dois triênios, 1996-1998 e 2001 e 2003.
De acordo com a pesquisadora,
o valor da exportação é resultado
do produto do preço pela quantidade. Se houver um aumento de 10%
no valor da exportação da soja em grão, por exemplo,
isso pode ser resultado de muitas combinações de variações
de preço e de quantidade, até de uma queda no preço
e um aumento muito grande na quantidade, ou vice-versa.
“Quando o cálculo é feito com uma mercadoria só,
fica fácil calcular. Multiplicando a variação do preço
pela variação da quantidade temos a variação
do valor. Mas quando há muitas mercadorias é um pouco mais
complexo, porque os preços e as quantidades de alguns aumentam e
de outros diminuem. A somatória dos produtos da variação
do preço pela quantidade difere da variação do valor
total. Essa diferença é que chamamos de efeito flexibilidade,” explica.
Barato e abundante
Em outras palavras, diz, o que
aconteceu no caso brasileiro é que
houve um predomínio de produtos cujos preços internacionais
se reduziram, mas as quantidades exportadas se elevaram, o que causou um
efeito de flexibilidade negativo de 1,5% ao ano.
“O resultado disso é que o valor das exportações
cresceu à taxa média anual de 3,4% no período, mas
88,1% da receita das exportações provieram do aumento do
volume exportado de produtos com preços em baixa. O aumento de competitividade
se deve principalmente à maior quantidade exportada. Entre os triênios
1996-98 e 2001-03, por exemplo, a quantidade exportada cresceu 12,2% ao
ano, mas o preço teve queda de 7,3% ao ano em dólares”,
diz Maria Auxiliadora.
De acordo com ela, se a trajetória das exportações
brasileiras seguir o fluxo de aumento cada vez maior de commodities básicas, “estaremos
depauperando nossos recursos naturais com resultados econômicos limitados
e de curto prazo. De certa forma, estaremos reproduzindo as condições
dos ciclos econômicos que marcaram o começo da nossa história,
como o da cana e do café, com todas as implicações
em termos de vulnerabilidade externa”, alerta.
Ela destaca ainda que quando
a pesquisa foi feita os dados disponíveis
iam até 2003. Entretanto, embora nos últimos anos os preços
internacionais dos produtos agrícolas estejam em alta, “essa
vantagem vem sendo neutralizada pela sobrevalorização cambial.”
Para ler o artigo,
Mudanças na pauta das exportações
agrícolas brasileiras, de Maria Auxiliadora de Carvalho e César
Roberto Leite da Silva, disponível na biblioteca on-line SciELO
(Bireme/FAPESP), clique
aqui.
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