Água tratada naturalmente
Pesquisa
dá origem a sistema de tratamento de esgoto doméstico
que utiliza plantas ornamentais, pedra brita e bambu (foto:
divulgação)
Por Thiago
Romero
Agência
FAPESP – O engenheiro civil Luciano Zanella desenvolveu
um sistema de tratamento de esgoto doméstico que associa
a beleza das plantas com o bom desempenho na purificação
de efluentes de produtos naturais.
O sistema
utiliza espécies ornamentais fixadas em pedra ou bambu
colocados sobre uma camada de terra. No recipiente, a água
passa pelos espaços entre as pedras (ou anéis
de bambu), que, com a ajuda das raízes das plantas,
fazem a filtração.
O estudo
foi feito como trabalho de doutorado, defendido na Faculdade
de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo
Zanella, pesquisador do Laboratório de Instalações
Prediais e Saneamento, vinculado ao Centro Tecnológico
do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT), o dispositivo é indicado para o tratamento complementar
ao esgoto doméstico, após esse ter passado por
uma primeira etapa de purificação para remoção
dos resíduos mais pesados.
Em testes
realizados na Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp,
o engenheiro utilizou seis tanques de 2 mil litros cada. Os
tanques receberam amostras de esgoto que já tinham
passado por um primeiro tratamento na faculdade, sendo que
em três recipientes foram adicionadas pedras brita nº
1 até a borda e, nos outros três, anéis
de bambu.
"A
eficiência média de remoção de
sólidos em suspensão foi de cerca de 60% para
os tanques com brita e de 33% para os tanques com bambu. Os
valores médios de matéria orgânica foram
de 22 miligramas por litro (mg/l), com 60% de eficiência
de remoção, para os tanques de pedra brita,
e de 36 mg/l, com 33% de eficiência de remoção,
para os construídos com leito de bambu", disse
Zanella à Agência FAPESP. O esgoto que saía
da estação apresentava valor médio de
matéria orgânica de 54 mg/l.
Os resultados
médios obtidos para outro parâmetro de qualidade
da água, demanda química de oxigênio (DQO),
que mede indiretamente a carga de matéria orgânica
contida na amostra, foram de 63,9% para os dispositivos com
brita e plantas mistas e 55,8% sem o uso de plantas. No caso
dos anéis de bambu, os índices foram de 29,7%
e 20,4%, respectivamente.
Segundo
o pesquisador, o sistema mantém o padrão estético
dos jardins, diminuindo os níveis de rejeição
da população para os dispositivos de tratamento
de efluentes. Podem ser utilizadas diversas espécies
de plantas, entre as quais copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica),
papiro (Cyperus papyrus) e biri (Canna edulis), que colaboram
com o tratamento do esgoto ao mesmo tempo em que absorvem
nutrientes como fósforo e nitrogênio para crescer
com qualidade.
"A
planta cresce em cima do esgoto, que serve como uma espécie
de adubo natural para as espécies. O sistema lembra
o processo de hidroponia acrescido da ação de
microrganismos. Outra vantagem é que ele não
necessita de nenhum tipo de produto químico ou eletricidade",
disse Zanella.
Por ser
considerado de baixo custo, o sistema é considerado
ideal para pequenas propriedades. A água gerada pode
ser utilizada para a irrigação de plantações
e as plantas podem servir como uma fonte de renda extra pela
exploração comercial das flores e fibras vegetais.
"Em
uma população rural, por exemplo, seria possível
plantar espécies ornamentais para venda. As fibras
do caule do papiro, uma das plantas que melhor se adaptaram
ao sistema, também podem ser usadas para artesanato
na confecção de produtos como papel ou luminárias",
disse.
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