Cafeicultura
mais encorpada

Estudo aponta
para o nascimento de um novo segmento agrícola em
São Paulo com o estímulo, previsto para os
próximos anos, do cultivo de café robusta
no estado, cuja produtividade é maior e o custo de
produção menor do que o café arábica
(foto: IAC)
Por Thiago Romero
Agência FAPESP
– Confirmando a tendência de crescimento da
demanda por café robusta (Coffea canephora) em todo
o mundo, um estudo feito por pesquisadores do Instituto
de Economia Agrícola (IEA) e do Instituto Agronômico
(IAC) concluiu que a agricultura paulista está prestes
a criar um novo segmento: um aumento significativo do plantio
da espécie está previsto para os próximos
anos no interior do estado.
O trabalho, publicado
na edição de agosto da revista Informações
Econômicas, mostra que esse aumento deverá
ser estimulado pelo custo de produção mais
baixo e pelo manejo agronômico mais simples do café
robusta em relação ao café arábica
(Coffea arabica).
“Como o próprio
nome diz, a planta do café robusta é mais
vigorosa e produtiva, desde que adequadamente manejada do
ponto de vista agronômico. Seu custo é inferior
porque ela é tolerante a doenças fúngicas
e a pragas às quais o arábica é extremamente
sensível. A produtividade do robusta também
é significativamente maior”, disse Celso Luis
Vegro, pesquisador do IEA e um dos coordenadores do estudo,
à Agência FAPESP.
O trabalho é
um dos resultados do projeto Relações entre
os setores de produção e industrialização
do café dos principais estados produtores brasileiros
e a economia nacional: um modelo inter-regional de insumo-produto,
apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio Regular
a Pesquisa, em projeto coordenado por Flávia Maria
de Mello Bliska, do IAC.
De acordo com o estudo,
o custo para a safra 2005/2006 de produção
do café robusta foi de R$ 114,79 por saca, enquanto
o do café arábica foi de R$ 234,83 por saca.
O Estado de São Paulo é responsável
pela industrialização (torra, moagem e solubilização)
de aproximadamente 40% de todo o café produzido no
território nacional.
“Tradicionalmente
em São Paulo se produz café arábica.
Em uma média de duas safras, colhem-se no estado
aproximadamente quatro milhões de sacas de café
beneficiado, para um consumo que já se aproxima dos
seis milhões de sacas. Por conta disso, o estado
precisa comprar café de fora, principalmente de Minas
Gerais, Paraná, Espírito Santo e Rondônia”,
explicou Vegro.
O consumo brasileiro
de café atinge hoje 17 milhões de sacas ao
ano. Mas é justamente da demanda não atendida
pela cafeicultura paulista, no entanto, que surge a possibilidade
de sua diversificação com a cultura do café
robusta, que tem ainda uma concentração de
sólidos solúveis maior que o do arábica.
“Enquanto no arábica
o teor médio de cafeína é de 1,2%,
no robusta essa concentração chega a 4%. Isso
é apenas um exemplo entre as mais de 1,2 mil substâncias
gustativas e aromáticas existentes em um grão
de café”, disse o pesquisador.
“No café
robusta há um maior rendimento de sólidos
solúveis por unidade de produto processado, o que
torna o produto uma matéria-prima por excelência
para a indústria. Não há dúvida
de que o fortalecimento competitivo da indústria
de solubilização no Brasil depende de uma
oferta consistente de café robusta”, disse.
Outro ponto importante
é o fato de o porto de Santos embarcar cerca de 65%
das exportações de café e o país
ter uma carteira de pedidos de café robusta que não
consegue ser atendida, devido à grande concorrência
que existe por esse produto. “Ampliar a oferta paulista
do produto dinamizaria tanto o mercado interno como o comércio
exportador”, afirmou.
Mistura de cafés
Vegro esclarece que,
por ser um produto mais barato do que o arábica,
a indústria tem usado a estratégia de adicionar
um percentual crescente de café robusta no arábica,
para manter a competitividade. A produção
de café robusta no Brasil é da ordem de 11
milhões de sacas por ano, sendo que pelo menos 8
milhões delas são misturadas ao arábica
para o suprimento interno.
“Atualmente, as
principais marcas de café comercializadas têm
entre 40% e 60% de robusta na liga – e muitas vezes
se trata de um café robusta mal preparado, o que
acaba prejudicando o resultado final do produto”,
apontou.
O estudo mostra ainda
que o plantio de café robusta pode ser indicado para
áreas onde o cultivo de cana-de-açúcar
tenha restrições ou que não reúnam
condições adequadas para o café arábica.
“A legislação
ambiental no país está apertando o cerco contra
a queima da cana-de-açúcar. Paralelamente,
a legislação trabalhista pressiona os usineiros
para que melhorem as condições de trabalho
no corte, sendo a mecanização uma tendência
inexorável”, lembrou Vegro.
A colheita com máquinas,
aponta o pesquisador, é possível apenas em
áreas em que a declividade não vai além
de 15% a 20%, fazendo com que um grande número de
áreas agrícolas possa se tornar imprópria
para o cultivo da cana nos próximos anos. “E
o robusta mais uma vez aparece como alternativa economicamente
consistente para a diversificação dos produtores”,
reforça.
O pesquisador do IEA,
órgão vinculado à Secretaria de Agricultura
de São Paulo, ressaltou, no entanto, que a produção
do café robusta ocorrerá de modo complementar
à produção do café arábica
no estado, uma vez que o arábica deverá continuar
prevalecendo nos cinturões em que as condições
de altitude e de temperatura são favoráveis
a esse cultivo.
Essa tese é reforçada
por um amplo zoneamento agroclimático para o café
robusta, realizado recentemente por técnicos do IAC,
que mostra que as zonas preferenciais para seu cultivo são
bem divergentes daquelas em que se concentra o arábica.
“Portanto, o segmento
do robusta se estruturará sem qualquer prejuízo
para o arábica, sem contar que não haverá
estímulos financeiros para os produtores que adotarem
o robusta fora do zoneamento indicado. A meta do setor produtivo
em São Paulo é fazer com que o robusta não
interfira no arábica, e vice-versa. Será buscada
a complementaridade”, apontou.
Segundo Vegro está
prevista, ainda para 2008, a instalação de
cerca de 80 hectares de café robusta em caráter
experimental no interior paulista, sendo que novas políticas
públicas para o setor poderão ser criadas
a partir de 2009, permitindo a agregação da
agricultura familiar nesse novo segmento.
Com a inclusão
de dotações orçamentárias e
a reconfiguração de fundos de investimentos
existentes na Secretaria de Agricultura e Abastecimento,
a agricultura familiar também será beneficiada.
“É grande o potencial de geração
de renda local e as oportunidades de emprego desse novo
segmento produtor de robusta no estado”, disse.
Segundo ele, em um primeiro
momento o interesse é maior por parte da agricultura
empresarial. “A estação propícia
para o plantio se inicia em outubro, daí a urgência
desse setor que será o primeiro a experimentar os
lucros que a atividade irá gerar”, destacou
Vegro.
“O café
tem o potencial de gerar renda no local em que é
cultivado, diferentemente da cana-de-açúcar,
setor no qual há uma imensa concentração
econômica em grandes grupos nacionais e transnacionais.
A previsão do setor é que o cultivo do robusta
possa exibir crescimento muito razoável diante das
necessidades da indústria paulista nos próximos
dez anos”, disse.
Mais informações
sobre o estudo: www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=9396